Pesquisar neste blog

Origem das Visitas

AROLDO FILHO

https://www.facebook.com/DelfosJornal GRUPO AROLDO FILHO NO FACEBOOK

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A ALQUIMIA DOS ELFOS


A ALQUIMIA DOS ELFOS 

Autor: Marko Rogério

Capítulo 1: A FESTA 

Eu estudava deitado na cama do meu quarto, que ficava nos fundos do apartamento do vigésimo terceiro andar do Bloco B da Morada do Sol, quando minha tia Rosane resolveu me avisar que faltava uma hora e meia para o início da aula no PH, meu colégio de preparação para o vestibular. Fechei a apostila de matemática que o Marechal havia me emprestado, levantei-me e comecei a me vestir apropriadamente e saí com meu tênis preto que usava todos os dias para a aula. 

Estava ansioso nesse dia, pois ao final dele eu estaria na Lapa comemorando o vigésimo primeiro aniversário de algum amigo do Marechal.

 
O melhor das aulas de sexta-feira é que eu assistia a elas com a Ju do meu lado. Bom, como posso caracterizar a Ju: é uma garota excepcional, inteligentíssima, objetiva, centrada e que corre atrás de seus objetivos sem perder o foco. Encontro nela forças pra seguir adiante e vejo nela uma mulher de verdade. Faz jus ao título de Macho Alfa que recebe de alguns. Mas eu roubei pra mim... 


Durante a aula do Hormes ri muito de suas palhaçadas, é um professor singular e tem métodos de ensino muito interessantes: enquanto dá aula ele gosta de prender a atenção dos alunos com denotações e referências a outros professores colocando estes em situações inusitadas, sem contar o tal do porquinho que aparece aqui ou ali na aula dele. Durante a classe de Matemática Máster o Professor conseguiu fazer os alunos dormirem com uma matéria chata sobre polinômios de grau maior que três; uma matéria fácil, mas trabalhosa, o que caracteriza a matemática basicamente. 


Ao final da aula, levei a Ju até o seu ponto e voltei para casa. Tomei banho, escovei os dentes, vesti-me como gente de verdade e ao final de tudo até parecia um projeto de executivo, talvez não um projeto. No alto do meu metro e noventa e três, ajeitei o cabelo, já grande, amarrei os cadarços e desci para encontrar-me com a galera na parte inferior do edifício. Passei pelo Rafael, morador do condomínio, avistei o Allan, o Luquinhas e o Ralf jogando bola na quadra e parti para o ponto de ônibus defronte ao Rio-Sul. 


Encontrei-me com Marechal, Jean, Bella, Nicolle e o Faro no mirante. Encontraríamos com a Ju na Lapa. 


Pegamos o 433 que nos deixou na Marina da Glória então caminhamos até o inferninho. Inferninho não é exatamente um inferninho, o chamávamos assim porque é a única boate com entrada franca do local e estaria fechada exclusivamente para a festa essa noite. A Lapa, nessa sexta-feira a, como em todas, estava muito barulhenta, com sons que iam do Techno ao funk passando pelo axé, pop, pagode e até rap. Pessoas pipocavam dentro das casas de dança e fora eu via mais cabeças do que meus olhos poderiam contar.
 
Após avistar a Ju, decidimos entrar mesmo com o local ainda meio vazio. Conheci muitas pessoas novas, cumprimentei o aniversariante para quem eu acabara de ser apresentado como um brother de muita responsa do Marechal. A maioria dos rostos que me foram apresentados foram esquecidos em menos de cinco minutos, mas eu saberia que eram dali da festa pela roupa ou alguma outra característica singular. Com o tempo, o lugar foi enchendo progressivamente e logo quase não se podia respirar ali com tanta gente enfiada no mesmo lugar. Então se abriu uma cortina e atrás estava uma pista maior e metade da galera escoou-se àquele novo lugar para presenciar a cerimônia dos parabéns e participar da cantoria. 


A festa seguiu sem problemas até em torno de duas da manhã. Nesse horário resolvemos sair do inferninho o qual não poderíamos voltar a entrar caso quiséssemos, mas valeu à pena. Fora estavam muitas pessoas que conhecíamos e a festa já estava começando a ficar chata. 


Logo que saí, postei-me parado e voltei-me de frente para a entrada do Inferninho para esperar os outros, nesse momento, um bêbado esbarrou em mim por trás com força e caiu pra trás no chão. O pobre coitado levava uma sacola de cebola com latinhas de alumínio amassadas. Ajudei este a levantar-se absolutamente enojado por sua situação e logo saí com meus amigos. Caminhamos até o gramado que tem logo defronte ao Inferninho. É um ponto onde ficam muitos GLTTTs e quase sempre que vou à lapa fico por aqui se não estiver na boate de onde acabava de sair. 


Conversamos muito, conheci mais gente facilmente esquecível e consumimos muita bebida até cinco da manhã, então resolvemos pegar o ônibus pra voltar para casa. Todos pegariam o mesmo ônibus, exceto eu e Ju, pois eu a levaria para casa e logo iria para a minha própria. 
Depois que os garotos pegaram o ônibus deles, eu e Ju ficamos esperando o nosso ônibus. Foi quando eu ouvi um berro muito alto a uns dez metros de distância a minha direita, quando virei-me com curiosidade, levei uns três segundos para identificar o bêbado que havia esbarrado em mim e uma garrafa voando com toda a velocidade entre sua mão estendida e o ponto exato entre meus olhos. Não tive tempo nem de pôr a mão na frente e nem de desviar e a garrafa, me acertou em cheio na testa. Desmaiei na hora.


Capítulo 2: O MUNDO DOS ELFOS 

Quando voltei à consciência, sentia como se tivesse passado muitos dias, assim que mantive os olhos fechados e senti a dor de cabeça de ter bebido trezentos litros de vodka concentrada em um único ponto no meio da minha testa. Levei a mão até a cabeça. Senti que estava deitado em uma cama que parecia feita de algo macio, mas que espetava um pouco. Resolvi que seria necessário meus olhos assim, abri-os bem devagar, caso houvesse luz não queria ficar cego. Eu fitava um telhado de palha sobre uma estrutura de madeira escura, moldado muito toscamente. Ao meu lado uma grossa cortina de algodão visivelmente feita à mão e com técnicas muito rupestres, era uma casa de madeira, podia-se ver pela parede e pelo chão que parecia palha entrelaçada. Sentei-me na cama sem saber o que eu fazia em um local assim, pois pra mim isso nem existiria em pleno centro do Rio de Janeiro, em verdade eu esperava uma enfermeira gatinha e talvez um soro do meu lado.

Em lugar disso, encontrei uma mesinha de cabeceira com um copo de cerâmica e um vaso com um líquido vermelho que lembrava a sangue. Basto tocar os pés no chão que um homem muito mais alto que eu apareceu de imediato na minha divisória do que me lembrou uma enfermaria que eu havia visto na série televisiva Mad-Maria. O homem tinha a pele toda esverdeada bem clara e levava um arco armado e apontado pra mim, os lóbulos de suas orelhas se alongavam para cima terminando em duas pontas que me lembravam muito aos Night-Elf do World of Warcraft, ainda mais porque vestia-se a caráter. Levava um colete azul bebê desbotado pelo tempo, uma cota de couro por cima muito colada ao corpo, era possível distinguir as curvas de seu abdômen por cima da cota, suas calças só eram visíveis até os joelhos, pois aí começavam botas muito grossas típicas de lugares muito frios. No rosto algumas tatuagens que me lembraram um shaman ou algum tipo de druida. Até parecia um cosplay de WoW...

- Alto! - Alertou-me quando o fitei, então congelei. Apontava uma arma pra mim e eu estava absolutamente desarmado. Meu cérebro passou a queimar atrás de possibilidades. - Quem é você e o que faz na nossa floresta, humano?


Humano? Juro que pensei que ainda estivesse dormindo, mas aquilo parecia real demais, então decidi que se eu estivesse sonhando eu iria rir muito daquilo depois, mas para todos os efeitos achei melhor levar a ameaça a sério:

 - Sou Marko e estou em uma megalópole no coração do Brasil, pode me explicar de que floresta está falando? - Dito isso o homem me fez uma careta como se eu tivesse falado grego.
Então, decidiu levar-me a sério também dizendo:
- Pois bem Marko, não sei que é essa 'lópole' que diz, mas tenho que avisar-te, os elfos já assinaram com os humanos o tratado de paz, mas que não aceitariam mais vocês em nosso território ou vice-versa, se você estiver infectado será eliminado imediatamente, então, melhor que me diga agora, pois os testes irão acusar.


Não entendi nada e achei melhor explicar tudo desde o começo:

- Camarada, veja bem, não sei que lugar é esse, eu estava em uma festa na Lapa, conhece? Rio de Janeiro. A última coisa que me lembro foi que um bêbado maldito me jogou uma garrafa com muita força e me acertou na testa.

O Homem pareceu tentar processar minha informação e perguntou com muito ceticismo:
- Temos muitos rios e nenhum deles se chama assim. - Isso me deixou puto. - A garrafada explica o corte feio em sua fronte, mas precisamos saber se você está infectado.


- Não tenho nenhuma doença se é a isso que você se refere.


- Quero saber se você é um zumbi.
Surtei. Levantei-me e enfrentei-o como homem. Morrendo de medo, mas como homem:


- Qual foi companheiro? Eu tomo uma garrafada na cabeça e você se pinta de azul e me aponta uma flecha dizendo que vai me matar se eu for um zumbi? Se toca cara! - O Homem continuou a mirar-me com impassividade, mas baixou o arco com a frase seguinte:


- Você definitivamente não tem ideia de onde está não é?


- É óbvio que não! Você vai me dizer ou vai ficar me admirando a tarde toda? - Soltou uma risada de desaprovação e começou a falar desenfreadamente:


- Você está na Urânia, um reino recém-capturado dos humanos pelos elfos. Viemos de outro planeta dentro de um meteoro-nave e fizemos vários acordos com os humanos para poder colonizar esta área. Este planeta está repleto de humanos encantados com um vírus magicamente modificado transmitidos por um mosquito já extinto e esse vírus mantém o homem vivo, mas com um problema na circulação de Mana, o que os impede...


- Espera, espera circulação do que? - Tive que interrompê-lo. Eu conhecia Mana pelos jogos de RPG que é como algo que se usa para fazer mágica, mas até então era exclusivo de jogos para mim. - Que merda é Mana?

Ele me olhou abismado, mas explicou:
- Mana, o fluído que corre em nossas veias que nos permite usar a mágica.


- Mágica? Mágica? Isso não existe...


- Então explique isso: - Pegou um vaso com uma planta que estava atrás da cortina de algodão sem tocá-la e tocou a terra dentro dela, feito isso uma planta que eu nunca tinha visto na vida, passou a se desenvolver tão rápido como em um desenho animado. Ela cresceu uns trinta centímetros, então parou. Eu estava estarrecido, meu cérebro, até então absolutamente cético e ateu estava trabalhando a uma velocidade absolutamente louca tentando procurar uma explicação que não incluísse um sonho ou delírio meu. Nada.

Levantei-me e peguei o vaso da mão do homem, apalpei a planta, toquei nela com cuidado, cavei sob sua base para ver a raiz que estava firmemente enfiada na terra dentro do vaso.


- Isso é impossível. - Foi só o que consegui dizer depois de vários minutos analisando de perto a planta. - Me leva a um laboratório, se você pode mesmo fazer mágica, você não só vale ouro como pode usá-la para muitas curas de doenças.

- Nossos laboratórios só fazem testes com mágica. E não, a magia não pode ser usada assim tão facilmente com a medicina. Podemos criar plantas medicinais a partir de outras plantas médicas, mas não é fácil assim.


Depois de muito refletir e de meu cérebro literalmente fundir-se de tanto imaginar sobre o que eu acabara de presenciar deixei de lado e resolvi que, das duas, uma: ou eu estava definitivamente sonhando, ou eu tinha sido sugado por algum tipo de fissura no espaço-tempo e vim parar em um lugar absurdamente estranho e com uma lógica totalmente diferente que a vigente na terra. Pelo menos eu sabia que matemática, física, e, talvez, química continuassem constantes, visto que eu podia respirar o ar local, e que não me sentia nem mais pesado e eu me sentia como na terra normal. Questionei o homem:
- Certo, vou levar isso em conta e fingir que isso tudo é possível, continue sua história, por favor.


- Ok, Como eu ia dizendo, o problema da circulação de Mana dos zumbis é simples: eles não têm como guardar sua Mana nas pedras etéreas o que os mantém muito mais limitados que os humanos, com isso, esses porcos criaram a necromancia que é uma forma de sugar a Mana das plantas e da natureza à sua volta e usá-la para evocar criaturas e monstros que eles mesmos criaram e mantêm em aprisionados em outras dimensões pessoais. - Minha cabeça voava tentando imaginar todo esse universo de informações. - Você nunca foi à escola? Isso é matéria de História dos humanos!


- Cara, começo a pensar que não sou desse mundo. - O ceticismo se espalhou em seu rosto. - No meu mundo heróis nessa ciência são: Isaac Newton, Montesquieu, Einstein, Michelangelo, Sócrates, Napoleão, Platão. Temos História sim, mas na minha terra, não existe mágica, tudo tem uma lógica simples, as coisas são feitas de partículas tão pequenas, mais tão pequenas que não tem como ver, e a maioria das coisas são comprovadas com experiências muito minuciosas, feitas em laboratório. Átomos são constituídos de prótons, nêutrons e elétrons entre outras partes menores; moléculas são formadas de átomos distintos, células formam os seres humanos, animais e vegetais e acho que elfos também... - Ele estava na minha frente e eu não poderia negar. Não existe um homem com 3 metros e meio! - e muitas células formam os tecidos que formam os órgãos e logo os seres viventes. - O Homem estava visivelmente estarrecido com tanta informação. Ficou me fitando possivelmente tentando encontrar alguma lógica no que eu dizia.

- Bom, é tudo muito interessante, mas você está aqui, e aqui não temos átomos nem tecidos e muito menos Platão, assim que você precisa aprender como funciona o nosso mundo. Posso te ensinar muitas coisas já que fui designado para esse lugar perdido no meio do nada. Se estiver disposto, posso te ensinar sobre a história dos elfos nesse planeta e a dos humanos, até onde eu sei.


- Sim claro, se “está na chuva é pra se molhar” não? Só uma pergunta: Como me encontrou?


- Bom, te encontrei ao lado dessa garota - Apontou-me algo do outro lado da cortina de algodão. Circundei-a e vi uma inerte Juliana sobre uma cama de palha muito igual à que eu me levantara há pouco. Senti o sangue fugir do meu rosto e perguntei se estava bem, ao que me respondeu que sim:

- Ao que me parece ela está dormindo como você estava há pouco. Encontrei os dois deitados um do lado do outro no meio da floresta, você levava essa grande cicatriz na testa e ela nada. - suspirei com alívio ao perceber que ela respirava serenamente. Um tempo depois o elfo se volta para mim novamente e pergunta - Você a conhece?


- É só minha namorada... Agora não sei, se eu estiver sonhando possivelmente ela me conhecerá e ficaremos juntos ou simplesmente não vai ter ideia de quem sou. Agora se for tudo real aqui, certamente teremos que ficar juntos, uma vez que somos alienígenas por completo para esse lugar, a propósito, sei que elfos são imortais, quantos anos você tem?


- Não somos imortais, mas vivemos em média setecentos e cinquenta ou oitocentos anos uma vez que temos metabolismo extremamente lento, somos como plantas uma vez que só comemos plantas e eu tenho trezentos e setenta e quatro anos. - Era incrível, pois parecia que tinha aproximadamente trinta e cinco anos. Ao que parece a aparência de um elfo é a mesma que a dos humanos, mas com 10 vezes mais idade...


- Certo, não me dê mais informações, vamos acordar a Ju primeiro. A propósito, qual seu nome?


- Duvido que você possa pronunciá-lo então me chame somente de Gawaÿ, e se escreve com "w" e "ÿ" no final.
- Caraca! Te chamarei de Gawa e fechou ok?


- Certo, melhor acordar sua amiga agora, não?


- Claro. - Acerquei-me daquela garota que adoro tanto e antes de despertá-la de seu profundo sono, notei que tinha um corte em seu coturno esquerdo, cheguei perto para ver de que se tratava então identifiquei dentes de algum animal. Ao que parece algum animal nos havia atacado na floresta. Foquei novamente em meu alvo e toquei seu rosto com a mão. Como de costume ela estava muito gelada então comecei a passar a mão por seu pequeno rosto de modo a mover um pouco sua cabeça, acariciei seu cabelo pintado de rosa por um pouco de tempo, então, falei em seu ouvido que já era hora de despertar e senti que se mexia, então, afastei o resto do dela. Abriu os olhos bem de vagar, então, me viu e abriu um sorriso lindo como um diamante de brilho intenso, então, soube que ela me reconhecera. Com a voz fraca pronunciou meu nome:
- Marko? Onde estamos?


- Em alguma floresta no meio do nada, ao que parece estamos bem. Se recupere, então conversaremos, ok? - Percebi que não conseguia reconhecer nada à sua volta. Sentou-se na cama e perguntou-me por minha saúde, disse que estava bem, então, passou a analisar o local.

Apresentei-lhe Gawa e explicamos tudo o que Gawa já havia me dito. - É injusto! Você tem quase dois metros e ele quase três e eu não chego nem a um e trinta! - Refez a experiência da planta para que ela visse, então, pude ver em seu rosto o mesmo que eu havia feito há pouco. Foi engraçado. Quando Gawa terminou de falar a única coisa que ela conseguiu falar foi algo como "que foda". Dessa forma lancei:


- Ju, você entende o que está acontecendo aqui? Ao que parece, não sei como, estamos em outro mundo... Isso, pra mim, quer dizer que temos que aprender o que acontece aqui, a história desses caras e como funciona tudo por aqui... Ao que parece, nossa química não é muito útil aqui, otherwize, eles têm a mágica que, ao que me consta, esse sistema de Mana funciona como os vasos linfáticos ou o sistema de chackra do Naruto, não?


- Não gosto de Naruto, porra!

- Certo, tem uma comparação melhor?


- É, parece com o sistema de chackra do Naruto... ¬¬'


- Desculpa o que é Naruto? - Gawa estava boiando, então, lhe expliquei sobre televisão e então animação e logo sobre desenhos animados.


- Que mundo estranho... E você diz que não fazem mágica por lá...


- Não é mágica, tudo tem uma lógica e é bem projetado!


- Ok, ainda vou querer saber bem sobre isso. Agora quero ensinar vocês um pouco da história das relações humano-elficas, e então, quero ver se vocês sabem usar mágica.


- Usar mágica?! - Exclamamos em uníssimo.


- É claro, todo ser vivente pode usar mágica. - De repente, me senti cercado de perigo por todos os lados e, ao que parece, isso ficou estampado no meu rosto porque Gawa me aliviou:


- Tenha calma, homem, mágica não é só usada como forma de defesa ou ataque; não pense na magia como um instrumento bélico e sim como a melhor forma de adaptação de vida neste planeta. Temos muitas tecnologias para ajudar na Magia: varinhas, cajados, Pedras etéreas...


- Ééééééé, eu queria perguntar sobre essas pedras, que porcaria é essa? - Interrompi-o me lembrando de que já tinha falado sobre.

- São pedras preciosas, por assim dizer, valem muito dinheiro e nelas pode ser guardada muita Mana.


- E de onde vem a terminologia "energia etérea"? - Mandei


- Vem do éter que preenche o espaço vazio. - Lembrei-me do iluminismo que o Ataíde e anteriormente o Hélio, meus professores de História tanto falavam - A matéria é composta basicamente por Terra, Fogo, Água e Ar - Pasmei quando ouvi isso, mas não o interrompi - Nossos alquimistas descobriram que a matéria é formada por quatro elementos básicos e um gás onipresente. É como seus átomos e "elétrons", veja bem: o éter forma os outros quatro elementos além de preencher o espaço entre as outras partículas; na primeira era dos humanos, no ano 2264 um alquimista descobriu que a água tem forma esférica, o fogo tem forma piramidal de base triangular, a terra de forma tetraédrica, e o ar tem forma dodecaédrica e o éter você pode imaginar como as arestas que formam essas figuras geométricas. Entre uma partícula de ar e outra partícula de ar tem éter em abundância. Em lugares altos, temos pouco ar e pouco éter e em locais em nível do mar, muito ar e pouco éter. Entre as partículas de terra quase não tem éter, por isso você consegue empilhar terra na sua mão sem que ela fuja como a água, o fogo é uma forma especial de éter, por ter forma piramidal de base triangular, machuca muito quando você o toca e isso o faz uma boa forma de defesa, quem domina esse tipo de éter costuma ser militar. - Ao ouvir "tipo de éter" senti a Ju estremecer, então, me lembrei das implicações que isso levaria obrigando-me a interrompê-lo:

- Explique "Tipos de éter", por favor?


- Primeiro tenho que falar da água. No caso da água, só temos água. Nada de éter entre as partículas, tanto porque água é éter em uma forma especial: unidimensional. É como se o éter se quebrasse até virar pó mais fino possível, tão fino que se torna o que é água. Agora sobre os tipos de éter; o éter, como acabei de dizer, pode formar água, terra fogo e ar. As pessoas podem controlar qualquer tipo de Éter, mas costumam se especializar em um dos tipos. Comentei que se fossem melhores com fogo seria bom serem militares, pois o fogo, repetindo, é a parte que mais machuca do éter.

- Nunca fui bom com estudos, você tem livros sobre isso? Aceito também um caderno e uma caneta para anotações, se possível...


- Tenho livros de História, mas ficarei te devendo um caderno... Tome, fique com a caneta e pode riscar o livro.


- Agradeço, mas não risco livros, é um crime... Tentarei aprender sem precisar dela ;-)


- Certo, procure sobre as pedras etéreas que aí eu explicarei por cima pra vocês como descobriram.


Abri o livro e percebi que as imagens se mexiam, lembrei-me imediatamente de Harry Potter e senti a Ju rir do meu lado. Não comentamos nada, pois soubemos que teríamos que explicar um monte. Assim que abri logo na parte que falava sobre as pedras, vários gráficos intitulados "gráficos interativos" ilustravam as primeiras páginas, mas a primeira tinha uma única imagem dividida em três; a primeira foto mostrava uma mulher humana com um colar que levava três diamantes e duas esmeraldas; a segunda imagem mostrava uma garota recebendo uma safira extremamente fosca no centro de um grande salão de festas com muita gente bem-vestida; e na última figura jazia uma pedrinha na palma da mão de um elfo jovem.

- Posso reconhecer a safira, a esmeralda e os diamantes, mas essa pedra não me é familiar.


- Isso, nós chamamos de Pedra de Ônix, e é extremamente rara. Creio que você percebeu que a garota que recebe a safira está em uma festa não? – Assenti com a cabeça. – Pois bem, ela está recebendo sou presente de quinze das mãos de seus pais. Por aqui, toda garota com quinze anos recebe uma safira e todo garoto quando faz dezoito, recebe uma esmeralda. Isso se dá porque o sistema de Mana começa a se soltar nessa idade o que é muito bom porque você imaginaria bebês usando mágica que caos seria... De qualquer forma, as pedras têm uma hierarquia, quanto mais preciosa e, portanto mais rara e mais Mana a pedra pode armazenar. Veja bem, tem um quadro mostrando os níveis de raridade e poder de armazenamento das pedras.

Pude constatar ao analisar o quadro que a safira, que é azul, pode guardar em torno de setecentos “e” de Mana, a esmeralda vem logo depois e não aguenta muito mais que mil “e” de Mana, enquanto o rubi da um salto e aguenta até três mil “e” de Mana, seguindo a diante temos o âmbar e o diamante, com capacidades de dez mil “e” e cinquenta mil “e” respectivamente, e, por fim, a pedra ônix apresentava um armazenamento de cento e cinquenta mil “e” de Mana. Depois de muito bater cabeça resolvi perguntar:


- O que é “e”?


- Caraca, nem isso você sabe? Desculpa, estou desacostumado com... Bem... Esse nível de desinformação. “E” é a unidade de medida da Mana, é como o metro e o litro. – Pensei: eu entendi, é como o joule... – Usamos essa unidade para medir a quantidade de Mana que as pedras aguentam. Muitos alquimistas saíram feridos com os testes antes da invenção da câmara isolada, onde utilizavam-se de um bastão altamente condutor de mana para estimar o nível de Mana de pedras como esmeralda, diamante e a Ônix à distância porque as pedras explodem caso você exceda seus limites. A propósito, uma pedra ônix tem poder quase ilimitado. Existem outras pedras menores que guardam a Mana pessoal, mas são tão simples que quase não são usadas. Lápis-lazúli, gardel e kurt são algumas delas, mas a lápis guarda até 200 “e”, a gardel 350 “e” e a kurt 500 “e”. Muitos pais usam essas pedras para ensinar seus filhos a usar mágica antes do tempo e é óbvio que quase nunca acaba, bem... Quando usamos a Mana que outra pessoa guarda em uma pedra a eficiência da magia cai muito, mas, ainda assim, se pode sentir facilmente o gostinho da magia através desta.


- Existem adultos sem o sistema de Mana funcional? – Questionei.


- Pior; existem muitos adultos que não conseguem fazer magia de jeito nenhum. Encare-a como uma disciplina como Matemática e História, ou seja; você vai pra escola e aprende o básico e se quiser se aprofundar vai à universidade senão, siga sua vida com o que você já aprendeu. É claro que você, tanto com matemática como com mágica, pode fazer experiências caseiras, mas eu não aconselho muito isso com magia porque é algo sério e machuca fácil.

- Entendo... – É exatamente como química, brincar com fogo é legal, mas juntar dimetil-propano com carbonato de cálcio e esperar que tudo serão flores é imbecilidade.


- E você tem alguma pedra para vermos como funciona isso? – Quase tomei um susto quando a Ju resolveu se manifestar pela primeira vez desde o fim das explicações iniciais...


- Sim tenho, mas agora não é o tempo de mostrá-la a vocês.


- E o que vai nos ensinar agora, então? – Retrucou uma Juliana muito contrariada.


- Falarei sobre as ferramentas etéreas e como elas funcionam. – Aquiesci com a cabeça, então ele prosseguiu: - Nossos estudiosos, depois de descobrirem metais que conduzem a Mana com facilidade, passaram a criar milhares de utilitários encantados como por exemplo: cortadores e fatiadores automáticos, canetas que escrevem o que você dita, lamparinas que acendem sozinhas quando você passa e que se utilizam de pequenas fontes de mana para funcionar – Lembrou-me muito aparelho à base de pilha quando me explicou melhor esse aparato – memorandos que respondem quando você toca neles, dentre muitas outras coisas, mas pra vocês acho que será mais interessantes eu falar dos aparatos bélicos como as varas de condão, os cajados de anciãos e as luvas etéreas. – Fronte ao nosso silêncio, seguiu adiante – As varas de condão, usualmente têm uma pedra etérea na ponta, pedra essa que indica o poder do mago em questão. Basicamente, todo mundo tem uma vara de safira ou de esmeralda, são usadas em serviços caseiros. Os cajados de anciãos já são instrumentos mais sofisticados, costumam ter a mesma altura que o portador e é sempre incrustado de pedras etéreas as quais o portador está constantemente enchendo de mana. Já as luvas etéreas são estritamente militares porque são luvas projetadas para armazenamento de mana, pois elas têm um dispositivo que permite adicionar e remover pedras etéreas a qualquer momento de sua superfície e por acaso esse dispositivo é mágico e só funciona se o usuário for dono legítimo da luva, o que é bem interessante porque na verdade a luva escolhe o usuário... – Essa frase voltou a lembrar-me Harry Potter e a Ju também, pois percebi seu pequeno movimento ao meu lado. – Perguntas sobre as armas de nossos magos?


- Como funcionam?


- Bom, não sei como são as armas de vocês, mas servem basicamente como objeto de mira e logo de armazenamento de Mana. Muitos encantos precisam de mais Mana do que o usuário possui e a Mana não é reposta rapidinho, ela leva horas às vezes dias para ser reposta e isso leva o usuário a comprar esses aparatos. Muitas jóias levam pedras etéreas como mostram as figuras do livro e sugando a Mana guardada na jóia. Você pode usá-la na hora de uma batalha. Muita gente acha de maior praticidade encantar a caneta para escrever só quando se quer do que comprar uma já encantada que com o tempo perde o efeito facilmente.


- Como funcionam os feitiços? São como palavras que você fala, movimento da varinha, mentalização de algo, ou o que?


- Tecnicamente, basta você imaginar o que você quer e então se materializará com a intensidade da força de sua estocada da varinha na hora de lançar o feitiço. Por exemplo: se eu vejo alguém e aponto com minha varinha desejando que a pessoa morra, ela só vai morrer se eu realmente odiar do fundo do meu coração aquela pessoa e ainda assim tem diversos fatores que influem nisso. Muitas pessoas criam em volta de si barreiras mentais com medo de coisas assim. Algo que eu percebi fácil, fácil que vocês não têm. Logo, resolveremos isso...


- Agora, e os militares são todos magos?


- Jamais. Na verdade, uma minoria exorbitante é de magos... os outros são arqueiros, tankers, druidas, cavaleiros, guerreiros e clérigos.


- Vocês também têm igrejas? – Murchei.


- Sim, claro que temos. Nossos deuses são poderosos e às vezes algum deles desce e nos ajuda na batalha quando estamos muito enfraquecidos.


- Espera como assim “desce e nos ajuda”?


- Sim, eles vêm pessoalmente nos ajudar. Muitas vezes é difícil de lutar na presença deles porque o ser é de tão intensa luz que ofusca a visão de meio batalhão. Os magos têm vantagens contra os deuses porque pode evocar diversas barreiras mentais contra essa luminosidade santificada.


- Quantos e quais deuses vocês têm?


- Ao todo são oito deuses élficos: Zeus, rei dos deuses, Hades, deus dos... – Tive um acesso de tosse na hora.

- Mortos, Ares deus da guerra, Hera rainha dos deuses, Poseidon, deus dos mares, Hermes deus dos Ladrões, Hefésto, deus dos ferreiros e Baco deus do Vinho e das festas?

- Como você conhece nossos deuses? – Exclamou apontando-me o arco confuso.


- Calma, são todos deuses da mitologia da História do meu planeta! Ao que parece, estes têm algo em comum!

Voltou a baixar o arco então eu disse:
Os Deuses dos humanos, você conhece algum?


- Ao que parece eles só têm um... E nunca se manifesta...


- É. Não muda muito no meu mundo também...


- Os Mortos-vivos têm deuses: Osíris, Mestre dos Deuses...


- Ah sim, conhecemos estes também: Seth, Bast e Cia.? – Interrompe-o Ju


- Exato. Os Orcs do norte têm deuses como Thor...


- Espera aí, também têm Orcs aqui, é?


- Como também? Existem Orcs no seu mundo?


- Não, só em jogos de RPG – E ainda tive que explicar o que é RPG...


- Certo, os deuses dos Orcs são os nossos Deuses da mitologia Nórdica...


- Alguma raça além dessas que devamos saber? Talvez Goblins ou Anões?


- Anões sim, na terra média. Eles têm um único Deus também que chamam Allah


- Há! Allah, até onde eu sei significa “deus” em outra língua de meu povo o árabe.


- Bom, talvez seja porque eles não falam o Português e sim uma língua enrolada, o Espanhol.


- Bom você lembrar, quais as línguas que os povos falam?


- Humanos falam Português, Orcs falam o que denominamos Orquish, Anões falam Espanhol e os zumbis uma mistura de Espanhol com Português.


- Os Zumbis falam? Ah... tudo por aqui parece meio da pá virada, então caracterize as populações pra mim por favor?

- Claro que eles falam. Há pouco tempo começaram a se civilizar. A história dos zumbis é muito obscura e recente, vou contá-la a vocês: Durante muito tempo, os Orcs do nordeste e os humanos do noroeste lutam pelas terras do norte e os ocupantes do centro e do sul nunca interferiram nessas batalhas. Certa vez, um alquimista humano criou um encantamento conjunto... Pausa pra explicação: fazemos poções e encantamentos, quando usamos um encantamento em uma poção se chama encantamento conjunto... Continuando: Seu encantamento deixava o infectado inconsciente da realidade, mas seguia vivo e de pé, e assim foi criado o mosquito da zumbificação, por um grande erro alquimista. O encantamento conjunto consistia em banhar um pernilongo em uma poção já encantada, isso o faria absorver a poção e o tornaria transmissor da doença. Todos os mosquitos foram forçados a nunca picar um humano, mas o que eles não esperavam foi o avanço nas tecnologias mágicas dos orcs. Eles haviam criados feitiços-escudo com reflete, uma tecnologia nova pra época. O reflete, hoje em dia é caracterizado pela reflexão imediata dos ataques, ou seja; quando o mosquito chegava perto dos escudos orcs, eles davam meia-volta e atacavam os humanos sem pestanejar. Assim, os humanos criaram sua própria perdição, seu feitiço virou-se contra eles e toda a terra nórdica tornou-se zumbificada. Os mosquitos infectados morreram e não houve mais zumbificação por parte deles. Inicialmente, os zumbis eram criaturas que vagavam e buscavam carne para comer. Todo humano mordido por um zumbi se tornava um zumbi também. Sua taxa regenerativa celular era altamente sofisticada, mas seu cérebro poderia ser trocado por uma ervilha além de serem mais agressivos do que animais selvagens enfurecidos. Recentemente, humanos do sul desenvolveram poções que suprimem a hostilidade dos zumbis. Digo recentemente, mas isso já faz uns três séculos. Com a administração dessa poção entre alguns dos humanos do norte, estes se tornaram mais civilizados e estão conseguindo viver em sociedade, ainda que uma coisa muito rupestre e pútrida, mas é uma sociedade. Sua economia se baseia em extração mineral de pedras etéreas e sua alimentação é 100% animal.


Depois de digerir tudo o que eu acabei de ouvir, senti a Ju mexendo-se a meu lado.


- Posso falar mais sobre as outras raças enquanto comermos, o que me dizem?


Aquiescemos, então, nos levou até a sala de jantar que ficava no andar inferior. Notei que a posição da sala em relação ao andar de cima era estranha, pois a casa era disforme e notei também a falta de janelas, só podia ver uma fresta na parte superior da parede por onde entrava uma brisa de fora. Não guardei não:


- Vocês não têm janelas?


Gawa se voltou para mim e ficou fitando-me, então, logo abriu um sorriso imenso e conduziu-me até a porta de saída no andar ainda inferior ao da sala de jantar. Assim que ele abriu a porta eu vi o que me pareceu uma varandinha e logo a frente um abismo imenso com uma pontezinha muito estreita que dava para outra varandinha em uma casa que parecia suspensa em uma árvore com o tronco descomunalmente grosso. Fiquei admirado, então, logo me lembrei que estávamos na casa de um elfo. Dirigi-me até a porta para ver o quão alto estávamos e notei que aquilo era tão alto quanto o meu vigésimo terceiro andar da morada do sol. Estou em casa, pensei.

Voltamos para a sala de jantar e passamos a tarde discutindo como funcionavam as coisas aqui na Terra. Expliquei-lhe sobre física, química e o pouco que sei de biologia, falei sobre televisão, teatro, então ele me disse como eles tinham algo parecido que era feito no buraco de uma árvore. Logo, contei sobre os mitos da Terra e da História real, falei de Cromwell, Lavoisier, Lula, MST, as FARC, Mao Tsé Tung, o Taj Mahao, computadores e jogos eletrônicos, enfim, pus o papo em dia, já que ele tinha perdido meros 6 milhões de anos de História do meu povo.
Mais, à noite a Ju resolveu insistir:


- Gawa, Quando exatamente você pretende nos mostrar como funciona a Magia?


Gawa ficou sem saída e aquiesceu:

- Essa é a varinha mágica básica – disse mostrando-nos a dele. Levava um Rubi. – Basta você imaginar algo, por exemplo: imagine o piando tocando – apontou a varinha para o piano e uma melodia começou a tocar algo como Lady Gaga – Vê? Simples assim.


Entregou a varinha a Ju e essa a apontou para a lareira apagada e deu uma leve estocada. Chamas começaram a arder espontaneamente. Gawa mirou-a pasmo.


- Você está bem? – perguntou recolhendo a varinha de sua mão.


- Não. Eu pareço mal? – Perguntou a Ju


- Eu não tinha mana guardada na varinha. Você usou sua própria... – Silêncio sepulcral. – Por isso deveria estar se sentindo fraca. Pessoas usam a varinha por meses antes de poder controlar um tipo de éter específico. Aqui, tente encher o copo com água – Disse entregando-lhe um copo de cerâmica. Apontando a varinha para o copo de cima para baixo, água começou a brotar da varinha e só parou de cair quando a última gota antes de transbordar o copo caísse.

- Você é um monstro! – Exclamou Gawa completamente maravilhado.


- Não namoro ela à toa Gawa... – Soltei


- Magos de água são bons médicos e buffers, magos de fogo são bons militares de ataque e ótimos Buffers.

- Que é um Buffer? – perguntou a Ju. Eu sabia o que era, mas como era baseado nos jogos de RPG resolvi não interferir nesta conversação:


- Um buffer é alguém que te dá um adicional, por exemplo, o encantamento dos escudos dos orcs na guerra da zumbificação era um buff de proteção, o primeiro buff de reflete da história. Existem vários tipos de Buffs e eles variam de acordo com a Mana do receptor e a do Buffer. Os Buffs podem ser de reflete, de ataque, de defesa, mentais e o de energia. O buff mental te põe confiante para a batalha e o buff de energia prepara o seu corpo e te deixa bem-disposto. Claro que não adianta você pôr um gordo seboso e atochar buffs nele até ele ficar confiante e bem-disposto pra batalha, seu porte físico nunca vai aguentar a coisa é minuciosamente estudada antes de ser aplicada.


- E quando começo a aprender a ser isso tudo?


- Gente, vão com calma, leva anos pra se aprender isso tudo.

Acho que a Ju não gostou da conotação de incapacidade pro nosso lado:


- Cara, desde que os chegamos aqui você vem dizendo que tudo leva muito tempo pra aprender, você colocou a varinha na minha mão e eu coloquei fogo de um lado e água do outro e você ficou aí estarrecido e admirado porque eu nunca tinha feito isso antes, e ainda nem estou cansada com esses truques baratos que eu fiz, quero saber se dá pra parar de mimimi e começar a compartilhar o conhecimento logo, já que você está tão disposto assim!


Eu rachava de rir por dentro... Ou ela conseguiu nos matar ou já estamos matriculados no curso Gawa para iniciantes em Magia... Eu me sentia o Harry Potter: Escola de um lado, Voldemort do outro...


- Certo... Você venceu por unanimidade nos argumentos, mas ainda temos que testar o Marko... Passa-lhe a varinha, por favor.


_Não sei, acho que prefiro um bom arco... – Mesmo assim, peguei a vara e a estoquei em direção à lareira e o fogo apagou. Fiquei impressionado, mas senti uma boa queda no desempenho do meu organismo, era como se eu tivesse me levantado rápido de um lugar onde eu havia ficado meia hora sentado. Senti tontura, mas eu já estava sentado assim que ninguém percebeu. Erro meu... A Ju não percebeu... Elfos são muito sutis e da mesma forma percebem mudanças sutis, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, apontei a varinha para um vaso no canto da sala e estoquei a varinha com um pouco de força. Senti como se algo puxasse todo o líquido do meu corpo para onde estava conectada minha mão à varinha, enquanto isso a flor que estava no canto da sala abriu-se em uma orquídea roxa exuberante e bonita. Olhei pra Ju e ela, espantada, leu nos meus olhos o que eu ia dizer com um sorrisinho no rosto:

- Pra você... – E apaguei.


Capítulo 3: O GOBLIN (sugestão)

Acordei mais um dia depois, com a Ju do meu lado. Ao que parece ela já dominava muito bem a magia, recebera uma varinha de safira de Gawa que havia comprado para ela de um mercador passageiro e enquanto eu dormia, ela praticava. Gawa conseguiu pra ela também um belo manto de mago com diversas pedras etéreas menores na cintura que ornamentavam o vestido e estendiam o poder de Mana da garota.

Ela consertou várias geringonças na casa de Gawa, que fez questão de pagar pelo serviço, contou-me muitas coisas que este lhe havia ensinado e dito, a maioria coisas inúteis... Mas algumas coisas eram interessantes, aprendeu um feitiço de invocação à distância e me explicou como funcionavam as equações de gasto de Mana e da razão entre a distância do objeto pelo tempo que leva relacionada à força da estocada. Explicou-me como a estocada mais bruta consome Mana mais rapidamente do que uma estocadinha, mas mostrou-me como o resultado é mais rápido nesse caso e contou-me também sobre o sobrinho de Gawa, Larsym que eu via hoje pela primeira vez:


- “Bom dia, flor do dia”! – Cumprimentou-me Gawa em tom de zombaria acompanhado de seu sobrinho logo a seu lado. – Já conhece meu sobrinho, Marko? Larsym. Tem cento e sessenta anos.


- Olá... Não me lembro de você antes de apagar... Você não estava, né?


- Não, eu fui colher algumas frutas pra gente. Quando voltei, ela estava brincando de mágica e você dormindo... – Aquela frase me fez sentir um pouco de antipatia por esse cara, mas ainda assim ignorei e continuei com a mesma polidez:

- Ah, sim seu tio me disse que você é um bom atirador, procede?


- Fica fácil quando você tem magia a seu favor... – Eu percebi que ele estava fazendo uma alusão à minha deficiência.

- Então, depois faremos uma competição para ver quem maneja melhor um arco? – Percebi que o peguei de surpresa, deu de ombros e saiu para seu quarto, no quarto andar. Eu tinha muita confiança nesse aspecto porque fui o melhor atirador à distância no serviço militar e porque pratiquei tiro ao alvo com arco no tempo que estive em Madrid.


Gawa desculpou-se e explicou-me como o garoto era de poucos amigos já que viviam neste lugar isolado havia muito. Essa casa de árvore onde estávamos alojados, segundo Gawa, era como uma torre de observação que ficava na fronteira entre o território humano e o élfico assim que muitas vezes Gawa preferia se disfarçar magicamente de humano, um humano descomunalmente grande, e descer o caminho a leste, pois o primeiro vilarejo humano ficava a pouco menos de doze quilômetros e valia mais à pena ir até lá para comprar suprimentos e outras necessidades do que encontrar um bom cavalo que esteja disposto a levá-lo até a cidade élfica mais próxima, que ficava a quase vinte e cinco quilômetros a nordeste e além de ter um caminho tortuoso e em declive para cima.

-Tenho alguns presentes... - Gawa preparou diversas flechas com cabeça de aço polido e um lindo arco de caça para mim, um par de luvas com pequenas pedras etéreas que, segundo ele, há muito tempo estavam jogadas e uma cota de couro muito dura que ele mesmo lavou com uma poção especial que aumenta a resistência do couro e encantou com um buff de longa vida do tipo reflete, a lâmina que trazia enrolada em um trapo era tão reflexiva que me encantou assim que a retirou do pano, levava três lápis-lazúlis na ponta da bainha. Fiquei maravilhado com todos esses itens e senti-me em dívida com o elfo. Por conta disso, resolvi que ainda iria pagar por aquilo.


Depois do almoço, resolvemos ir treinar nossas habilidades assim que saímos todos juntos, Gawa e Ju foram mais à frente engajados em uma animada conversa sobre os usos da Magia nas poções e seus efeitos enquanto eu e Larsym discutíamos sobre estratégias de guerra e diplomacia logo atrás.


O campo de treinamento de Gawa era muito interessante, ao centro dois bonecos de madeira que me lembravam os usados para treino de kung-fu, ao canto, uma pista de obstáculos bem modesta. No lado oposto, um campo de tiro de arco com cinco raias, algumas pilhas de palha seca como alvo ao final da cada raia, uma parede de madeira sólida como o fundo e várias marcas no chão das raias marcavam a distância em relação aos alvos. Todos os cursos de treinamento estavam bem desgastados.


Depois de nos alongar e prepararmo-nos para a tarde de treinamento pesado que iríamos enfrentar pela frente, postei-me na marca de duzentos e cinquenta metros no curso de arco com a Ju a um lado e Larsym do outro, atiramos ao mesmo tempo. Larsym acertou o exato centro do alvo, a Ju acertou no primeiro círculo com um fino fio de água que só foi parar na parede encantada logo atrás. A minha flecha acertou o alvo na terceira raia.

Com o tempo passando, aprendi por conta própria a usar minha pouca e mal-administrada Mana na flecha para fazê-la ir exatamente onde eu quisesse. Logo eu estava formando imagens e constelações no alvo com facilidade. Pelas três da tarde, Gawa resolveu que esse único intuito do uso da Mana não me era suficiente então instruiu Larsym que me mostrasse outras formas de usar minha energia interior para moldar o éter ao redor da flecha. Cedendo-me uma flecha especial que levava uma pedra kurt moldada em forma de espinho na ponta e me instruiu que enchesse a pedra com Mana. Assim o fiz enquanto Larsym fazia algum tipo de encantamento em uma batata.


- Certo, eu encantei essa batata para ficar voando em movimentos aleatórios assim que teremos uma competição muito boa agora: Marko e Ju... Vejamos quem acerta a batata primeiro! Preparados? – Dito isso soltou a batata que saiu voando como o pomo-de-ouro do Harry Potter.


Usei três flechas simples e não obtive sucesso em nenhuma delas então me obriguei a socar-me as faces por ter me esquecido da flecha que eu acabara de encher de Mana. Apontei a flecha para a batata e imaginei a hipótese da flecha seguindo a batata sozinha então forcei este pensamento para a ponta da flecha através de um fio de Mana então soltei a corda. – A flecha parecia ter ganhado vida, era como um míssil teleguiado procurando por seu alvo automaticamente e a Mana consumida para a magia estava na própria kurt na ponta da flecha. Em pouco tempo a pequena batata foi destroçada pela flecha autoguiada.

O Próximo passo do meu treino seria usar a Mana para criar uma flecha elementar, eu deveria postar minha Mana em uma flecha simples com o intuito de torná-la uma flecha de vento, água, terra ou fogo. Com esse treino descobri duas coisas interessantes:


A primeira, é que a flecha elementar, como é chamada, não se transforma no elemento, mas têm impactos diferentes entre si. A flecha de fogo carboniza o inimigo. A de ar atravessa o inimigo por completo, e quanto mais Mana é incluída na flecha, mais corpos a flecha atravessa. A flecha de Terra acerta o alvo como se fosse uma bigorna de pesada e se cai no chão uma pequena perturbação sísmica se forma ao redor do ponto onde este tocou. A flecha de água congela ao redor de onde caiu.

O segundo ponto importante que aprendi é que essa elementarização também pode ser feita em flechas etéreas, o que maximiza em muito os efeitos podendo muitas vezes ser uma flecha mais poderosa do que um mago desprovido de pedras etéreas.


Quando paramos para descansar e repor as energias, Gawa nos contou de histórias de arqueiros que passam a vida guardando Mana em suas pedras para poder usar em momentos especiais, de assassinos que usam Mana em suas lâminas etéreas para controlá-las em um horário exato.


Ao tocar a flecha etérea atravessada na batata, senti que ainda havia Mana minha em sua ponta então aproveitei para completar a capacidade da pedra com mais mana, já que eu estava repondo as energias.


Ao voltarmos a treinar, Gawa nos deu uma aula teórica sobre magia de cura e como poderia ser usada para cura de envenenamentos e paralisia. Já falava por quase meia hora quando apareceu uma criatura de quase um metro de altura, um humanóide que a princípio lembrou-me a criatura Gollum que aparece no filme Senhor dos Anéis, mas com uma pele verde como as folhas das árvores, grandes olhos amarelos e boca imensa, suas orelhas eram pontudas como as dos elfos, mas em lugar de se alongarem para trás eram abertas de forma que lembravam asas de borboletas.


Gawa interrompeu a aula e perguntou sem se mover mais do que virar o rosto para encarar a criatura:

- O que quer por aqui Goblin? – Eu nunca tinha visto um Goblin, mas todos os que eu via nos Jogos seja de MMO ou RPG eles eram dessa mesma maneira. Este levava um trapo muito sujo do tamanho de uma toalha de banho como vestimenta.


A criatura que piscava pelo menos uma vez por segundo ou a cada dois abriu bem os braços revelando seu peito tatuado dentro do manto e caiu de cara no chão depois de proferir os dizeres:


- Corram por suas vidas. – Eram visíveis várias marcas de lâmina ou garras em suas costas.
Gawa, que estava sentado em um toco, arrancou sua varinha de uma bolsa que estava próxima e levantou-se em um único movimento e assim fez Larsym. Vendo que se exaltavam, eu e Ju fizemos igual. Peguei a flecha de kurt energizada sem pensar duas vezes e mais três normais e meti todas no chão então arranquei mais uma normal e apontei par ao local de onde saíra o Goblin mantendo a corda relaxada, mas atenta.


Com um leve assovio, um pássaro pousou no ombro de Gawa e deu dois ou três pios dentro do ouvido deste, então Gawa trocou duas palavras com Larsym que estava logo a seu lado e este assentiu.


- Fiquem onde estão os dois, não movam um músculo sequer. – E assim dizendo adentrou a mata de onde saíra a criatura. Larsym pegou o Goblin e trouxe até onde estávamos, vasculhou o pano que o envolvia e depois estudou suas tatuagens com cuidado ressaltando alguns símbolos magicamente e copiou todas as inscrições em um pergaminho, enrolou-o e meteu dentro da bolsa. Pegou os itens que a criatura tinha de valor e colocou-as em cima de seu peito então apontou a varinha para a terra e esta se afastou dando lugar a um buraco grande o suficiente para a criatura, lançou seu corpo aí e fechou o buraco. Feito isso, pegou uma pedra grande e postou encima do corpo, então desenhou no granito: “Aqui jaz Kilut o Goblin. Assassinado friamente”.


- Goblins... – Disse – Tatuam seus nomes e sobrenomes e muitas coisas interessantes na pele. Não tenho o dicionário da língua deles aqui, então, vou tentar traduzir em casa, então, da próxima vez que eu voltar, escrevo o resto na pedra... – Dizendo isso, voltou ao seu lugar e sentou-se no toco até que Gawa retornasse:

- Precisarei da ajuda de vocês para isso pessoal, vejam bem... Ao que parece a esposa desse Goblin diz que estão com problemas há semanas porque algum tipo de monstro está matando seus animais ou algo assim e prometeu recompensas se ajudarmos... O que vocês acham?
Olhei para a Ju que me fitou com um ar de você quem sabe... Então, disse ao elfo:


- Estamos nessa.


- Certo cada um com suas armas em mãos. Marko, vista a cota de couro. – Assim o fiz e então partimos.

Começamos a caminhar: Gawa, Larsym e Ju cada um com sua vara em mãos eu com meu arco e a aljava pendurada nas costas. Eu tinha doze flechas normais e uma etérea totalmente carregada. Depois de andar por uns quinze minutos, o mesmo pássaro que havia “falado” com Gawa anteriormente voltou a “dizer” alguma coisa em seu ouvido e esse virou-se para fora da trilha e encontramos depois de alguns passos uma caverna não muito estreita. Cheia de estalagmites, a caverna era profunda e com muitas dobras, mas nenhuma bifurcação, à frente, Gawa levava a varinha acesa como uma lâmpada incandescente. À medida que adentrávamos mais na caverna, mais alto se ouvia ruídos de coisas se partindo e grunhidos animalescos, foi então que quase sem aviso Gawa lançou uma magia contra algo invisível, então, tudo ficou escuro, mas nada silencioso.


Foi uma sucessão de acontecimentos, todos os magos acenderam suas varinhas ao mesmo tempo o que me deu uma ampla visão do que enfrentávamos: Uma pantera de quase dois metros de diâmetro com dentes dourados de pelo azul-bebê muito brilhante fitava fixamente a luz. Meus músculos se relaxaram uma vez que felinos não são bons lutadores sob luz forte, mas voltaram a se enrijecer quando me lembrei de que não estávamos na Terra, logo aquilo poderia lutar talvez até melhor na luz.


- Ju, mantenha a luz alta... – Sem nem precisar esperar Gawa comandar, foquei meus pensamentos em uma labareda e postei isso na ponta de minha flecha etérea então a disparei contra o animal. Chamas começaram a brotar do local onde a flecha o havia acertado. Então Gawa lançou-lhe água com a varinha o que apagou por completo minhas chamas, mas manteve a flecha enfiada na garganta do bicho.

- Está morto e não vai mais incomodar os Goblins. Vamos levar a carne para que os outros animais carnívoros a aproveitem.


Saímos da caverna e fomos ao encontro da Sra. Kilut que nos agradeceu eternamente e nos levou até sua cabana onde outras três criaturas feias e verdes como ela viviam.


- Essa praga vem matando meus animais há alguns meses já, meu marido diz que vai dar um jeito, mas o melhor que pode fazer foi essa cerquinha que vocês viram aí fora e um animal daquele tamanho pula isso fácil... Agora, vamos ver o que uma pobre Goblin do interior poderá presenteá-los... Meu marido vinha guardando isso para usar na floresta, mas acho que não vai mais necessitá-las assim que será melhor que leve isso garoto. – Disse apontando-me um punhado de flechas cuidadosamente preparadas – E tenho também um mapa mágico do continente que mostra o nome dos lugares por tocar no mapa. Se você toca duas vezes em um lugar ele mostra o nome da área, se uma única vez, ele dá o nome do país e ainda é colorido! Acho que esses livros também lhes devem ser interessantes, uma vez que não sei ler não me importo com isso. - Concluiu


- Agradecemos senhora. – Disse Gawa.


Quando apertou minha mão, a senhora teve uma leve tontura e me olhou muito espantada. Ao que parece, ela sabia de algo que não quis me dizer porque simplesmente pediu desculpas e acabou de se despedir.


No caminho de volta, Gawa se manifestou com relação à morte:


- Vocês não têm problema com mortes, não? Digo, algumas nações mantêm seus mais novos longe de guerras e mortes de forma a manter assim certa inocência entendem?


- Sim claro, eu nunca me senti mal perto de mortos, particularmente penso que para morrer basta estar vivo... – Disse eu e a Ju simplesmente assentiu.


- Ponto de vista bem singular. – Concluiu Larsym.


Voltamos para a casa da árvore para vasculhar os quinze livros e o mapa para ver se havia algo de interessante. Dois livros eram bons, mas eram histórias épicas ao estilo de “A odisseia” e um didático era muito interessante, sobre Dragões, mostrava a anatomia desses animais e como funcionam, peso, tamanho, raças e etc. O mapa era interessante, mas era como um brinquedo, depois de um tempo acaba perdendo a graça de clicar nos lugares só para saber os nomes. Dava nomes de rios, países, cidades, aldeias, estradas, castelos, lagos e oceanos.

Capítulo 4: A CIDADE 

Algumas semanas depois pela noite, fiquei deitado em minha cama pensando sobre a vida. Eu achava interessante como simplesmente mudei de realidade sem explicação... Mas resolvi que se não poderia fazer minha faculdade de ciência da computação para poder concretizar meu sonho de criar jogos para computador, eu iria ter que dar um jeito de me encaixar nessa nova realidade em que eu vivia recriar meus sonhos e aprender tudo nesse local onde estou e isso implicava em aprender como funcionava o mundo por aqui. Então, comecei a filosofar sobre tudo o que me rodeava e nos próximos dias passei estudando nos livros de Larsym e Gawa e os que ganhamos da Sra. Kilut.

Enquanto Ju aperfeiçoava sua Magia, eu buscava as lógicas daquele mundo, logo descobri que a biologia dos elfos era defasada porque matar animais em sua concepção era só para comer ou não ser comido. Então, decidi compartilhar de meus estudos com a Ju e ela logo chegou à mesma conclusão que eu, então, começamos a criar uma forte vontade de seguir para o nordeste atrás de explicações boas para o local.

- Impossível – Respondeu-nos Gawa – Esqueceu o que foi a primeira coisa que te disse quando acordou, Marko? Os elfos não querem saber de humanos em suas florestas, vocês tomariam flechas antes mesmo de terem tempo de avisar que fui eu quem os enviou. Se quiserem aprender, terão que ir para as cidades humanas a oeste, e ainda assim, a cidade grande mais próxima está a uns setenta quilômetros! Ou seja; se quiserem sair, só poderão ir para oeste... Já têm previsão de quando partirão?


- Foi uma hipótese Gawa e não uma certeza.


- Claro, mas também não poderei mantê-los aqui pro resto da vida! Logo chega a hora de eu ir embora e vocês terão que partir.


- Sim, quantas décadas pra isso? – Gawa não respondeu – Eu li os registros, Gawa, trocam de sentinelas nas fronteiras a cada cinco décadas. Você está aqui há quanto tempo?


- Quarenta e nove anos, pra azar de vocês. – Foi como um tapa na cara... – E foi a primeira coisa interessante que aconteceu por aqui. – Completou.


Eu e Ju recebemos boa educação com Gawa, aprendemos Magia básica, mixagem de ervas e onde encontrá-las, treinamos muita esgrima com Larsym e eu melhorei minha mira com arco através de magia, sem contar a argumentaria e armas. Aprendemos muito nesses dois meses.
Devíamos mais que poderíamos pagar para Gawa e Larsym e eles não nos cobraram nunca. Gostávamos dos dois, eram como parentes, não sei, talvez tio e primo... A questão era: teríamos que nos despedir de qualquer forma e tínhamos menos de um ano pra isso. Decidi que iria para uma das cidades para estudar, mas eu não poderia decidir isso pela Ju e às vezes ficava pensando em como quase tudo que ela estudou em matérias específicas seria inútil, uma vez que ela fazia cursos de computação e animação em flash, aquilo seria um tanto inútil em um mundo sem computadores. Não sei nem como eu mesmo estava aguentando tanto tempo sem um bom PC... Ah! Meu MSN, Orkut, Facebook, World of Warcraft... Eu não poderia reclamar de falta de WoW, eu estava vivenciando um... De qualquer forma, eu teria que encarar aquilo e talvez por esse treinamento pesado e exercícios físicos eu quase não tinha muito tempo para refletir nesse tipo de coisa.

Muitas coisas mudaram em minha vida nesse lugar novo. Não pude mais entrar no MSN pra tc com o Denny, com o Cris ou com o Gustavo, quase não comia mais carne, dormia mal em uma cama de palha, que era muito ruim se comparada ao meu colchão de espuma que eu estava acostumado na casa da minha tia, então, comecei a pensar na saudade que bateu da minha tia, já se foram dois meses sem ver ela, meu tio, meus amigos de Madrid e de Apucarana.


Fiz algo que não fazia há anos: chorei. Chorei em silêncio essa noite de saudade de tudo o que passei com amigos e lembrando-me das palavras do grupo musical que mais admiro, Charlie Brown Jr: “Podem me tirar tudo o que tenho, só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz pra quem eu amo, eu sou feliz e canto o universo é uma canção e eu vou que vou...”.

Levantei-me bem disposto no outro dia e sentei-me para fazer planos com todos da casa:
- Seguinte galera, eu quero muito sair. Sempre gostei de aprender e agora que tenho um universo novo inteiro pra aprender. Eu quero partir pra uma cidade grande. Nas universidades eles poderão me passar conhecimento mais que suficiente pra saciar minha sede. Quero saber o que você resolve da vida Ju.


Depois de ponderar minhas palavras veio uma resposta:
- Cara, eu não sei. É naquela base, toda minha vida me preparei pra fazer publicidade agora estou aqui, perdida no meio do nothing e sem grandes expectativas porque posso ser sugada por um outro buraco negro a qualquer momento... Que maravilha... Sei lá cara, foda-se! Decide o que você quer e eu vou com você... Já é. – Adoro isso na Ju...


Larsym resolveu se manifestar:
- Tio, eu sei que corro altos riscos de ser capturado fora da floresta de Falraën, mas eu posso me disfarçar facilmente, ambos sabemos...


- Larsym, cale-se! Você tem que voltar comigo para Feralas. Seus pais o querem de volta e você sabe disso.


Larsym pareceu procurar algo o que dizer, mas não pôde dizer nada.
- Qual o problema de ele vir conosco? – Quis saber a Ju.


- Ju, os Elfos não chegaram nesse planeta e se instalaram pacificamente. Quando viemos, caímos em um ponto muito bom, logo no coração da floresta de Falraën, e sabíamos que qualquer forma de vida inteligente que pudesse vir a residir aqui nessa terra iria resistir à nossa chegada e isso é fato em qualquer situação. Os humanos não demoraram muito a vir verificar o que havia acontecido com o que eles chamavam de “grande bola de fogo do céu” que por um acaso era nossa nave. Logo que caímos, asseguramos um perímetro e nossos magos trataram de usar treinamentos naturalísticos para formar uma fortaleza conjunta com as árvores. Fizemos as maiores árvores dessa floresta brotar e crescer em menos de uma semana e usamos elas como proteção, abrigo e fonte de alimento. Hoje, nossa capital Yawë é exatamente como minha casa, todas as edificações foram formadas em buracos nos troncos das árvores e sobre os galhos, elas nos dão abrigo e proteção e nós as fortificamos magicamente, é uma relação de mutualismo entende?

_Essa era uma terra onde os humanos nunca tiveram interesse, a própria natureza do local nos ensinou isso, pois a floresta densa estava totalmente intocada. Sabendo disso, pensamos que os humanos não iriam cair em ira pela nossa presença aqui no coração da floresta, mas não foi bem assim. Criaram o CHE: Conselho Humano-Élfico para tentar nos controlar. A princípio até tentamos aceitar, pois pensamos que seria algum tipo de embaixada, mas o rei do Império Maurítio tentou nos forçar a fazer uma sucessão de coisas inélficas e mais inumanas ainda. Queria que declarássemos guerra contra os Orcs de graça e quando não fizemos, a relação humano-élfica ficou bem esfolada. Mas não tínhamos motivos para guerrear contra os Orcs! Chegamos em um lugar já vazio, os humanos não nos cederam a floresta, eles nunca nem tocaram ou entraram nela, só caçadores. Não tínhamos obrigações nem alianças com os humanos, um simples tratado de não-agressão.


_Ainda depois, os humanos quiseram extorquir nossas pesquisas etéreas em plantas alegando que teríamos a cura definitiva para a zumbificação. Depois desse episódio de repúdio estrelado pelo rei da Mauritânia, cortamos relações com os humanos, fechamos o CHE e não aceitamos mais nem caçadores humanos em nossa área e pra ser sincero pra vocês, só não os matei porque encontrei vocês quase fora da floresta, o que não seria justo, uma vez que vocês não passaram a linha limite por conta própria. - Respirou fundo depois de falar tanto.


- Sempre falei que o ser humano não prestava... – Disse a Ju


- E eu sempre concordei... – Conclui


- E desde então temos ordem para matar qualquer humano que passe a fronteira e vice versa... - Gawa acrescentou.


- Conclusão: estamos aqui de metidos e podemos trazer problemas pro Gawa caso passe algum elfo por aqui. - Adicionei


Gawa negou veementemente com a cabeça:
- Por aqui nem mercadores passam, eles pegam o caminho do norte que dá em uma vila grande logo fora de Falraën.


- Gawa, você não conhece nenhum humano da cidade pra nos indicar? – Lancei.


Depois de pensar um pouco Gawa respondeu um pouco surpreso consigo mesmo:
- Na verdade conheço um elfo que trabalha pros humanos, se chama Legolas e vive em Múrcia. É um grande Buffer, um arqueiro inato e adora novos discípulos. Se o encontrarem, mandem um abraço de seu primo Gawaÿ e façam esse cumprimento, que é o da minha família. – Completou cruzando o indicador com o dedo médio e postando-os logo a frente da boca e baixando a cabeça. Repeti o movimento e ele sorriu afirmativamente.


Ajudaram-nos a montar a mochila de viagem. Levamos todos os presentes de Gawa, algumas panelas e talheres, um cantil de água cheio cada um, o mapa que a Sra. Kilut Goblin havia nos dado, e muitos buffs por parte de Gawa. Larsym parecia louco de vontade de vir conosco, mas seria pior e ele havia entendido.

- Não me dou bem com despedidas assim que: Sentirei sua falta Gawa. O que nos ensinou aqui, não tem preço, cara. Obrigado mesmo! – Despedi-me de Gawa e Larsym com um aperto de mão, então, partimos.

O caminho até a cidade dos humanos, era um declive para baixo e em menos de duas horas de caminhada chegamos até lá.


A vila estava cercada por uma sólida cerca alta feita com troncos de árvore que me lembrava muito os vilarejos de filmes medievais com um portão bem guardado. A mais ou menos dois metros uma plataforma pelo lado de dentro mantinha os soldados suspensos e bem posicionados em uma ronda periódica. Por dentro a cidade era exatamente como nos filmes, a princípio me lembrou algo como Hobin Hood com Russel Crowe; um grande filme que saiu agora em 2010.


Procuramos o PUB e pedimos um quarto de casal, então, busquei o salão de jogos. Havia vários jogos para o povão: sinuca, dardos, cartas, entre outros. Sentei-me à mesa do jogo de cartas para descobrir que o jogo não seria buraco nem poker, muito menos truco e sim algum tipo de jogo de RPG em cartas estilo Yugi-Oh ou Magic. Tive que aprender a jogar na hora. Funcionava assim: Havia três decks diferentes: um Clérigo, um Paladino e um Vampiro.

O deck Clérigo quase só tinha cartas com poder de reflete e cura, o deck Paladino quase só cartas de ataque e cura e o deck vampiresco apresentava muitas cartas de drenagem de vitalidade. Cada jogador começava com sessenta pontos de vida e a finalidade era zerar a vitalidade do oponente, para isso dispunha-se de cinco cartas a princípio, cada um era obrigado a jogar uma carta e logo depois pegar outra em seu deck.

Até que joguei bem essa noite, eu tinha $150 e terminei a noite com $230, visto que o pote valia 20, ganhei seis vezes e perdi duas. Resolvi sair quando perdi pela segunda vez. Bebi um pouco com a Ju e depois subimos ao quarto para tomar um banho quente e nos acostarmos. Era a primeira noite que dormíamos juntos em pouco mais de dois meses e ela soube fazer dessa uma noite muito agradável como todas as que tínhamos a chance de estar juntos...

                                                                                                                                           
Capítulo 5: TIGRE DENTES-DE-SABRE 

Pela manhã, depois do desjejum, procuramos o estábulo da cidade para saber se teriam algum cavalo à venda, mas os animais que tinha eram todos de alta qualidade, coisa que nosso dinheiro não podia comprar, assim, voltamos a peregrinar. Encontramos muitos peregrinos e alguns mercadores pela estrada durante todo o dia e nenhum ladrão tentou nos roubar. Bastou eu pensar isso para aparecer um:
- Alto! Quem vem lá? – Berrou um homem no canto da estrada com o arco preparado e apontado pra gente.


- Sou Marko Marchiori, filho de José Marchiori da Múrcia. – Lembrei-me de como se apresentavam nos filmes medievais, claro que menti sobre o lugar.


- O que o traz por essas terras Marko da Múrcia? – Interrogou o homem aproximando-se rápido.


Nessa situação eu não poderia fazer muito, pois levaria tempo pra eu aprontar o arco e esgrima não funciona muito bem contra flechas. A Ju poderia tentar desarmá-lo com um feitiço de confusão, mas ela preferiu ficar fria.


- Estamos indo até a Múrcia encontrar com o Elfo Legolas, temos uma mensagem de seu primo.

- Certo e o que levam dentro das mochilas? Alguma pedra etérea?


- Não. – Menti descaradamente.


- Então, sigam viagem e cuidado com ladrões... – Terminou cinicamente.

- As pessoas acreditam na gente com essa facilidade por aqui? – Perguntei à Ju quando o homem já não podia nos ouvir mais... – Ela deu de ombros e me puxou de volta pra estrada. Voltei a parar e lhe disse: – Ju, estamos com objetos valiosos, melhor que não viajemos pela estrada, temos o mapa e ele pode nos ajudar.


Dito isso, passamos a caminhar por fora da estrada, mas sempre tendo ela sob visão. Agora eu levava meu arco na mão e uma flecha na outra sempre preparada. Ao cair da noite, Fiquei de sentinela no primeiro turno e deixei a Ju dormir primeiro tanto porque penso melhor durante a noite, então, comecei a trabalhar sobre o mapa que eu tinha, se continuássemos a caminhar naquela velocidade levaríamos mais cinco dias para chegar até a Múrcia. Precisávamos de um transporte.

Durante o meu turno nada de interessante ocorreu logo trocamos, então caí no sono. Fui despertado logo de manhã com um doce beijo, comemos e partimos. Depois de mais um dia inteiro caminhando, passamos por um Pub para comprar água e no segundo, onde paramos, o barman, que falava muito, contou-nos uma história sobre sabres-noturnos que são, segundo ele, muito amigos dos elfos, estariam atacando humanos à noite pelas redondezas e nos aconselhou que dormíssemos em suas instalações, pois assim estaríamos à salvo. Não é preciso dizer que partimos de imediato, simplesmente por pensar que era um mentiroso descarado. Mal sabia eu que era a mais pura verdade e que eu me encontraria com essa criatura ainda essa noite.


Caminhamos até começar a cair a noite, então, armamos o acampamento fora da pista, como de costume, comemos e dormi, deixando a Ju com o primeiro turno.


Despertei-me como da última vez que eu dormira, com um carinho de minha fofa. Lavei o rosto e sentei sobre uma árvore meio torta para ficar atento. Nada aconteceu de interessante nas primeiras duas horas, então, ouvi um único ruído naquela imensidão quieta, e não era da Ju se mexendo.

Olhei para o lugar de onde vinha o som e vi o que pareciam duas lanternas acesas e viradas pro meu rosto. Os olhos daquele gato de pelagem branca com listras negras transversais e de 2 metros, idêntico ao que eu atravessara a garganta com uma flecha, me fitavam com muito cuidado e quando os encarei eu me vi paralisado; foi como se eu conhecesse aquele animal desde décadas a fio. Ele se aproximou e não pude levantar meu arco, comecei a me alarmar pensando que a criatura pudesse ter me hipnotizado, mas não era bem assim, era como se eu pudesse facilmente atacá-la, mas algo dentro de mim me impedia fortemente, em lugar disso estendi a mão e comecei a chamar a imensa criatura como se ela fosse minha há anos.

O monstro chegou bem perto da minha mão e tocou meu dedo com o focinho bem encima da luva, então, mordiscou, claramente brincando e o mais interessante é que nessa situação eu teria atacado sem dó a criatura, mas algo definitivamente me atraía para ela. Passei a mão por cima de sua cabeça e, então, pelo seu corpo peludo e de músculos rígidos.

Era visível que aquele animal estava gostando do meu carinho e eu percebia algum tipo de ligação, como se tivéssemos passado a vida inteira juntos, e eu tinha lido sobre sabres noturnos na casa de Gawa, eles são grandes amigos dos elfos e oponentes inatos, podem mudar a cor de seu pelo como um camaleão muda a de suas escamas. Têm ataques especiais; como o ataque de ronda, que paralisa o inimigo com um olhar depois o circunda e ataca por trás, mas em nenhum livro falava sobre o que este fazia; era suicídio, pois se eu quisesse matá-lo já o teria feito facilmente.


A besta continuava a caminhar, então, me lembrei de que não estou na Terra e tentei falar com ela:
- Não vai me atacar garoto?


A criatura não só me respondeu como me surpreendeu: virou sua grande face para mim e balançou de um lado para o outro claramente em uma resposta negativa. Eu quase caí de onde estava e a criatura proferiu claramente uma bufada de riso. Resolvi continuar o “diálogo”.


- E porque se eu poderia facilmente tê-la matado enquanto estava aqui.

O monstro aproximou-se de mim novamente e mordiscou minha luva, então, me veio o estalo:
- Não nos ataca porque sabe que sou amigo dos elfos, é isso?


Balançou sua enorme cabeça pra cima e pra baixo e logo para os lados.
- Gawa? - Positivo. Era interessante e difícil de acontecer, eu encontrei um amigo do Gawa sem querer e... – Como sabe que não matei Gawa e roubei a luva dele?


Simplesmente me olhou com desprezo o que entendi como um “você não teria capacidade nem de matar nem uma aranha com as habilidades que tem”. Achei melhor não mencionar o outro sabre-noturno do qual eu tinha dado cabo.


- Entendo... E você pretende ficar por aqui aterrorizando os peregrinos? – Olhou-me com uma cara alarmada possivelmente pensando que logo caçadores viriam por ele, então, percebeu meu convite e balançou negativamente a cabeça. – Vem conosco, não? – Certamente. – Então, você precisa de um nome... Que tal Félix? – Claro que eu estava zuando o gato, Félix não é nome de gato de luta... (se seu gato atende por esse nome, enforque-o!) E ele claramente não gostou. Olhou bem pra mim e arreganhou os dentes tipo “quer que eu use isso?” Então, resolvi lembrar do nome do meu gato no WoW: “Sharpclaw” que traduzindo diretamente do inglês significa “garra afiada”. E o mais interessante é que o felino gostou.


- Certo Sharpclaw, então, somos seus novos parceiros – Como eu sabia que sabres noturnos dormem muito pouco, eu passei o resto da noite despreocupado contando minha história e a da Ju e a criatura tentando me contar a dela, na base da mímica e da adivinhação, até que era fácil entender o que o gato dizia, ele era um bom companheiro, mas mesmo assim, eu continuava um pouco desconfiado, no meu planeta animais não são assim, costumam ser ariscos e esses domésticos ou não vivem muito tempo na selva ou procuram um lugar na cidade pra viver. A única conclusão a que fui capaz de chegar é que esse animal é como os elfos, tem longa vida.


Ao se deparar com esse tamanho de criatura a Ju teve uma reação bem diferente da minha: pegou sua varinha e tentou lançar um feitiço de cara, mas antes que pudesse, eu a segurei com minha limitada Mana, tempo suficiente para que a atacasse. Antes mesmo que eu começasse a explicá-la, uma voz muito suave, mas forte e masculina, falou em alto e bom som:
- Por isso não apareci no turno dela. – Paralisados eu olhei a minha volta e só pude identificar o gato que não havia se mexido e me fitava.


Novamente a voz falou:
- O que está procurando? Sou eu Sharpclaw, falando. – O animal não movia a mandíbula e a Ju se debatia desesperada contra meu feitiço. – Melhor você soltá-la ou você mesmo morre de imanição (falta de mana), Marko. – prosseguiu o animal. Assim o fiz e pedi à Ju que me desse um tempo. Encarei a besta e pensei algo como “será que ela está dentro da minha cabeça ou é assim que ela fala comigo?”.


Não obtive resposta, então, proferi a pergunta e o animal respondeu antes que eu terminasse:
- Marko agora que você salvou minha vida, existe um vínculo entre nós dois, a Ju certamente iria me matar se você não a tivesse segurado, e por isso, agora estamos como presos um ao outro. Posso ver o que você pensa, mas não entrar em suas lembranças e vice versa, se quiser me contar algo sobre seu passado, basta pensar nisso. É um vínculo extremamente forte, por isso, daqui em diante, sou seu melhor amigo; forçosamente, admito, mas, essa é a minha natureza.


- Não tinha nada sobre isso dos Nightsabers no manual dos monstros do WoW. – A Ju me olhou com uma cara de “what the fuck?” e o gato continuou depois de eu explicar para ele o que é computador, WoW, sobre os manuais e etc.


- Marko, isso são jogos de entretenimento, você não achou mesmo que existiriam essas coisas de verdade, não? Bom, você está em um mundo novo agora, é hora de se adaptar.

– Certo. Deixe-me conversar com a Ju sobre isso.

Expliquei tudo o que acontecia para a Ju, ela achou tudo muito irado. É justo – pensei: A Ju tem bom controle de mana e eu tenho um animal de estimação altamente útil.


– Não me ofenda, por favor! Não sou só mais um animal, Marko. Minha única diferença em relação aos humanos é que não falo. Posso traçar estratégias, atacar com mágica e usar as garras ou dentes como armas. Não me subestime nem me tema, somos amigos daqui em diante.

Se tinha que ser assim, viver forçado a milhares de coisas que eu não queria. Que seja... Expliquei meus objetivos para Sharpclaw a caminho da cidade de Múrcia.

Aprendi muito sobre os sabres noturnos como este; descobri que o ataque de ronda não é muito praticado pelos gatos selvagens, aprendi sobre sua anatomia, sua história, contou-me que foi o primeiro gato de guerra de Gawa e depois sua montaria, deixou a Ju viajar em suas costas e revelou sua misteriosa idade de, em suas próprias palavras, 187 primaveras.


Contou como foram os patéticos ataques humanos contra a floresta de Falraën e como Gawa lutou bravamente para proteger seus amigos caídos em batalha.


Por mais dois dias e duas noites fui intérprete de toda conversação entre a Ju e o Sharp.
Logo as muralhas de Múrcia se fizeram visíveis ao longe no centro de um planalto, mas ainda assim levamos mais dois dias para chegar lá.


Capítulo 6: ISAAC NEWTON 

Era de se entender porque diabos a muralha de Múrcia era visível de tão longe. Aquilo devia ter pelo menos trinta metros e cada torre uns quarenta e cinco ou mais. Seria uma cidade impossível de se conquistar sem armas pesadas ou uma boa equipe de espionagem/sabotagem minuciosamente treinada.

Com casas exatamente iguais às da cidade de Stormwind, também uma cidade do “World of Warcraft”. Elas eram imensas e as paredes grossíssimas, as lojas e estabelecimentos comerciais levavam cada uma, uma plaquinha suspensa em uma haste de ferro e a praça central da ala de entrada era uma árvore circundada por uma mureta de pedra de uns vinte centímetros de altura que se levantava na borda do canteiro.


Dividida em cinco alas bem distintas:

1.       A cidade se compunha da Ala de Entrada, alojava o único portão da cidade, nessa ala tinha uma arena de luta onde qualquer um poderia dar a cara à tapa e tentar a sorte, ficava na parte leste da cidade.
2.       A Ala Bélica ficava na parte norte, muitas lojas de armas, o quartel e a prisão se situavam na parte norte da cidade.
3.       A Ala Mercantil, ou mercadão, ficava a oeste, era onde se situava a feira livre da cidade, eram quase dois quilômetros inteiros de tendinhas com itens à venda que iam desde balanças para pesagem de alimentos até os próprios alimentos.
4.       Na Ala Sul situava-se metade dos moradores da cidade, a Universidade Geral e boa parte dos órgãos do rei.
5.       Por fim, a Ala Central, a Universidade Etérea e o palácio do prefeito.
Crianças corriam e brincavam pra todo lado, carroças com animais e alimento andando por algumas vielas, uma feira a céu aberto abria espaço para a ala oeste e lá se dividia em corredores menores de feira.


Enquanto andávamos, todos paravam pra observar Sharp e seus lindos caninos e sabres propositalmente deixados pra fora pelo canto da boca por ele. Alguns centauros passaram com guerreiros humanos montados às suas costas. Comecei a notar como muitas criaturas novas pra mim até então, passavam.


Vi alguns Goblins e um humanóide que me lembrou um Kobold, também do WoW, um garoto tinha asas e a pele era vermelha, quando passamos mais perto e pude dar uma boa olhada vi que se tratava de um Imp, que é uma espécie de projeto de demônio: tem chifres, asas, mas não voa, e é vermelho.

Logo que encontramos o Pub perguntei ao barman por emprego. Este me informou que a guarda da cidade precisava de guerreiros e depois de me fazer algumas perguntas como o que eu sei fazer e quais minhas vocações ele me aconselhou procurar pelo Professor Thumper, pois ele ensina a arte da alquimia avançada na Universidade Geral e através dele eu poderia conhecer quase todo o conselho.


Despedi-me da Ju que queria conhecer a cidade e cuidar de seus próprios assuntos, combinamos de nos encontrar no Pub ao cair da noite, então, parti para o quartel para saber se precisavam de homens no setor da guarda da cidade.

- Bom arqueiro o senhor, não? Jovem, forte, inteligente. Talvez. Vejamos, vou ver o que faço contigo garotão. Você me parece bom para fazer a patrulha dentro da cidade. – Me respondeu o Major Siqueira do batalhão da cidade. – Você tem residência fixa ou está só de passagem? – Sempre mexendo em suas gavetas e lendo alguns papéis.


- Estou, por enquanto, vivendo no Pub da cidade, pretendo fazer minha vida aqui, quem sabe enriquecer e me tornar um inventor, gosto de aprender, entende? E quero ser útil à sociedade.


- Certo. E em qual bar você está? Temos três na cidade.


- No Hotel Estrela Solitária.


- Ok. Você começa segunda-feira que vem garoto, fará parte da ronda montada se quiser usar o seu tigre como montaria, caso contrário, fará parte das vigílias no portão, o pagamento é semanal de duzentas e cinquenta moedas, cinquenta diária, trabalha de segunda a sexta.


Aceitei fácil, então, apertamos as mãos e despedi-me de meu empregador e procurei pela Universidade Etérea, mas, logo descobri um pequeno empecilho: Para entrar nas instalações eu teria que me desprover de qualquer pedra etérea o que me deixou puto, então, me restou retornar à ala de guerra para visitar o curtume e ver se haveria algum par de calças que prestasse, uma vez que minha calça jeans já estava muito surrada. Nada que me agradou coube em minhas economias, então, resolvi que seria bom começar a trabalhar de uma vez, pois minhas 130 moedas seriam poucas para a sobrevivência.

À noite, encontrei-me com a Ju no Pub do Botafogo (que eu chamava assim por causa do nome) Sharp ficou em um alojamento especial para animais na parte inferior da instalação. Então, a Ju me contou como andou pela cidade, conheceu toda a zona leste e sul, entrou na Universidade e falou com muitos professores inclusive o diretor está disposto a dar bolsas de estudos caso queiramos estudar lá, já que a Universidade Etérea funciona junto com a Universidade Geral, vários estrategistas diretos do rei foram pegos direto de lá. A ideia me interessou muito e logo comecei a criar muitas expectativas quando ela me avisou que a universidade, mesmo sendo estatal, é paga.


_ Teremos que ganhar a vida de outra forma, então, Flor... – Disse eu


_ Sem dúvidas. Sabe, Marko, acho que está na hora de começarmos a tentar estabelecer uma casa aqui, já que estamos presos nesse lugar. – Aquilo não me pegou de surpresa.

_Eu já pensei algumas vezes nisso e estava chegando à mesma conclusão, essa cidade não é gigantesca como o Rio e Janeiro que você está acostumada nem a Madrid onde passei dois anos inteiros, mas é bem grande, podemos tentar levar uma vida aqui, basta aprender sobre esse povo e nos adaptarmos.

Decidido esse dilema, começamos a fazer contas e falar sobre dinheiro. A diária do pub era de 35 moedas, então, passamos a procurar um lugar para morar, talvez uma casa alugada. Nos três dias próximos, perguntei para os soldados sobre locais para aluguel e logo arrumei uma casinha muito pequena com cozinha, dois quartos e uma sala na zona noroeste por seiscentas moedas.


Encontrei também um apartamentinho com um único quarto por quinhentas pratas, mas poderíamos alugar o quarto da primeira casa além de estar em um local mais bem-posicionado, exatamente a meio caminho entre quartel e a Universidade. A casa já vinha semi-mobilhada, tinha uma cama grande o suficiente pra mim e pra Ju no quarto do segundo andar, cadeiras confortáveis na sala, um fogão à lenha e armários na cozinha e uma mesa na sala além e ornamentos na escada. Alguns quadros bonitos e só. Teríamos que melhorar com o dinheiro que ganhássemos.

Cerca de duas semanas se passaram quando eu quase tive um ataque do coração ao ver a Bella, namorada do Marechal, sentada na mesa da minha sala com a Ju. Estava muito mais magra e bonita (se é que é possível). Levava um vestido frondoso que acentuava suas curvas e seu cabelo continuava fino e liso a pesar daquele clima muito úmido.


- Bella, caraca, como você está? Como você chegou aqui? – Disse eu deixando cair metade das compras que trazia do mercado.


- Marko! – Levantou-se e me deu um abraço. – A Ju estava me contando sobre o Gawa e Larsym e a viagem e vocês peregrinando até aqui, eu quase não entendi nada, mas acho eu que vamos ter tempo pra falar sobre isso, não?


Alguns milhões de coisas se passavam na minha cabeça: Bom, se a Bella também está por aqui é possível que o Jean o Marechal, o Faro e a Nicolle, e, talvez, até mais gente que eu conheça esteja, depois pensei em como exatamente esse povo todo entrou nesse mundo se não estávamos pertos uns dos outros. Tem que ter alguma lógica, seria muita coincidência as pessoas serem escolhidas aleatoriamente, e, então, cair eu, Ju e Bella; seria insano. Logo, comecei a filosofar sobre onde estariam os outros e se seria possível encontrá-los, então resolvi escutar a história da Bella:

_ Bom, eu deitei na minha cama quando cheguei da Lapa, então, no outro dia, me levantei aqui nessa cidade; eu usava um vestido que nunca tinha visto na vida e estava em uma sala de aula com um professor falando coisas sobre zumbificação e dizendo que aquilo era história, então, comecei a ouvi-lo falar. Quando acabou a aula fui até o professor, que ficou confuso porque conhecia todas suas alunas, então, expliquei minha história e ele simplesmente me deu casa, comida, educação e essa varinha mágica até hoje. _ Mostrou uma varinha escura de safira. ­_Ele me ensina a fazer o diabo com magia, sou uma buffer inata, segundo ele... – Contou toda sorridente. _A princípio, eu encantava e buffava ratos para lutarem entre si, depois comecei a fazê-los usarem armas como lâminas e lápis, quando o velho Legolas viu, ficou impressionado...


- Desculpa, como se chama seu professor, Legolas?


- Sim o mesmo nome do Elfo do Sr dos Anéis, aliás, o Legolas é um elfo, sabia?


- Precisamos falar com ele, o Gawa mandou-lhe um abraço.

-Ah, certo. Continuando a história: Quando o Legolas me viu fazendo isso tudo e que eu havia aprendido sozinha, resolveu me inscrever no curso de buffs e maldições, e agora tenho quase dois meses de curso e isso está me salvando aqui, porque um buffer é muito importante para o rei, segundo Legolas.


Nesse momento, uma pesada pata empurrou a porta da entrada e forçou um pesado tigre a entrar, o que apavorou uma pobre Bella, que começou a berrar de medo apontando para Sharpclaw. Tive que acalmá-la e fazer as devidas apresentações. Depois de muito relutar, a Bella resolveu se mudar pra nossa casa e aceitou o assustador gato no grupo, então, começamos a planejar nossa vida.


No outro dia, um sábado, fui até a Universidade pra ver o que eu poderia aprender de bom. Descobri que eles tinham pólvora, mas não tinham ideia de pra que servia ainda. Aquilo era ouro pra mim, peguei um pouco alegando que usaria em testes caseiros, ainda me avisaram que era altamente inflamável, então, voltei pra casa e comecei a construir um mosquete básico e aqui ou ali usei magia pra encantar as peças e fazer daquelas ligações mais fortes.


Era útil ter magia ao meu dispor porque assim eu não precisaria de molde nem fogo para derreter o ferro e formatá-lo. Ao final do dia, eu tinha um autêntico mosquete digno do autógrafo de Napoleão. É claro que eu iria guardá-lo só pra mim, mas eu precisaria de muita pólvora, uma vez que o fordismo e a produção em série de balas ainda não existiam naquela terra. Minha espingarda funcionava na base da socada de pólvora, depois bala então eu estalava o estopim.

Depois desse episódio pedi à Ju e à Bella que sempre que possível, roubassem uma quantidade insignificante de pólvora da Universidade.


Na próxima segunda-feira, pedi minha primeira folga no trabalho, já que eu tinha uma a cada duas semanas, e fui até a Universidade com a Ju para ver como eu poderia fazer com os meus estudos. A princípio, me lembrou o castelo de Hogwarts por dentro, mas era muito mais claro e arejado, depois de um tempo achei mais comparável a um desses palácios que se vê em filmes medievais, mas com vidros nas janelas.


- Bom, você está na mesma situação que a Ju, não? Viveu por muito tempo no campo com sua mãe e sabe bem pouco sobre tudo, certo? – Perguntou-me o secretário da Universidade.


- Isso é certo, mas eu tinha fácil acesso a muitos livros o que me permitiu um estudo bem minucioso de muitas criaturas como os dragões, algo sobre o éter e mais. Apesar de eu não ter facilidade em moldar o éter, eu sou bom em matérias exatas. – O que era verdade porque Ciência da Computação não é pra qualquer um.

- Entendo, posso te enquadrar nas aulas de astronomia e ver o que o professor Newton tem para você. – A princípio nem me toquei muito sobre o assunto porque uma vez tive um professor que se chamava Newton Rafael Morgado, de matemática quando eu me lembrei que não estava na terra, meus olhos brilharam:
- Newton? Isaac Newton?


- Sim, você o conhece? – Pensei por um instante, mas achei melhor ignorar:


- Não, mas vou conhecer, certo?


Confusa a mulher assentiu.
Feita minha matrícula, passei a trabalhar durante o dia e estudar pela noite.
Logo no começo do meu curso conheci muita gente desinteressante, sempre tem “muita gente desinteressante” em qualquer instituição de ensino. Eu já quase não via a Ju que estudava pela tarde e ao chegar em casa, ela já estava deitada, me esperava só pra dormir. Pelo menos não fazíamos nada pela manhã, assim, podíamos conversar até mais tarde.

Minha vida começou a se tornar monótona até a terceira semana de curso. O professor Newton não havia vindo, então, puseram um substituto em seu lugar e na primeira terça-feira quando ele apareceu, eu finalmente pude vê-lo. Lecionou sua aula sobre astronomia e falou da lei da gravitação universal que é assunto básico na física do meu mundo.


Notei algo de diferente nesse professor, seus oclinhos de meia-lua estavam tortos em seu rosto. Depois de sua aula, eu arrumava minhas anotações, quando o professor parou do meu lado, e muito apressadamente, sussurrou em meu ouvido:
- Esteja em minha sala no próximo intervalo. (Recreio, para alguns)


Eu me sobressaltei com a inesperada intimação. Chequei meu horário e descobri que antes do intervalo eu ainda teria aula de matemática na ala norte da Univ. Pois bem, depois da aula chata sobre números imaginários, me encontrei com o professor em seu escritório privado que me lembrou muito a sala da professora McGonagall.

_ Marko, de onde você é? – Perguntou sem pestanejar.


_Ceresti – Respondi igualmente seco.

_ Diga a verdade, sei que você vem de outra dimensão ou algo assim._ Não me exaltei nem mudei minha postura, simplesmente o fitei. Quase como se estivesse louco. O professor circundou sua mesa, encheu uma duas canecas com água quente de uma chaleira e tirou quatro saquinhos de chá de uma caixinha depositando dois em cada caneca, entregou-me uma e fitou-me sem dizer nada.


- Certo. O que você sabe sobre mim? – Perguntei


_ Só o que a Sudá me contou._ Todos chamavam a Ju assim, pelo sobrenome _ Ela me disse que vocês dois foram encontrados por um elfo e que ele lhes ensinou sobre a nossa terra, história e um tanto de mágica. Eu quero entender o que aconteceu, como exatamente vocês vieram parar aqui, entende?

Pensei por um momento sobre o assunto, então, resolvi revelar tudo o que eu achava que ele precisava saber: Contei sobre a festa na Lapa, sobre o bêbado e sua garrafa voadora.


_ bêbados, são sempre a raiz dos problemas _ Falei sobre onde e como eu acordei e o que eu sentia quando eu acordei e só. Não disse nada que pudesse comprometer Gawa e nem falei sobre seu trabalho como guardião. Contei que me ajudou muito, falei sobre tudo o que me ensinou e sobre o que eu aprendi sozinho em seus livros, falei sobre o treinamento que recebemos com e sem magia.

_ Que bom que tanto você e sua namorada como a Bella encontraram quem ajudasse a vocês. Não sei se seus amigos que estavam na festa com você tiveram o mesmo destino. _ Estremeci.


_Do que ele estava falando?


_ Desculpe... – Antes que eu pedisse que explicasse suas palavras, levantou-se de sua mesa, foi até a janela e desatou a falar: _ Ao que parece, você e todos os seus amigos que estavam na festa com você, de alguma maneira, caíram em uma fissura no espaço tempo e vieram parar em um universo paralelo. Acredito que você já saiba do que eu estou falando. – Fiquei abismado porque alguém daquele lugar sabia o que era uma fissura no espaço-tempo, mas não tive tempo de expressar isso porque continuou falando sem me deixar pausas para pensar.

_ O fato de você estar no ponto esperando o “ôlibus” e sua amiga, Bella estar dormindo no momento da sucção, significa que vocês, foram escolhidos e o vinculo que une vocês só pode ser a amizade, então, acredito que seu amigo Marechal, Jean, Pedro e sua amiga Nicolle também estejam perdidos aqui pelo planeta. Só vamos rezar para que estejam em Maurítio, pois assim será mais fácil de encontrá-los.

_ Calma, como você sabe o que é uma fissura no espaço-tempo e quem te levou à conclusão da teoria das cordas?


_Simples senso comum querido. Assim como você é ateu em seu mundo. A física é incrível e me permite chegar a conclusões incríveis.

Eu sentia que algo nesse Isaac Newton cheirava mal e não era falta de banho. Meu cérebro que sabe muito bem viajar nas possibilidades começou a peregrinar pelo vale das opções: Ele pode ser alguém que foi sugado como eu e quer tentar voltar pra lá (e para fundamentar minha teoria...) se ele for alguém que caiu em uma poça no espaço-tempo como eu, ele pode estar usando esse nome exatamente para chamar a atenção de alguém que venha da Terra. Se for alguém querendo realmente entender isso, pode já ter encontrado outras pessoas com o mesmo problema que eu e se realmente isso aconteceu, suas experiências com essas outras pessoas certamente não deram certo ou ele já teria me contado, acho eu não custa perguntar...


- Você já encontrou outra pessoa que caiu pra cá da Terra como eu? – Fiz a pergunta estrategicamente enquanto ele colocava mais água quente na xícara, mas não surtiu absoluto efeito, simplesmente negou com a cabeça e, então, me fitou com o mais inocente olhar que eu já vi na vida.


Resolvi testar de novo: ­_Você tem alguma ideia se existe a possibilidade de voltarmos pra Terra? – Suspirou, então, respondeu:
_ As chances são as mesmas de você ter vindo pra cá. Marko, como eu disse, vocês foram escolhidos pra alguma finalidade, senão não estariam aqui. Acredito que para voltar, vocês têm que cumprir seu papel por aqui prime...


_ Não vem com essa... Meu destino eu mesmo faço. – Sempre fui um cara muito descrente, cético ao extremo. Não é algo que eu tenha treinado, simplesmente vem comigo, não consigo crer que algo funciona sem ter uma explicação, como a Magia: ela não “simplesmente acontece”, tem toda uma lógica, a Mana e seu gasto influem a moldagem do Éter e etc. e não como a do Harry Potter que o cara fala duas palavras e “plân” acontece algo do nada, isso é sem sentido. Palavras não têm efeito sobre as coisas, senão as orações de milhares de fiéis cegos pela Terra já teriam acabado com as guerras, fome e etc., energias atuam de forma ordenada e seguem leis e parâmetros pré-requisitadas por elas mesmas e esses conjuntos de leis ou outros regem qualquer universo paralelo que se possa imaginar.

- Entendo, você vai levar muito tempo para entender também. – Adicionou.


- Sempre me dizem isso, já estou acostumado... – Adicionei com um pouco de hostilidade na voz.


- Bom, se não posso te ajudar, quero que saiba que seus amigos certamente estão aqui nesse planeta. Tentarei contatar as outras grandes metrópoles através d’O Espelho pra ver se consigo informações e na próxima terça-feira te passo, ok? – Continuou no mesmo tom brando.

Conversamos mais um pouco, então, agradeci e me despedi e saí para aproveitar o resto do intervalo, e logo a aula de magia básica. Descobri que gostava muito de caçar.

É interessante como quando você está ansioso em espera de algo o tempo parece se demorar mais para passar. Os próximos sete dias se passaram como sete meses e a pesar de eu e as garotas termos coletado pólvora suficiente para encher um cantil de água inteiro que eu deixei três dias no sol, algo me dizia que não seria suficiente para a jornada que se estendia à minha frente.


Durante aquela semana eu pensei no que o homem sabiamente nomeado me disse “Todos seus amigos podem estar nesse planeta, mas, talvez, nem todos tenham tido a sorte de conhecer alguém que os ajude de princípio.” o que significava que possivelmente o Jean, o Faro, o Marechal e a Nicolle estavam aqui e poderiam estar penando para conseguir sobreviver. Decidi não dividir isso com a Bella, pois sabia que ela já estava definhando de saudades de seus familiares e do Xexal (apelido decorrente do Marechal), não queria vê-la com esperanças que facilmente poderiam ser falas. Resolvi aguentar esse fardo por uma semana então...

_ Sim, eu encontrei seu amigo Jean na cidade de Edge, ao que parece, ele está trabalhando como guarda municipal como você faz três meses, parece que ele conseguiu um lugar para morar sozinho, dividindo um apartamento com outros quatro soldados. Eu requisitei que viesse para cá no domingo passado, se ele veio a cavalo, deve estar chegando hoje ou amanhã, mas se veio a pé pode demore mais alguns dias. Sobre o Marechal, o Pedro e a Nicolle, nem rastro.


Fiz os devidos cumprimentos e agradeci, resolvi revelar o segredo para a Ju e a Bella:
_ Calma gente, até agora só encontraram o Jean. Podemos facilmente ir atrás do Marechal, da Nicolle e do Faro!


_Como calma Marko? Você não devia ter escondido isso de mim! Pense bem, é o único vínculo que eu tenho com a Terra, o Marechal! É claro que eu vou procurar por ele, vocês virão?


_ Ju, era exatamente o que iria propor, mas parece que a Bella já entendeu, você aceitaria fazer uma jornada assim? Isso é uma busca às cegas por alguém que nem sabemos se existe, por assim dizer. _ O olhar com o qual a Bella me fuzilou depois desse comentário desnecessário foi mortal.

_É claro que eu aceito, já estou ficando cansada de brincar de casinha... – Disse a Ju - Apesar de que desse jeito não vamos ter boa vida nessa terra, pessoal. – Acrescentou


_Ju, acho que nessa terra não é tão necessário ter dinheiro, aqui é fácil de conseguir um bom emprego que não valha sua vida além do que como viemos de um lugar muito desenvolvido, sabemos muito mais do que esse povo. Lembra-se do mosquete que eu fiz? Vou levá-lo conosco, assim teremos comida fácil. Agora, as coisas têm que ser bem planejadas. Deixarei um aviso na Universidade com o nosso endereço pro Jean caso ele apareça por lá; como ele estava no exército, calculo que já saiba atirar bem com um arco e deve ter recebido bom treinamento com espada. Ficaremos mais uma semana, pois assim posso por o Jean na guarda daqui da cidade para juntarmos mais um pouco de dinheiro e prepararmo-nos pra nossa partida. – Depois dessas palavras, a Bella protestou querendo partir de imediato, mas foi vencida pelos meus argumentos assim que prometemos não partir.

Logo pela manhã do outro dia, passei no Pub e no estábulo para saber sobre notícias do Jean, quando passei pela Universidade encontrei-o ali. Seus músculos estavam muito mais desenvolvidos do que quando o vi subindo naquele ônibus na Lapa; nem parecia aquele garoto magrelo que eu conhecia. Cumprimentamo-nos e trocamos breves histórias, mas decidimos deixar os detalhes para mais à noite enquanto estivéssemos todos juntos, então, o levei para o quartel e consegui um trabalho do jeito que ele preferia: Guarda parado no portão, turno da tarde e noite.


Lá pelas onze da noite, quando nós todos estávamos em casa, apresentei Sharp para o Jean e vice-versa _que bom que o Sharp não fala porque me disse que ele cheirava à fumaça – cigarro, pensei – começamos a contar nossas histórias um por um, primeiro a Bella depois eu e Ju e logo o Jean explicou o que havia acontecido com ele:
- Interessante que foi mais ou menos como a Bella, eu desci no mesmo ponto que ela, então, comecei a caminhar, fui pra casa, minha avó já estava dormindo, então, tomei banho silenciosamente e dormi. Quando eu acordei, estava no quartel general da cidade de Edge e não entendi porra nenhuma. O capitão olhou pra mim e perguntou o que eu queria, então, eu perguntei onde eu tava e etc.. A princípio pensei que fosse um sonho, como você, Marko, mas, depois, usando suas palavras: resolvi que se fosse um sonho eu riria muito daquilo depois, mas caso contrário, resolvi levar o cara a sério, assim que explorei a cidade e depois voltei ao quartel e pedi emprego pro mesmo capitão que me acordou, desde então estou trabalhando e vivendo com alguns soldados de Edge.


Passamos mais algumas horas conversando quando resolvi tocar no assunto:
- Jean, veja bem, tem um professor aqui na Universidade que me disse que podemos estar todos vinculados, isso quer dizer que todos os que fomos pra Lapa naquela noite, ou seja; pode ser que o Marechal, a Nicolle e o Faro também estejam perdidos por essa terra. Eu pedi ao professor que envie um alerta para as outras cidades pra ficarem e olho e nós quatro decidimos sair à procura dos outros e quero saber se está disposto a vir conosco.


Sem pestanejar respondeu:
- Cara, eu vim de Edge até aqui pra encontrar com vocês, por que exatamente você acha que eu não iria buscar o Marechal e a Nic?


- Por isso mesmo eu digo, veja bem, ainda vamos preparar tudo para sair, eu montei um mosquete e tenho o Sharp como montaria, para as garotas, você tem algum transporte e armas?


- A verdade é que as armas que eu portava e nem usava, eram do rei e nem pude trazê-las, mas eu ganhei uma aranha venenosa de um dos guardas e ela é interessante porque é como seu gato, eu tenho algum tipo e conexão com ela, o soldado me explicou que o primeiro ser que a aranha toca quando nasce se torna um amo pra ela, ela faz tudo o que este ordena mentalmente. – Dizendo isso, uma tarântula começou a sair de dentro de seu colete pra fazer uma assustada Bella correr pro andar de cima. – Calma Bella... – Nem precisa dizer que foi inútil o Jean tentar dizer isso. – Bom, ela só faz o que eu mando, observe... – Sem ser necessário o Jean proferir uma palavra, a aranha pulou para a mesa no centro da sala e começou a dançar uma Macarena frenética de oito patas. – Ela também produz teia e em sua fase adulta vai ter três metros de corpo e uma carapaça mais dura que a de uma tartaruga. O único defeito que eu pude identificar é que ela não é venenosa e sua mordida não chega perto de letal a pesar de sua teia ser muito pegajosa. – Depois de uma pausa disse - Tem mais, ela não come insetos, não. – Levantei uma única sobrancelha, então, ele terminou a frase – depois dos trinta ou quarenta centímetros começa a comer carne e o soldado disse que, como dono dela, eu vou descobrir isso de uma forma bem peculiar... Ela vai começar a me morder quando começar a ter fome, não vai chegar a me comer, vai ser só um aviso tipo “me alimente”.

Eu estava abismado com aquilo, era interessante como os animais daquele lugar tinham uma conexão fácil com seus donos.


Ao longo da próxima semana, eu fiz algumas flechas com madeira que eu peguei da caixa do Sharp, pois como partiríamos logo, não fazia sentido abandoná-la ali. Montei uma pistola automática para o Jean e tive que fazer bala por bala e os estopins das balas eu substituí por uma pedrinha etérea cada uma além de fazer pelo menos cinquenta balas, mas usei a energia dele nas balas.


Recebi informações do barman sobre um viajante que falava de um prisioneiro dos Orcs que falava “besteiras sobe certo rio” que nunca existiu, que queria saber onde está e alegava ser do exército e etc. Logo pensei que poderia ser o Marechal ou o Faro. Decidi não alertar a Bella sobre o assunto que a pesar do piti que deu antes, eu prefiro não alarmar meus companheiros.

Voltei pra casa e fui aperfeiçoar meu mosquetão assim que fiz uma mira a laser para ele e coloquei um Kurt como fonte de energia etérea para ele, o problema é que laser é um feixe de luz muito concentrado assim que quando eu ativava o laser a energia do Kurt ia rapidinho, dessa forma acabei fazendo um mecanismo onde eu pudesse adicionar o Kurt quando eu precisasse do laser ou por minha própria energia caso eu não tivesse uma Kurt na hora. Tentei também moldar uma luneta usando ligas de bronze e vidro, mas como minha mana já estava acabando e partiríamos na outra manhã resolvi guardar para tentar em outra ocasião.


No dia da partida, eu e Jean pedimos para sair do serviço pela manhã, então, fomos liberados, A Ju e a Bella cancelaram o curso na Universidade e pagamos o aluguel. Encontramo-nos no portão da cidade, checamos novamente todos os nossos itens então partimos.

Até que esse mês que ficamos em Múrcia serviu-me de algo, encontrei o Sharp, a Bella e o Jean e ainda montei um mosquete e uma pistola semi-automática pro Jean além de descobrir que posso tropeçar no Faro, na Nicolle ou no Xexal por aí.


Capítulo 7:     SEGUINDO AS PISTAS

- Bom, pessoal, eu descobri informações de um viajante que pro norte, na terra dos Orcs, tem um homem que fica falando sobre um... Como é mesmo? “sobre certo rio” e todos sabemos que o rio que fala só pode ser o de Janeiro! Suspeito que seja o Marechal porque o viajante também disse que o cara “alega ser do exército” e todos sabemos que o Cláudio Bordallo é o Marechal! – Isso exaltou a Bella, mas em lugar de deixá-la triste, o que aconteceria caso eu dissesse que ele era um escravo, pô-la contente. Ela não precisava saber que ele havia sido capturado.

Seguimos para o norte cantando Charlie Brown, Lady Gaga, 3 Doors Down, Racionais, Mv Bill, Charlie Brown Jr. de novo, Mamonas Assassinas, 50 Cents, Skank, Zero 21, enfim, cantando a cultura Terrestre um pouco...


Mais tarde comecei a filosofar sobre o caminho que estávamos trilhando, então, comecei a pensar que éramos nada mais que personagens do WoW viajando em busca de mais uma quest... Um Hunter, um Mage, um Priest e um Tanker procurando seu amigo perdido no meio da Horda. É, eu sempre odiei a Horda; meus hunters sempre foram ou Night Elfs ou Anões, o primeiro porque tem adicional com Arco e o segundo porque pode usar mosquete. – E assim, meu pensamento começou a viajar no universo WoW até que algo o trouxesse de volta para aquela estranha terra: Como de praxe, decidimos viajar fora da estrada, pois ela sempre guarda os ladrões e tínhamos o mapa interativo. Resolvi dar uma olhada nele, toquei mais ou menos perto da cidade onde estávamos, então, de repente, aquilo estranhamente me soou muito a Google Maps, as imagens começaram a se aproximar como se um satélite estivesse sobre nossas cabeças, filmando tudo como se a tela do computador fosse aquele pedaço de pano sedoso.

Como que encantado, seis símbolos apareceram no canto do mapa, então, testei um por um: o primeiro servia para aproximar a visão, o que vinha logo abaixo, distanciava e os outros quatro que formavam um quadrado perfeito moviam o mapa pra esquerda e pra direita, exatamente como as ferramentas do Google Maps. Logo, pensei: Se esse mundo não está fielmente conectado com o meu, está conectado com o Google...

Guardei o pano de volta dentro de sua pequena valise que ganhara eu no jogo da cidade e voltei minha atenção ao caminho. Pela noite, no acampamento, mostrei pro pessoal o que havia descoberto. Ainda descobri mais naquele artefato, era possível aproximar tocando o mapa com dois dedos e afastando-os um do outro como em um Iphone.


- É incrível a tecnologia mágica, não? – Disse o Jean me zuando... – Se você tocar aqui abre o MSN...


Era possível cozer um ovo de tão fulminante que foi o olhar que lhe mandei.


O Jean sempre foi meio sarcástico assim, gostava de zuar e no final sempre caíamos todos na gargalhada do que ele falava... Lembro-me de uma vez que ficamos perto da Morada do Sol em frente à loja da Citroën até três da manhã bebendo, conversando e zuando, quando passava um pedestre essa praga se aproximava com cara de mau e pedia a hora pro coitado lenta e espaçadamente, de forma que fazia parecer um assalto, mas no final sempre acabávamos rindo da situação e uma vez que o Jean, a Nicolle, o Marechal, a Bella e Eu ficamos até tarde no mesmo lugar, os dois casais se pegando, então, passava alguém a pé e eu berrava “Eu sou o vela, sim. E daí?” E todos caíamos na gargalhada... Bons tempos!

Agora, a coisa era diferente. Procurávamos nosso amigo que caiu em garras de Orcs e como isso valia sua vida, não mediríamos esforços para recuperá-lo.


Estávamos bem preparados e dispostos e sabíamos o que nos espera pela frente:
- Galera, eu li muito sobre os Orcs na Universidade, e, ao que parece, esses seres não são tão receptivos como os humanos, são rudimentares ao extremo e mais deseducados que portas, sem contar que crescem o olho em qualquer coisa que pareça valiosa. Acho que não vamos conseguir resgatar o Xexal de lá sem uma boa tática de guerra ou muita grana. Dessa forma, proponho o uso de nossas massas cinzentas, temos o mapa que pode nos dar uma visão detalhada das cidades deles, então, podemos traçar bons planos de ataque a essas coisas.


- Deixa que eu resolvo, Marko. – Simples e objetiva. Essa é a Ju...


- Certo, vou deixar a política com você, porque sei que você é boa nisso, mas caso eles forcem a barra teremos derramamento de sangue; de acordo? – Assentiu. Então, pudemos dormir.
Logo pela manhã preparei o desjejum, pois eu estava com o último turno, então, acordei geral e continuamos a peregrinar.


À altura das onze horas chegamos a uma sede de fazenda totalmente destruída, vasculhamos a casa e não encontramos muitos itens, mas todos muito interessantes. Um diário curioso velho que eu levei comigo, duas moedas de prata bem escondidas dentro da madeira que o Jean descobriu por um acaso na parte superior de uma estante de livros vazia, alguns pergaminhos escritos em língua diferente, que supomos ser Orquish, e um punhal de prata. A Bella guardou a adaga bem escondida em seu vestido, então partimos.


O diário era interessante, levava na capa de madeira um relógio analógico com quatro ponteiros de distintos tamanhos, todos protegidos por uma tampa de vidro que se encaixava perfeitamente na capa de madeira. Cada ponteiro tinha sua ponta em uma raia própria, dois deles em um mesmo centro e outro separado. Dos ponteiros concêntricos, a menor raia tinha doze números, de um a doze, a segunda revelava os números compreendidos entre 10 e 40, inclusive eles. Como alvos do ponteiro independente e maior, encontravam-se números entre 00 e 99.


Por ordem de tamanho, os ponteiros indicavam 02 – 20 e o ponteiro imenso 10.


Montado sobre Sharp e lendo as últimas páginas do diário descobri que este era do último dono daquela fazendinha e que ela tinha sido assaltada por alguns bandidos da redondeza, que certamente já não transitavam mais por ali. Estes fora-da-lei cobravam impostos ilícitos do Senhor, às vezes em dinheiro e outras em alimento, e, segundo o diário, eles usavam tudo para manter suas ações contra a coroa.

Constava no diário que seu dono resolveu que não iria mais pagar aos bandidos, então partiu para a cidade. Então, só posso presumir que os bandidos buscaram, mal e porcamente, pelos objetos esquecidos do velho senhor em sua casa depois nunca mais voltaram.


Lancei desinteressadamente aquele livro velho na mochila e pulei de volta ao chão pra caminhar.


Pelos seis dias seguintes, nada de interessante aconteceu, seguimos rumo norte circundando o Lago Gallo, de águas límpidas, como se nem estivessem aí, e de onde saía uma névoa quase imperceptível, até chegar onde o mapa chamava de Ponta do Bico.

A Ponta do Bico era uma montanha bastante alta que subia desde o lago até o céu e à sua volta outros morros que lembravam muito a pedra onde foi alojado o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, entretanto, muito mais pontudos.


Assim que começamos a circundar a tal Ponta do Bico ficamos entre os íngremes morros da base da montanha maior e a Floresta das Árvores Brancas, da qual definia a divisa norte do reino de Maurítio com o Orquish.

Por mais quatro dias caminhamos. A princípio para noroeste e logo novamente para o norte, e em pouco tempo a Ponta ficou pra trás e uma densa floresta de troncos brancos nos rodeava; era uma floresta com árvores altas, mas sem muitas folhas, o que permitia ampla passagem de luz solar, e, devido às brancas árvores, a reflexão da luz natural era igualmente ampla.

Muitas plantas menores fechavam a visão do resto do caminho e alguns animais aqui ou ali cruzavam nosso caminho, algumas espécies que eu nunca tinha visto como: centopeias de três metros, morcegos que voam durante o dia e plantas carnívoras que nos deram problemas...


Vez ou outra passavam viajantes humanos ou Orcs, a maioria comerciantes, mas um ou outro era um mensageiro ou um patrulheiro das estradas; este último nos explicou que seu dever é vigiar se a amplitude da estrada, que era feita à lá Romana, bem construída e assentada com um tipo de cimento e pedras, satisfazia a demanda dos que nela viajavam.

A estrada tinha uns cinco metros de largura e até onde havíamos passado e foram muitos quilômetros andados, nenhuma planta invadia a pista. Notei também que a estrada, além de formar sempre um degrau com o chão de terra que a ladeava, não era perfeitamente plana, mas côncava, o que possibilitaria uma boa drenagem em caso de chuva.

Depois da Ponta do Bico, chegamos a um pub isolado do mundo, mas exatamente no local onde uma bifurcação se fazia no caminho, essa estrada levaria até Falkalen. Seriam cinco dias de viagem até Falkalen, mas valeria a pena, pois nossas provisões estavam acabando e precisávamos de algo que não tínhamos há muito tempo: uma cama fofinha para dormir.


Depois de um bom banho quente de banheira nesse pub, dormimos em camas de palha mal entrelaçadas, com dores em todo o corpo. Pela manhã fizemos uma reforçada e cara refeição no bar do Pub. Bastou mencionar o homem que se dizia do exército e o barman se prontificou em passar a fofoca adiante:
_ Ao que me consta, esse homem foi visto na cidade de Campo Trog, que fica logo a noroeste de Falkalen. Ouvi que é um ótimo gladiador na cidade e que tem feito bons shows, segundo os viajantes, está valendo uma fortuna. – Fechei os olhos e virei o rosto quando o homem por trás do balcão terminou a frase.


_ Como assim valendo uma fortuna? – Quis saber a Bella. Mantive meus olhos no homem com impassividade e fingi que não sabia do que falava.


_Ora, querida, um gladiador com suas habilidades é quase impossível de se encontrar. Não sei como conseguiu ascender tanto. Ouvi dizer que os gladiadores são mais mal alimentados que os cães naquela cidade.


A Bella continuava parecendo confusa, então, o homem explicou:
- Querida, um Gladiador pertence a alguém, é propriedade privada, como um escravo! Ele só pode sair se esse alguém deixar ou se for comprado. E creio que ele vale muito dinheiro nas terras do norte.


Notei a náusea que percorreu o corpo da Bella só pelo olhar de pavor e súplica que lançou pro Jean e pra mim. Estava escrito o que ela queria “Vamos nos apressar a resgatar o Marechal, por favor!” e era óbvio que todo o grupo pensava igual, pois na mesma hora todos se levantaram, então, pagamos a conta e saímos para o leste até Falkalen. Quando olhei para o lado notei que a Bella não vinha, então a procurei na porta do Bar.


_ Gente, Orquish não é pro norte? – me disse como uma estátua parada na porta do bar.


_Bella, se seguirmos ir até Falkalen, podemos atravessar uma depressão e, então, chegar ao Campo Trog mais rápido do que seguindo ao norte, além de estarmos em carência de itens. – Depois de um longo diálogo conseguimos convencê-la que seria melhor partirmos para Falkalen.

Deixei-a ficar sobre o Sharp, uma vez que não se sentia nada bem.
Após três dias de viagem, o Jean descobriu uma flor no canto da estrada que, segundo ele, poderia ser fumada, e era algum tipo de entorpecente:
_ Onde aprendeu isso, Jean?


_ Com os guardas de Edge... – Respondeu-me sorridente.


_E isso é forte? – Não. É capaz de ser tão forte quanto Carlton Azul


_Claro... Você sabe que não gosto de Carlton Azul... Sempre fumava só o Lucky Strike e ainda o que dava pra mentolar.


_Larga disso, Marko, experimenta essa porcaria e fica quieto!


_ Certo, e você vai enrolar em quê?


_Tenho um cachimbo, bicho esperto. – Depois de preparar bem o cachimbo de madeira todo desenhado à mão, colocou-o sob meu nariz:
- Estou fodido mesmo, né?


Era interessante o gosto daquela fumaça nova. O Aroma não era como o dos cigarros brasileiros, esse exalava um odor parecido ao do açúcar, quase imperceptível e o gosto da fumaça na boca; era como própolis e não me libertava o pulmão como o Lucky Strike fazia, mas me deixava meio entorpecido. Caiu-me muito mal isso. Resolvi que seria melhor não voltar a fumar aquilo tão cedo, seria melhor buscar fumo em uma tabacaria se eu quisesse começar meu suicídio gradativo, como eu concordava com meu pai em nomear o cigarro.


- E aí, o que achou? – Perguntou-me o Jean.


_É bom, mas não faz meu gosto. Gostei muito mais do cheiro do que do efeito. – Respondi.
A gosto do Jean, colhemos um pouco daquilo e guardamos em uma sacola de pano que ele levava.


_Eu não sabia que você tinha um cachimbo Jean. – Disse a Bella


_ Eu encontrei em Edge um dia que estávamos fazendo uma ronda. Na verdade, o mesmo cara que me deu Jack a encontrou. – Boiei, e ele percebeu, então, me explicou – A aranha se chama Jack, entendeu, Marko?

Aquiesci, então, continuamos colhendo a flor até que a sacola estivesse pelo menos até metade cheia, então, voltamos para a estrada e continuamos a caminhar com rumo a Falkalen.
Falkalen era uma cidade pequena, assim como a primeira cidade humana que eu havia visitado, Katto.


Suas muralhas usavam uma tática de defesa que eu sempre gostei de usar no jogo Age of Empires: Pelo lado de fora uma fraca, mas resistente muralha formada por troncos de árvore bem enterradas na terra abaixo e logo atrás, uma segunda camada de muro, mas dessa vez de pedra, o que dificultava, e muito, a invasão de qualquer atacante.


Era visível que a cidade era uma cidade-quartel, uma vez que sua muralha de pedra era bem alta e suas torres maiores ainda. Eu acredito que passava dos vinte metros de altura a torre mais alta.


Por dentro a cidade era modesta, por falta de espaço, quase todas as casas tinham três andares e eram bem estreitas. Era visível que os edifícios de cinco ou mais andares eram recentes e todos os estabelecimentos comerciais levavam nomes de guerra; como o Pub, conhecido por Bar dos Espadachins, ou o estábulo, que se chamava Parada do Companheiro de Guerra.

Assim que encontramos o Pub, combinamos de procurar os itens que queríamos e nos encontrar ali ao cair da noite, e então nos dividimos. Sharp decidiu ficar no estábulo para comer e afiar as garras, a Ju e a Bella foram até a loja de poções e passaria na biblioteca logo depois, o Jean resolveu visitar a loja de armamentos e eu fui até a loja de caça.


Conversando com o carpinteiro militar da cidade ele me contou sobre os vários ataques que a cidade tem recebido de Orcs fora-da-lei ultimamente e contou como uma vez quase matou um grupo inteiro de Orcs e que só não matou o último porque havia fugido. Mostrou o colar com um único dente que levava no pescoço e contou como arrancou aquele dente de um Orc com uma porretada da arma que carregava na ocasião, uma maça de mithril que levava pendurada na calça, chegou a mostrar-me a peça.

Disse-me ainda que o mesmo Orc que fugiu levou um item que era de valor inestimável para ele, um pedante em forma de pentagrama de ouro e disse-me que desde então havia posto um preço pela cabeça deste Orc, ele seria reconhecível, pois um dos espinhos de sua maça havia feito um arranhão muito feio em seu olho, além de ser ruivo.

- Agradecido, William. – Disse depois de comprar algumas flechas extras e ouvir todas as suas façanhas.


Depois da loja de Flechas, passei na tabacaria e perguntei sobre os tipos de tabaco que o homem tinha. Falei da flor que encontramos no caminho e cheguei a mostrar uma delas...

_ É só um entorpecente companheiro, não recomendo usar isso aqui na cidade, podemos precisar de suas forças caso um grupo grande de Orcs resolva atacar. – Sem entender direito perguntei sobre o assunto e o homem continuou – Têm já alguns meses, os Orcs do norte, os fora-da-lei deles, vêm atacando a cidade, eu tenho uma teoria pessoal que eles têm um covil perto das falésias ao norte. Não duvido nada disso. Acho interessante como eles atacam a nós humanos com certa frequência e aos elfos eles nunca incomodaram.


_ E se alguém fosse inteligente o suficiente, ou burro o suficiente e peitar essas coisas? – Arrisquei um palpite.


_ Somos pacíficos, garoto, não gostamos de guerra, nos armamos até os dentes porque os Orcs nos atacam... Só por isso. Já perguntou ao flecheiro William quantos Orcs ele matou uma vez? Ele estava sozinho e estava só caminhando pela estrada. Foram sete Orcs e só não foram oito porque um deles fugiu. – Depois de uma pausa, continuou - É claro que a cidade agradeceria fortemente a um guerreiro que acabasse com esse grupo de Orcs pra gente. Fale com o Chefe de polícia se quiser saber mais, parece-me que eles têm uma recompensa pra esse feito.

_ Entendo. Bom, falarei com ele depois. Você tem pedras etéreas à venda? - Sorriu e respondeu:
- Acredito que você possa encontrar no conselho de magia, perto do portão leste, é uma torre com seis andares.


Agradeci e saí em direção ao leste. Avistei a Ju, que passeava com a Bella, seguiam para um tipo de salão de cabeleireiras. “mulheres”, eu pensei.


Chegando ao local indicado, notei como a casa não era exatamente uniforme, as janelas e as varandas de cada andar não seguiam um padrão em relação ao andar inferior e a madeira usada para a construção diferia em cor para cada andar.


Adentrei o recinto e falei com o primeiro ser que me pareceu humano. Acontece que era um manequim. Logo, falei com o segundo, que me vendeu cinco Lápis-lazúlis por $700 o que era uma verdadeira pechincha visto que o preço de cada uma é mais ou menos $180. Em seguida saí do local e fui até o quartel militar onde estavam fixados cartazes com caras feias de Orcs verdes e musculosos com os dizeres de “procura-se” ou “recompensa-se a morte” entre outros.

Um cartaz em especial me chamou a atenção, era de um Orc ruivo com tranças grossas em suas barbas o que dava um aspecto mais grotesco e com um olho tapado por um tapa-olho de pirata sob o qual se via uma cicatriz que rasgava seu rosto de cima a baixo. Percebi na hora que se tratava do Orc que William me havia dito que fugira logo depois de falhar a investida contra ele. Logo abaixo dessa criatura grotesca jazia uma única frase “Ganha $10000 o que me trouxer a cabeça desse tipo.”.


Escurecia e eu tinha que voltar para encontrar a galera no Bar dos Espadachins. Sharp já estava dormindo em seu privilegiado local no estábulo logo ao lado do bar, Bella e Ju estavam com o cabelo mais à moda local, e a Ju ainda conseguiu dar um jeito de pintar o cabelo de rosa outra vez, dessa vez à base de extratos de flores, então resolvemos beber para esfriar a cabeça e quando já se fazia tarde e todos estavam cansados fomos à cama.


Pela manhã no outro dia, comemos e sentamo-nos para planejar o ataque ao Campo Trog quando dei a má notícia:


- Pessoal, recolhi informações que tem um grupo de Orcs fora-da-lei entre Falkalen e o Campo Trog então pensei que seria uma boa nós acabarmos com esses caras, pois assim ganharíamos prestígio tanto em Falkalen quanto no Campo Trog, pois se são foras-da-lei...


- Eu voto em irmos direto atrás do Marechal Marko, ele está servindo de escravo... – Cortou-me a Bella


- Eu sei Bella, mas além de a recompensa ser de 10 mil pratas, o Marechal não deve estar sendo tão mal-tratado onde está, pois está ganhando comida e o mais importante: experiência em batalha além de muitos músculos, então; acredito que esse resgate vale mais cinco dias.

Quando eu falei o valor da recompensa, todos se exaltaram. Era muito dinheiro e não só isso, todos sabíamos que se os Orcs estavam entre as duas cidades, ou seja, no nosso exato caminho, seria quase inevitável que ou nos encontrássemos de frente com eles, ou que nos atacassem pelas costas enquanto fazíamos a invasão do Campo Trog, além de que se capturássemos o Orc fora-da-lei, poderíamos aumentar as chances de um encontro pacífico e um acordo plausível para o resgate do Xexal com o dono, fosse quem fosse do nosso amigo.


Depois de discutir esses argumentos, acabei convencendo até a Bella que seria impossível resgatar o Marechal e ao mesmo tempo não enfrentando esses Orcs.
Visto isso, preparamo-nos e partimos para o norte com os olhos alertas.

Seriam três simples dias de viagem entre Falkalen e o Campo Trog se não fossem esses Orcs com quem precisaríamos nos preocupar, mas o tempo não era nosso inimigo, teríamos que cuidar-nos bem. Sabíamos que a maior chance seria que os Orcs estivessem acampados nas falésias a nordeste, mas preferimos seguir pela planície a norte primeiro, depois quebraríamos para leste.


Capítulo 8: O ORCS 

Eu tinha visto no mapa que a terra dos Orcs por ficar a extremo norte era um lugar frio, mas o que eu me deparei depois de passar as poucas árvores que formavam algo como uma parede entre Falkalen e a terra dos Orcs me surpreendeu: uma espessa neblina cobria tudo. Nada além de uns duzentos metros era visível. Agora eu entendi exatamente porque os viajantes chamavam Orquish de terras obscuras ou área congelada uma vez ou outra, eu nunca tinha posto sentido nisso.

E ainda isso mudou muito meus planos. Era bom que eu estava ganhando alguns dos sentidos de Sharp, como sua audição aguçada e seu olfato mais poderoso que o humano, pois isso me ajudaria muito como arqueiro naquele local. Entretanto, sob uma emboscada, seríamos sobrepujados facilmente pela incerteza do número dos inimigos.

Sob esses aspectos, fomos obrigados a mudar de tática, em lugar de seguir em formação de defesa, resolvemos fazer dois grupos, um de reconhecimento e outro de ataque, caso o primeiro caísse em emboscada, o segundo forçaria o passo para socorrer o primeiro e o turno na primeira noite foi reforçado. Em lugar de uma única pessoa acordada, duas ficaram. Primeiro eu e Bella depois a Ju e o Jean. Deixamos que Sharp descansasse por completo uma vez que seus sentidos seriam necessários.


Depois e algumas horas do segundo dia, Sharp começou a sentir o cheiro de morte no grupo da frente quando passaram pelo mesmo problema que logo eu e Ju passaríamos: como em filmes de terror, eram exibidos crânios humanos e orcs enfiados em lanças e alguns corpos enforcados ainda em decomposição à mostra sinalizavam um “mantenha distância” bem entendível.

Andando por aqui, as canções terrestres já não nos acompanhavam e as brincadeiras não muito raras feitas até aquele ponto foram bruscamente substituídas por um alerta geral. Ao atravessar esses postes veio o comentário do Jean do qual eu já estava me tocando:
_ Não vejo animais há bem uns 15 minutos. Será que viram a gente ir por aqui?


_ Jean, pensa no Marechal... – Respondeu friamente a Bella. Eu sabia exatamente que o Jean ia responder... Algo como “se não chegarmos lá vivos não poderemos resgatá-lo Bella”, mas ele preferiu o silêncio, pois sabia que a Bella iria render mais ainda o assunto e agora definitivamente não seria hora para uma daquelas piadas que só o Jean sabe fazer seguida de seu costumeiro comentário de “to só gastando cara”.


Não demorou muito para o grupo de reconhecimento ser atacado. Jean, Sharp e Bella que estavam à frente puseram-se em guarda quando foram cercados facilmente por sete Orcs que simplesmente pararam eles sem ataque. Pude ver tudo através dos Olhos da Besta, que é um feitiço simples que eu havia desenvolvido que me permitia acompanhar o que o Sharp via desde que não estivesse muito longe.


A princípio os Orcs olharam estupidamente para os dois humanos e então como eles perceberam a presença do grande felino, um deles sussurrou algo para outro : “a pele dá um bom dinheiro no mercado alternativo, não?”. Passaram alguns minutos fazendo piadinhas e mexendo muito com a Bella até que um Orc visivelmente maior que os outros e aparentemente mais velho apareceu montado em um Lobo enorme que tinha uma juba em semelhante à de um leão.

Lembrou-me muito a um Orc com sua montaria do WoW. Este maior era exatamente igual o das imagens do Orc que roubou o talismã do flecheiro de Falkalen, então, apertei meu passo preparando quatro flechas com pontas de lápis-lazúli que já tinham boa mana e quando senti que estava a mais ou menos trezentos e cinquenta metros de onde estavam os Orcs, então, apontei as flechas pra frente e um pouco pra cima, absolutamente cego, e usei os Olhos da Besta para focar minha mana em alguns dos Orcs ali presentes.


As flechas, como no treinamento com a batata, ganharam vida e foram direto na garganta dos Orcs grandes que eu escolhi, atravessando sem dó suas jugulares e manchando todo o solo com sangue. Já sabendo que eu havia atacado, Sharp jogou-se sem dó para cima do cão-montaria do Orc com um arranhão no rosto e embrenhou-se em uma batalha única contra a criatura enquanto esta empinava e derrubava seu montador de lado no chão, que se levantou de um salto e atacou Jean, que já tinha metido sua lança com força em um dos Orcs e atacava a outro.

A Bella Havia lançado um buff do desinteresse sobre ela mesma, o que mantinha os Orcs longe dela e tentava deixar a armadura do Jean ilesa com feitiços discretos. Quando eu e Ju chegamos ao local, sobrou-me lançar a minha preciosa flecha com Kurt no braço do Orc-chefão para congelar metade de seu corpo, já que a Ju já havia enfeitiçado o outro Orc que se levantava por trás do Jean para acertá-lo enquanto desferia o golpe mortal em um terceiro agora inerte.

Fui até o Orc-chefe e antes e perguntei seu nome, cobri meu o nariz, pois fedia muito.


_ Grum, é meu nome humano. _ Respondeu-me depois de muito insistir e torturar a criatura que não queria proferir uma palavra. Como a flecha que lancei não o havia congelado e sim criado um tipo de cadeia à volta de seu corpo, ele continuava vivo e consciente; o que me permitia interrogá-lo e torturá-lo.

Certamente eu o mataria afinal, mas eu precisava do artefato que havia roubado de William, o Flecheiro, pois assim ganharíamos sua recompensa pessoal e talvez um pouco de prestígio na cidade.

 _ Grum não sabe de artefato nenhum. Grum não roubou o humano William. _ O Orc só poderia estar me zoando, a caricatura dentro da flecharia era exatamente igual à sua cara feia e redonda de músculos e a cicatriz estava exatamente no lugar onde mostravam as imagens.


_ Parceiro... _ Lembrei-me dos métodos de Eragon e resolvi experimentar: peguei um punhado de terra do chão e coloquei um pouquinho de mana, o suficiente para fazê-la ficar incandescente, e pus embaixo do gigantesco nariz da criatura afirmando que: _ Eu não preciso te matar aqui, mas posso te fazer engolir essa terra com facilidade, essa coisa queima _ ele podia sentir o calor de tão perto que estava de seu nariz _ e posso colocá-lo dentro de você por anos e deixar aí dentro queimando sem parar, até que saia por algum lugar muito indesejado, repito, por anos e não por algumas horas, como comida normal.

O Orc ficava cada vez mais nauseado, de forma que pude confirmar como Orcs e humanos são psicologicamente igualmente fáceis de enganar. A criatura disse:
_ Eu tive que dá-lo ao meu dono ou ele iria me decapitar, ele exigiu a peça. _ Pude notar que ele falou com amargura e quando eu ia perguntar onde estava seu chefe ele me falou _ Meu dono é péssimo comigo, sabe? Você é um humano forte, você deve ser o líder de seu grupo... Vocês venceram meus Orcs altamente treinados com facilidade; eu gostaria de fazer um tratado de sangue com você, humano _ Um tratado de sangue para os Orcs era algo sério de verdade e magicamente trancado, uma vez um Orc fazendo um tratado de sangue, ele nunca quebra as regras desse tratado, mas ao contrário do nome, é algo puramente verbal. _ Se você conseguir me libertar do meu dono eu servirei como guia para você na terra dos Orcs e prometo nunca atacar a você ou a seus amigos enquanto estivermos em solo Orquish. _ Eu percebi bem a gramática que ele usou... “Em solo Orquish”...


_ Não sou o líder do meu grupo, somos todos amigos e temos objetivos em comum e é só por isso que estamos juntos nessa, mas... _ Sua proposta me era extremamente interessante porque ao contrário da terra de Maurítio, onde se via tudo a quilômetros facilmente, aqui não se podia ver a mais de um palmo à frente dos olhos; pensei que seria fácil usá-lo como guia e depois que conseguíssemos resgatar o Marechal, poderíamos matá-lo, afinal era um Orc.


Senti-me um racista em pensar assim, mas afinal, entre os humanos da terra, não existem raças diferentes, pois somos todos seres humanos e orientação sexual ou cor de pele não define raça, mas Orc, Humano, Anão e Elfos eram definitivamente raças diferentes, assim, tornei-me, possivelmente, o primeiro racista de fato da história humana terrestre.

_ Sendo assim, vou reunir-me com meus amigos para decidir sua estada em nosso grupo.

Todos foram unânimes a princípio: “não vamos aceitá-lo no grupo”, mas mais uma vez a minha alta carga de informação os venceu:
_ Pessoal, segundo informações dos livros da Universidade, os Tratados de Sangue dos Orcs são algo de total seriedade para eles, é algo cadeado magicamente, e de outra forma, se ele nos ajudar e o dono dele ficar sabendo, certamente quererão matá-lo de cara, assim, o único que perde se morrermos todos ou se for descoberta essa farsa pelo lado dele é ele mesmo.


_ E se ele tiver um complô com o dono dele para fazer isso, caso ele perca os guardas dele, porque esses porcarias aqui não eram “altamente treinados” como ele mesmo disse e eles são foras-da-lei, podem ter aprendido uma forma alternativa do tratado de sangue... – Argumentou com astúcia a Ju.


_ Nesse caso, podemos por um feitiço nele para atacar o próprio dono assim que vê-lo. _Respondi, e depois de um pouco de discussão a Bella aceitou fazer o feitiço.


Voltei-me para o Orc e disse-lhe sem pestanejar:
_ Grom, eles ainda não confiam em você, nesse caso, resolvi que vamos lançar-lhe um feitiço o qual fará você atacar o seu dono assim que vê-lo; você aceita esses termos do tratado de sangue?


O Orc pareceu hesitar antes de pestanejar um pouco e então aquiesceu sem saída. Ou era aquilo, ou a morte. Sendo assim, recolhemos os itens que nos serviriam ainda, inclusive minhas flechas de lápis-lazúli, então, liberei a poderosa figura do Orc do feitiço da minha flecha e a Bella curou seu braço com muita hesitação, então, a gigantesca criatura nos indicou no mapa onde ficava o acampamento de seu líder, logo a leste de Campo Trog, na encosta das falésias; nos explicou exatamente como era o acampamento. Ele sabia de cada número, quantas barracas havia, quantos Orcs habitavam aquele pequeno quilombo de renegados escondido e como se dividia a pequena cidade.


Aprendemos tudo em menos de três horas, então, resolvemos partir e agora com o Orc já não precisávamos nos dividir em grupos, mas ainda assim eu resolvi que o Sharp andaria em modo furtivo, de modo que ele ficava um tanto transparente, o que era uma peculiaridade de seu pelo, refletir a mesma luminosidade que recebia o outro lado exato de seu corpo. Era uma técnica exclusiva desses gatos de Falraën que só começaram a desenvolver essa técnica de sobrevivência depois da chegada de Yawë e por isso alguns livros dizem que é uma consequência da queda do meteoro, como se fossem animais mutantes, outros livros dizem que esses tigres vieram junto com os elfos. De qualquer forma, a transparência chegava a 75%, o que lhe permitiria fugir furtivamente caso fôssemos atacados, mas em compensação, seu movimento teria que decair para que pudesse manter sua mana concentrada nessa transição.


Antes de me conhecer, Sharp já treinava muito essa técnica, por isso ele conseguia produzir a mana gasta no processo de furtividade com facilidade. Caminhamos até o acampamento e nos escondemos em um local privilegiado. Era interessante, porque o local onde haviam escolhido para o acampamento não era atingido pela neblina espessa de forma que a visibilidade do campo era perfeita de onde estávamos.

Segundo Grom, estava distribuída da seguinte maneira: eram três imensos círculos, no externo, estavam os mantimentos e os guardas de ranking baixo, que eram seis, e os assaltantes, que eram quatro. No segundo círculo, mais interno, estavam as montarias, os guardas de elite, que eram mais cinco, e o campo de treinamento. E no círculo interno morava o dono de todos os Orcs do local e sua guarda pessoal de dois Orcs, um mago e um clérigo.
Seria um ataque relativamente difícil, mesmo com Grom do nosso lado, mas ainda assim tínhamos as armas desconhecidas: o mosquete e as pistolas do Jean o que nos ajudaria muito.
Passamos uma parte da noite planejando o ataque e tivemos que esquentar a comida em aquecimento mágico para que não fosse visto do acampamento.


Pela manhã, atacamos, como combinado, no exato horário da troca de turnos de guardas; a Ju, que sabia atirar com mosquete, acertou o Orc clérigo bem na cabeça, antes de qualquer coisa, logo depois dela, lancei três das flechas com lápis-lazúli e depois mais duas, cada uma focada em um orc da elite diferente; Sharp, que estava  semi-invisível na boca do acampamento, atacou e matou sem piedade com uma única patada na jugular do Orc-soldadinho-de-chumbo que saiu para nos atacar inocentemente.

Depois disso, a Ju acertou outros dois soldados com feitiços de confusão, o que os fez atacarem um ao outro e o Jean cuidou de outros dois soldados, ajudado pelo Sharp, que acabou com o último.

Acabados os guardas do círculo externo, Grom matou com facilidade os assaltantes que tentaram nos contra-atacar com espadas de bronze, as quais Grom pegou com as mãos nuas bem na lâmina e entortou, enfiando-as nos pobres guerreiros.

Sem mais ninguém na ala externa do acampamento, o último Orc que restava era o Orc mago que desatou a lançar magias em nossa direção, mas logo foi silenciado pelo Orc-chefe:
_ Porque me ataca, Grom? - Perguntou


Sem responder verbalmente, Grom partiu para cima de seu ex-chefe, que foi defendido pelo mago com um raio em seu peito, que o acertou com força, mas sequer o derrubou; continuou andando e desviou o segundo raio com a espada, mas o terceiro raio fulminou seu peito, assim como a mana de seu usuário.

Notei aquela cena deplorável; eu precisaria daquele Orc, mas agora ele já era. Apontei meu arco com o Kurt para cima e olhei exatamente entre os olhos do Orc mago disparando a flecha que fez um movimento incrivelmente antifísico: em lugar de partir para cima, subiu um metro e meio e fez uma curva extremamente viciosa na direção entre os olhos do Orc, que não teve tempo de nada.

A pedra na ponta da flecha explodiu poderosamente depois de atravessar sua cabeça e os estilhaços acertaram o Orc-chefe, deixando-o ferido e irado.

_ Agora que acabaram com todos os meus guerreiros, levem tudo daqui, ou vão querer me matar também? Minha cabeça não vale nenhum dinheiro, sabiam?


Senti-me nojento de responder à essa criatura:
_ Você mantinha Orcs aqui contra suas vontades, forçava-os a roubar e colocava seus pescoços na reta em lugar de por o seu e ainda acha que vamos lhe deixar vivo? – Sem aviso, Sharp atacou o Orc-chefe por trás, imobilizando-o no chão.


Caminhei até onde estava a deplorável e musculosa criatura de suntuosas e visivelmente caras roupas, um verdadeiro burguês, e arranquei de seu pescoço a pequena estrela de cinco pontas que me havia descrito William, dizendo: _ isso vale mais que sua vida._ Então, desembainhei minha espada desferi o golpe mortal arrancando-lhe a cabeça com um jorro de sangue que me acertou no rosto. Senti-me em um filme do Russel Crowe.

Decapitei o corpo inerte de Grom e coloquei sua cabeça em um saco, procuramos por todo o acampamento e encontramos dinheiro em moedas Orquish e um pouco em moedas humanas além de diversos itens interessantes, em sua maioria eram grandes demais ou pesados demais para carregar, mas, certamente, todas as pedras etéreas vieram conosco.


Alguns mapas que seriam inúteis porque tínhamos nosso Google maps pessoal, roupas encantadas e pergaminhos mágicos. Resolvemos juntar todos os itens mais caros e leves, os cães-montaria vieram muito a calhar. Levamos três cães, um para mim, outro para o Jean e o último para o Marechal e as garotas poderiam montar Sharp que era igualmente grande e tinha uma cela dupla. A princípio, os cães deram problemas, mas o Sharp soube dominá-los e impor-se como mestre, sendo felino, sobrepujou os pobres caninos, como deve ser.
Prontos, partimos para o Campo Trog.


Capítulo 9: O MARECHAL 

No caminho até Campo Trog, decidimos usar primeiramente de política e instruí a Ju, apesar de desnecessariamente, a tentar não parecer que roubaríamos o Marechal caso eles não aceitassem nos repassá-lo. Chegamos à cidade por volta do meio-dia. O Campo Trog era uma cidade extremamente singular na minha visão. A arquitetura era bem rústica e usavam muitos ossos e presas de animais grandes como os Kodos para ornamento. A religião era outra base de ornamento visível na arquitetura do local, muitos símbolos grandes ostentavam as portas e as janelas das casas em forma de folhas e cunhas. A cidade era bem fechada e o espaço entre as casas era pequeno, diferente de Falkalen, onde a coisa era bem espaçosa e ventilada, alguns comerciantes, todos Orcs, faziam suas lojas de alimentos visivelmente anti-higiênicos no chão, como os camelôs que vendem relógios nas avenidas do Rio de Janeiro.

_ Não acredito que o Marechal tá por aqui._ Choramingou a Bella, que visivelmente, tal como eu, desaprovava aquele comércio asqueroso.


Buscamos o Pub e perguntamos para a gigantesca figura do barman, Garn, sobre o homem que falava que era do exército e etc.


_ Vocês são humanos muito sortudos. _ Respondeu-me com uma voz muito rouca e grossa. _Em três semanas teremos uma apresentação com o homem na arena da cidade. Suba a estrada logo ao lado do meu bar e siga reto, você chegará até a arena de Gurubashi logo. _Não acreditei no que eu ouvi... Gurubashi por um acaso é uma arena que fica em Booty Bay, do World of Warcraft.

Pagamos a bebida e saímos cada um para um lado. O Jean foi procurar tabaco, a Ju tentar vender as pedras etéreas que dispúnhamos em excesso, Sharp, eu e Bella seguimos caminho juntos, uma vez que fui até a arena para ver se descobria algo... Como era de praxe, combinamos de nos encontrar no mesmo Pub ao anoitecer. 


Chegando à arena, descobri que o espetáculo tinha entrada franca e que certo Orc burguês estava preparando-o. Na mesma hora pensei na história da humanidade: Política do pão e circo pra afastar a cabeça das pessoas dos reais problemas.


Comecei a bolar um plano mirabolante na minha mente: Só tenho duas formas de tirar o Marechal de lá: Ou comprado, ou morto e o preço de um escravo mediano era exorbitante, coisa como $3M (três milhões), o Marechal devia valer pelo menos $10M se estava sendo tão lucrativo assim.

Fui a vários lugares na cidade para reunir informações.


_ Torno, o Apotecário! _ respondeu-me o imenso Orc, dono de uma muito suja farmácia, com quem eu conversava. _ Eu sou o médico do Gallup, o dono do cara do exército.


Começaram a se passar várias possibilidades em minha mente. A princípio, o resgate do Marechal tem que ser algo pacífico, sem derramamento de sangue, mas é claro que isso pode perfeitamente ser feito sem ninguém nem descobrir. Ou seja, o Marechal poderia simplesmente morrer. Comecei a explorar os conhecimentos daquele Orc e descobri que não entende muito da medicina humana e que não sabia bem como funcionava o corpo humano, então comecei a jogar o maior caô que eu já tinha inventado na vida.


_ Nossa que interessante, pois eu sou médico na terra dos humanos e não só médico físico, mas psicológico e pra te ser franco, eu vim aqui só pra entender a cabeça desse homem. Será que você conseguiria uma audiência minha com esse Sr. Gallup? _Ante a caraça de desconfiança que me fazia eu lancei: _sabe como é, parceiro, pelo bem da ciência. – Notei que hesitaria muito mais com argumentos tão retrógrados, então, resolvi jogar com seus interesses, afinal, orcs são orcs – Será que não tem nada que eu possa fazer para que me ajude a chegar até esse tal de Cláudio Marechal? 

Depois de refletir um pouco, Torno resolveu me dar algumas tarefas fáceis para um arqueiro; como caçar algum animal específico e coletar algumas ervas de algum lugar longínquo, coisa que certamente eu não iria fazer. Procurei a casa de leilão e encontrei nos registros o que o preguiçoso e lento apotecário com tanta vontade buscava e reservei, mas não comprei ainda, voltei para o Pub e expliquei meu plano para o pessoal.


_ Seguinte, galera, todos sabemos, graças à universidade, que têm algumas plantas que, mesmo aqui, na terra do nunca, têm efeitos no ser humano, facilmente reversíveis e que graças a isso podemos aplicar no resgate do Marechal. Acho que a princípio devemos tentar este método, então, poderemos alegar que é algo muito pesado e que não tem cura e etc. e nós três sabemos – a Ju, a Bella e eu – que a garnísia, que é uma plantinha pequena que tem aos montes em Falkalen e que por um acaso eu colhi para fazer poção de paralisia para por na ponta das minhas flechas, causa falência generalizada dos músculos, o que faz com que a pessoa pareça morta. Nós po...

_ Marko, você não está sugerindo matar o Marechal, né? – A Bella seria um obstáculo, difícil convencê-la. A Ju percebeu isso, tanto que fez que sim pra mim com a cabeça e saiu da sala. O Jean parecia não ter entendido muito bem.


_ Bella, entenda uma coisa, vai ser impossível tirarmos o Marechal daqui sem um plano mirabolante assim. O Sr. Gallup Jamais vai nos vender o Xexal por meras 10 ou 15 mil pratas que temos! Teremos que dar um jeito de tirar ele de lá e não podemos lutar contra a cidade toda.


É, a conversa rendeu pelo menos duas horas e o Jean só levou vinte minutos para entender o que eu queria fazer exatamente. Meu plano, afinal, não era tão complicado: Por o Marechal inconsciente, dizer que ele estava morto e logo levar o corpo dele para “pesquisas científicas”. Talvez o orc aceitasse vender o corpo do Marechal caso eu dissesse que vale de algo. No final, até a Bella concordou, muito puta de raiva, mas aceitou que de outra forma teríamos que lutar com Campo Trog inteira e ainda que saíssemos vivos, Orquish seria nossa inimiga “forever, enever, till the end of times”.


Pois passei alguns dias longe da farmácia do orc Torno e perto das reclamações da Bella, até que chegassem minhas encomendas, então, resolvi levar suas plantinhas e peles de animais para que me apresentasse ao Sr Gallup como médico altamente renomado de Múrcia.


_ Boa noite Sr Gallup – Cumprimentei o orc de estatura mediana (um pouco menor que eu) e pele um tanto desbotada em comparação a todos os outros orcs que eu tinha conhecido. Levava uma grossa trança única na cabeça que mantinha seus cabelos para cima e alguns gravetos bem moldados ornamentava sua barba. Era cego de um olho e levava um cajado sem pedras etéreas visíveis. Respondeu-me com uma voz de idoso, mas ainda assim extremamente grossa: _Ah, olá humano. Você é um tanto jovem para ser médico, ein?


_ Ah, a ciência não nos impede mais, senhor, nos dias de hoje, quanto mais sabemos, melhor.
_ Engajamo-nos numa conversa sobre biologia que apesar de sempre ter sido minha pior matéria no colégio, eu notava como eu sabia claramente muito mais que eles. Tentei não demonstrá-lo, pois me tornaria rude e soberbo fazendo isso e só ganharia a antipatia do meu inimigo e esse não era meu objetivo.

Depois de quase três horas discutindo biologia e astronomia com o orc, resolvi lançar uma indireta, logo depois de uma golada em um chá de verbena muito ruim: _ Sr. Gallup, tenho ouvido falar muito deste tal escravo humano seu que vence orcs e leões em batalhas, ao que me consta ele diz ser de outro lugar, certo Rio Januário _ forcei-me errar a palavra para manter a discrição _ e diz ser Marechal do exército, é isso mesmo? 


_ Sim, já ouvi o que ele diz e lhe garanto jovem, as histórias deste rapaz fazem um remoto sentido, pois ele conta histórias de um mundo onde os humanos dominam e não existem..._ Então, começou a descrever o pouco que se lembrava sobre as histórias que o Marechal certamente contou-lhe sobre a Terra. Tentei manter um interesse singular no assunto, pois se supunha que eu era psicólogo ou algo parecido, então, tive que sufocar meu tédio de ouvir histórias que eu já conhecia muito bem além de engolir todos os erros que cometia contando-me a minha própria história.


Depois de ouvir por mais meia hora decidi lançar uma direta: _ Essas histórias são extremamente interessantes, Sr Gallup, eu, definitivamente, não sabia que podemos usar aparelhos e torres com botões para falar uns com os outros _ Tentei reproduzir sua porca descrição de um celular _ e para poder entender a mente de um homem assim eu preciso falar diretamente com ele. – Estava óbvio que iria no mínimo hesitar, e o fez, a princípio, mas depois de mais alguns minutos de diálogo, consegui usar meu veneno político muito bem treinado para visitar a cela de meu amigo querido.

Enquanto íamos em direção as masmorras, sempre dois passos atrás do orc na mente dos ratos que saíam voando do caminho enquanto passávamos, procurei para ver se conseguiria descobrir onde era a cela do Marechal. Logo a encontrei no final de um corredor, uma cela privilegiada e só para ele, como eu esperava. Usei o mesmo rato que me havia informado da localidade para levar um pedaço de papel que eu havia confeccionado antes de entrar na casa.

De forma que quando cheguei a sua cela, o Marechal já sabia o que tinha que saber: 
“Eu era mesmo o seu amigo e não uma alucinação e viria em seu resgate.” Quando vi ao longe atrás das grades aquela inconfundível figura magricela reconheci o Marechal no ato, mais ou menos com a mesma estatura do Jean, o Marechal era um tanto mais magro que ele e muito mais ágil, tinha os olhos escuros assim como o cabelo a pele um pouco mais escura que a minha, e um pouco mais clara que a do Jean, vestia uns trapos bem conservados e um boné visivelmente feito por ele mesmo.


Ao abrir a cela, o Marechal reagiu exatamente como eu esperava: Surpreso por ver um humano depois de mais de três meses entre orcs, mas não surpreso demais a ponte de demonstrar que me conhecia. Notei o meu ratinho mensageiro sentado no canto da cela e me agradeci por não esquecer-me de manter o encantamento nele.


Troquei algumas palavras com o Marechal como se nunca tivéssemos nos visto, expliquei-lhe como eu e um “grupo de cientistas seletos” estávamos estudando fenômenos como o dele e recitei os nomes de cada um desses “cientistas”, Jean e Juliana, para que ele soubesse com quem eu estava... Não falei o nome da Bella de propósito, pois eu sabia que se eu dissesse, ele desataria a chorar e não sei bem se teria criatividade para dizer que conheceu alguém com esse nome e etc.


Quando eu ia saindo da cela com seu dono, o Marechal comete o erro crasso de perguntar:
_ E o resgate? _Congelei na hora, mas fiz cara de desentendido e consegui pensar rápido, virei a cabeça lentamente fazendo careta para o orc e perguntei em voz baixa, de forma que o escravo não pudesse entender: _De que ele está falando? É contigo?


_ Não sei – Respondeu-me o orc. Então, teatralmente mudei meu rosto para alguém desentendido para depois virar-me para o Marechal e responder claramente sua pergunta: 
_ Isso virá com o tempo garoto, não se preocupe._ Voltei a olhar para o orc e fiz cara de interrogação.


Como eu sabia que teria que explicar para o orc, comecei a elaborar uma mentira muito boa até que me perguntou por que respondi aquilo: _A mente do ser humano prega muitas peças em seu dono, possivelmente me ligou a algum fato que já ocorreu em sua vida ou talvez tenha a esperança que eu vá resgatá-lo. Pobre! – Concluí como se isso fosse a coisa mais banal e eu visse todos os dias. E consegui convencer o orc. Depois de me despedir do orc, saí de sua casa e procurei alguma entrada para o esgoto nos arredores de sua casa, então, voltei para o Pub com as boas notícias.

Sharp entendeu perfeitamente o que eu fiz, sem precisar explicar trinta vezes como tive que fazer para que os outros entendessem: enquanto eu estava na masmorra, eu soltei um pequeno rubi quase explodindo com minha mana no chão e um pedacinho de papel logo a seu lado. O rubi estava encantada para atrair ratos e o primeiro que comeu a pedra seguiu à risca minhas ordens: pegou o pedaço de papel e levou-o direto para o Marechal além de minha mana em mim e a minha mana na pedra dentro do rato estarem fortemente conectadas, enquanto o animal estava perto de mim na cela eu criei um vínculo de mente poderoso com ele, o que me permite coordenar seus passos livremente.


Assim, eu tenho olhos e ouvidos dentro da cela. É uma pena que esse tipo de conexão só vai servir até algum gato pegar o rato ou a mana no rubi acabar, mas, de qualquer forma, eu teria um espião dentro da casa que me forneceria alguma informação necessária. Depois de alguns dias perto da casa, eu tinha uma planta perfeita da casa com detalhes das suas passagens secretas e todas as entradas e saídas.

Mesmo com o orc me permitindo visitar o Marechal temporariamente, eu levava uma folha encantada que me permitia escrever e mostrar pra ele e logo ela se apagava sozinha e, então, ele me fazia o mesmo enquanto me contava histórias em voz alta e eu fingia tomar nota. Seu dono não nos acompanhava para ver o que fazíamos, mas deixou um orc tamanho três por quatro na porta como guarda, caso acontecesse algo.

Entre nossas conversas, o Marechal me contou que andou roubando muita comida do dono dele sem ser percebido, disse-me que o fazia nos horários de sol, que era quando todos os escravos eram liberados por um tempo no pátio para espairecer e se exercitarem. Disse que todos os outros escravos só não são fortes e bem-dispostos como eles porque os que tentam roubar perdem as mãos, mas ele era experto o suficiente para pegar as coisas sem ser percebido. Essa seria uma interessante skill para nosso grupo – pensei.


Contei-lhe sobre a Bella e que ela, assim como ele, já não aguentava mais essa distancia. Notei o pesar em sua letra quando falou sobre ela. Logo me contou tudo sobre seu tempo naquele mundo alienígena: Como todos nós, sua ultima noite teria sido aquela na Lapa, enquanto ia para casa, dormiu no ônibus onde viajava e acordou dentro de uma cela sobre uma carroça cheia de escravos a caminho da cidade de Campo Trog. Ninguém sabia como tinha ido parar ali e nem quem era, e ele só sabia perguntar onde estava e que ali não era seu lugar e etc. E desde então, ele simplesmente servia como escravo lutando e tentando sobreviver como pode.

_ Segundo ele, Bella, ele recebe tratamento especial por aqui por ser mais forte que todos os outros escravos, ele não é açoitado quase diariamente como os trabalhadores e recebe comida um pouquinho melhor que os outros, além do que ele já rouba. Ele está sendo bem tratado até mesmo para um escravo em minha opinião. 


_ Não tem graça, né, Marko? – Respondeu-me Bella como se eu tivesse desistido de resgatar o cara.


_ É claro que não vamos deixar o resgate dele de lado por conta disso. _Contestei. Meu plano seguia em linha, comecei a conversar com o Marechal e ele havia entendido os riscos, riscos esses que eu preferi não contar para a Bella, é claro; de qualquer forma, ele resolveu aceitar a proposta de fingir uma morte para o seu dono e, então, eu, como médico, iria reclamar o corpo para estudos médicos futuros.


Mas o próprio Marechal pediu que eu administrasse a droga para ele somente depois do próximo espetáculo que seria depois de amanhã, então, resolvi esperar, e nesse meio tempo fechei bons negócios, vendi algumas armaduras e comprei outras. Meu arco encantado por Gawa já estava desgastado, daí comprei um arco longo com corda de crista de unicórnio nórdico e com duas presas de Javalindo, que é uma espécie de javali encantado, que mesmo encantando e apesar do nome, continua sendo feio.

_ “O dia D chegou, se esse é o lugar, então, aqui estou...”, pois é, amanhã vou começar a administrar a droga do Marechal, galera; fiquem prontos para sair da cidade a qualquer momento, pois assim que eu “descobrir” que ele morreu terei que levar dinheiro por seu corpo.


Durante a batalha do Marechal a qual eu observava no camarote do seu dono, apliquei-lhe uma pergunta: _ Se seu homem morresse em uma dessas batalhas, eu poderia ficar com seu corpo para estudos científicos?


O orc, pego muito desprevenido com minha pergunta virou-se completamente para mim para me encarar com uma grande interrogação na caraça feia perguntando: _O que exatamente você quer dizer com isso? _ Foi quando eu vi uma cena que me fez arregalar os olhos maiores do que ovos... O marechal havia recebido um golpe fatal de espada de seu oponente. Os momentos que se seguiram, foram em câmera lenta para mim: O Soldado baixou a espada com toda a força sobre o ombro pelado do Marechal que vestia muito pouca armadura conseguiu por seu escudo de cobre na frente do golpe, mas seu torso sangrava com um corte profundo entre duas costelas.


Eu teria problemas para consertar se a hemorragia atingir o pulmão. Depois desse golpe, o Marechal dobrou-se sobre si mesmo até tocar o chão com a mão esquerda, livre, eu pensei que havia sucumbido, mas não foi exatamente isso. Pegava uma ponta de uma lança quebrada para enfiá-la de baixo para cima certeiramente no coração de seu oponente sem reação que caiu de lado sem poder se defender.

O orc levantou-se e urrou sozinho gritando “Marechal, Marechal, Marechal” e logo toda a plateia começou a ajudá-lo. Aquele rasgo entre suas costelas seria um problema para mim, pois eu sabia que teria que cuidar daquilo e sabia que aquilo retardaria em alguns dias nosso tratamento para “matar” o Xexal.


O orc levantou-se e ordenou-me com a costumeira nenhuma polidez dos orcs que o seguisse, então, fomos até onde estava o Marechal.


_ Pode cuidar disso Marko? _ Perguntou-me o orc referindo-se ao golpe que o Marechalcrecebera. Analisei com cuidado a ferida e percebi que era tão superficial que parecia que o próprio Marechal tinha se cortado só para parecer que tinha um motivo para estar morrendo. Olhei fundo nos seus olhos e um sorrisinho maroto brotava entre seus dentes. “ah, vagabundo!” pensei na hora e eu sabia que ele pensava o mesmo.


Os próximos dias foram dias de sofrimento e dor para o pobre marechal ou muito teatro mesmo, porque além de paralisia, o remédio era um forte analgésico, e por isso, eu sabia que todo o berreiro que o Marechal fazia era pura manha. 

Depois de alguns dias, meu amigo estava totalmente petrificado e meu plano seguia perfeito. Eu sabia que possivelmente o Marechal se sentiria muito quente sob o efeito desse remédio, mas era um efeito colateral que ele teria que aguentar para poder sair daquela vida. Quando percebi que o Marechal já não fazia mais encenação porque seus músculos não o obedeciam, dirigi-me para o orc e perguntei: _Vocês fazem algo com os corpos de seus escravos ou eu posso levá-lo par as minhas pesquisas como eu perguntei na arena?


Depois de pensar um pouco o orc disse que os corpos de seus escravos costumam valer alguma coisa e eu sabia que era verdade, então, ofereci algumas moedas pelo inerte, mas bem vivo, pois eu sabia Marechal.
Depois de pagar $300 pelo “ex-cravo”, saí pela porta com um Jean bem-instruído para não falar sobre a nossa amizade e levei o corpo bem-embalado até o Pub. Saímos da cidade na mesma noite em direção a Falkalen. De acordo com os livros, o corpo de uma pessoa aguenta até três dias sob o efeito do veneno de garnísia, então, o corpo começa a morrer de fato, uma viagem até Falkalen levaria menos de um dia, pois todos tinham montaria, então, tudo estava sob o mais perfeito controle.


Levamos somente um dia até Falkalen, onde pudemos usar os conhecimentos em magia da Ju, da Bella e de alguns dos médicos-magos de Falkalen para restabelecer o Marechal. Foram mais de dez dias trabalhando duro pro organismo do cara funcionar direito.


Parece até que já estava tudo programado porque no fim desses dez dias, William veio me dizer que o Professor Newton da Universidade do Éter da Múrcia enviou um pombo dizendo que havia recebido informações sobre a Nicole e o Faro e que ela estaria na terra dos Anões em Kalimenor e em ele arrumando confusões por Gimly.


_ Putz. De acordo com o mapa isso era do outro lado do mundo. Mas, porra, eu vim até aqui pelo Xexal, porque eu não iria até lá pela Nic e pelo Faro?