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Origem das Visitas

AROLDO FILHO

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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Considerações sobre o Laicismo

Antes de qualquer argumentação, uma pergunta se faz necessária: O Laicismo é necessário? A sociedade brasileira atual já não é laica? Já Não deixamos de queimar pessoas, obrigar cultos, não somos (Brasil) o mais religioso dos países; sincrético – “católico” – não somos uma democracia racial, um país de tolerância moral até mesmo questionada por sua flexibilidade? Enfim, existem motivações para um protesto? Ainda hoje, entre nós, modernos?

Parece que não podemos concordar com muitas das alegações aqui apresentadas, tão usuais. Ao mesmo tempo, é preciso compreender com mais cuidado os limites e os falsos limites aqui, entre uma real liberdade e um contexto de subjetivas limitações; quero dizer, até que ponto somos tolerantes, e até que ponto essas tolerâncias estão incompletas. Sem dúvida, a liberdade de culto é geralmente respeitada. Desconsiderando um caso ou outro de algum grupo protestante mais radical, ou seita afro-brasileira, cada religião parece se desenvolver ao seu modo de maneira razoável. Nem só de crenças é feita a questão religiosa, mas também de sua refutação, ou sua negação, o Ateísmo ou o Agnosticismo. Não se desenvolvem em templos, não oferecem esperanças futuras de redenção, não estabelecem códigos morais específicos, mas, e até mesmo como resposta às incoerências das religiões frente ao mundo atual, a refutação e a negação do religioso crescem e com vigor. Especialmente no ambiente “livre” da Internet, com grande concentração de jovens com larga fonte de conhecimento e infinitos espaços de debate. O Ateísmo e o Agnosticismo são realidades em formação nacional, e em outros países de maior tradição liberal representam grandes partes de suas sociedades, e ainda com embates sobre os novos problemas do Laicismo hoje. O que eu quero dizer é que, embora todos os horrores combatidos pelo Iluminismo tenham deixado de existir na sociedade ocidental atual – no mínimo, oficialmente – existem outros parâmetros em nosso tempo sobre o tema do Laicismo ainda conflitantes: a disparidade entre a tradição religiosa que influencia a política e as políticas desenvolvimentista de pesquisa genética e ensino formal, também a crescente negação religiosa como impacto e ruptura com sua manifestação enquanto ideografia (o epistemológico e estético da visão transcendental).

Para a primeira questão, uma resposta categórica: NÂO. NÂO é possível admitir interferência religiosa em casos de pesquisas científicas e na atividade pedagógica. Embora a religião católica em especial apresente um logo histórico de cooperação com os governos brasileiros – e o episódio da Teologia da Libertação é uma exceção e não a regra para a antiga e reacionária instituição – nenhuma religião tem hoje por Direito preponderância nos assuntos da Coisa Pública Brasileira. Legitimamos um Estado laico, confinamos ao plano do individual o direito de culto, para preservar a coletividade de qualquer tirania ideológica. Uma realidade que pouco sai do papel em muitas circunstâncias. Como no caso dos homoafetivos, no qual direitos individuais de casamento civil são bloqueados por setores sociais fundamentalistas, ou no caso do neoateísmo, marginalizado nos meios midiáticos convencionais. Mas, diriam alguns, enquanto associação ou mesmo no mero plano do indivíduo não é possível desejar e negar certas atitudes, refutar certas maneiras de pensar? Sim, mas um “sim” que precisa ser especificado.

Eu sou ateu, mas se eu fosse um cristão fundamentalista, teria direito protegido pela coerência e pela Lei de não concordar com a divindade de Buda, as profecias maometanas e não aprovar o casamento gay. Definitivamente, nenhuma igreja cristã é obrigada a celebrar uma forma de união condenada por seu livro sagrado (e no entanto curiosamente muitos casos de homoafetividade são verificados entre seus representantes considerados mais castos), mas o fato do Cristianismo ser a religião mais popular, ou ser representado e apoiar determinados veículos de comunicação e mesmo políticos, não justifica atacar os direitos civis de uma pessoa por não comungar de suas crenças. No rigor da lei, ser uma ideologia grande ou pequena não se altera em relevância; são todas iguais, ou seja, nenhuma vale como regra ou se impõe. O casamento civil homoafetivo nada tem com o Cristianismo, e se o problema existe, e se deputados se sentem pressionados por seus representantes que desejam impor suas crenças, então o nosso Laicismo não está correto ou completo. O Cristianismo não vale na minha casa, na minha moral, ou na rua: ele vale nas igrejas cristãs, na ética de seus seguidores, e nas muitas versões infalíveis e contraditórias da Bíblia.

Sim, o Laicismo é necessário. O debate, atualíssimo. Não como antes, mas sim como agora. Temos todos muito o que debater.

A Segunda Questão é mais fácil, e ao mesmo tempo mais complexa. Como deve ser o diálogo entre a religião e a negação da religião? Como na primeira questão, minha aversão não pode ultrapassar meus limites individuais ou coletivos. Posso não concordar com a veracidade do Criacionismo, mas não posso pretender aboli-lo, no mínimo, como visão alternativa da biologia oficial. O crescimento da negação religiosa reflete a ruptura com antigos modelos e visões de mundo, é uma corrente de pensamento que não encontra apoio em sólidas instituições, e assim não é defendida de maneira sólida por grupos políticos ou de mídia fora do longo e embaraçado espaço virtual. Porém cresce, e se afirma. De uma maneira geral as religiões condenam de maneira contundente a ausência de seu elemento primário: fé. Sem o desejo de aceitar, grande parte da estrutura ideológica da religião perde seu sentido dentre seus elementos ilógicos. Um religioso pode muito bem acreditar que um ateu merece arder eternamente no Inferno, embora seja uma visão sádica, não sou eu quem impedirá qualquer um de pensar o que quiser. Em resposta, é parte do dever cívico dos religiosos a aceitação de elementos civis que abram mão de suas prerrogativas. Não é uma conveniência muito aceita. Muitos religiosos continuam propagando a rivalidade e o proselitismo contra o que consideram uma afronta aos seus modos de pensar; frequentemente, colocam a culpa na falta de fé pelo esvaziamento de suas mensagens. O Ateísmo e o Agnosticismo são posturas reais, e que estão aí, e que merecem o mesmo respeito que necessitam prestar aos cultos religiosos todos (nem sempre prestados, aliás, e não se pode negar).