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Origem das Visitas

AROLDO FILHO

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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Voyeur ocidental: Todos os muitos Apocalipses


É por Voltaire, em primeiro lugar, que encontramos uma análise mais direta das origens da religião cristã. Sem os parênteses típicos dos escolásticos e pensadores mais modestos. Considerado em paralelo Barão D'Holbach e seu "Cristianismo Revelado" - embora a obra seja menos historicista e mais sociológica.

O conceito de Apocalipse do Cristianismo, como todo o mais, é resultado último de uma miscelânea de tendências puritanas tanto do Judaísmo em crise quanto do Helenismo tardio. É defendido pela primeira vez com a eloquência usual por Justino, o mártir, nascido em Flávia Neápolis, principado romano em região síria. Como então vindouro reino dos mil anos, em Jerusalém. Em seu "Comentários sobre Isaías", alegando evidências em João, o evangelista. Defende a volta dos judeus à terra da promissão após o fim da última Tefutzah (diáspora de 70. d.C.), a comunhão com os convertidos, e a soberania do Cristo sobre a Terra (Parusia). A ideia de "et mille per annos" (mil anos), era na numerologia misticista antiga do velho mundo um símbolo de mudança e renovação.

O desenvolvimento do messianismo no seio das seitas entusiastas que criariam a Cristandade está diretamente ligado aos conflitos das forças imperiais contra os rebeldes palestinos. A Palestina ao longo da Era atual mostrou resistência à dominação de Roma em todos os aspectos. Partindo do campo religioso, grupos fanáticos, e atingindo por fim magistrados e forças militares. Enquanto as raízes da nova fé cresciam na palestina e fora dela, em obscuridades conjecturais, a tensão entre o imperialismo romano e a sua decadência, e a província da região palestina marcada por um "ostracismo" intelectual, atingiram picos sérios e que resultaram na parcial destruição da nação judaica.

Ao que parece, e sabemos por Tácito, foi através de Nero que os cristãos - grupo mais ou menos inteligível e prolífero entre classes inferiores de regiões colonizadas - acataram ares de criminalidade. Embora a atitude romana quanto ao religioso fosse tolerante, era considerado Superstitio Illicita (superstição/culto ilícito). Tão hermético quanto o Judaísmo, porém perigosamente proselitista, as "missões" dos apóstolos eram vistas como possíveis complôs e insubordinações. Nero, em ocasião de seu desastroso governo, utilizou a já existente animosidade contra os cristãos para tentar inutilmente se fortalecer enquanto imperador - o famoso incêndio de Roma (64 d.C.). Daí em diante, a perseguição aos nazarenos foi oficializada (por extensão reptiliana os politicamente revoltados na Palestina).

Embora inocentados do incêndio e de desejos revolucionários por Tácito e também Plínio, intelectualmente os cristãos ainda permaneceriam em condição de desprezo durante a rápida cristianização das classes romanas começando por baixo. Visto como Exitiabilis Superstitio (culto funesto), tanto por seu caráter puritana quanto por seu louvor a vidas e mundos futuros e distantes. "Religião contrária à Natureza", segundo pensavam os patrícios estóicos e republicanos epicuristas. A Metafísica - exegese platônica - não existia como lucidez na mente helena.

O Apocalipse era então - mais ou menos como hoje - um misto de esperança e desespero religioso amalgamado em revolução política. A grande vingança contra Roma, os imperialistas, a força dos homens. Uma grande vingança contra a Natureza, por assim dizer. Tertuliano, considerado herege por fim, Santo Irineu, definidor das "boas referências" sobre Jesus, e Orígenes, o mesmo que castrou a si mesmo, consideravam o Apocalipse muito real, e totalmente físico. Eusébio entre outros e o Concílio de Laodiceia (363-364 d.C.) desconsideraram o Apocalipse. Todos inspirados por Deus e igualmente certos.

No ano 1.000 d.C. o velho mundo estava banhado em guerras e precariedade social, intelectual e econômica.

Com o desenvolvimento das Escolas o Apocalipse (um tanto atrasado) tomou aspectos mais... Santos, metafísicos e subjetivos.

Para todos S. João ainda padejava na sepultura, fazendo a terra levantar e baixar continuamente. Entanto esses mesmos senhores certos de que S. João não estava de todo morto, também estavam certos de que ele não escrevera o Apocalipse. Os advogados do reinado de mil anos, não obstante, mantiveram-se irremovíveis em sua opinião. Sulpício Severo (História Sagrada, livro 9) chama insensatos e ímpios aos que não acatavam o Apocalipse. Afinal, depois de muita dúvida, muita oposição de concílio a concílio prevaleceu o parecer de Sulpício Severo. Deslindado o mistério, decidiu a igreja ser o Apocalipse incontestavelmente de S. João. Não há, pois, apelar. Atribuíram as comunhões religiosas cada qual a si as profecias desse livro. Nele viram os ingleses as revoluções da Grã Bretanha. Os luteranos, as convulsões da Alemanha. Os reformados da França, o reinado de Carlos IX e a regência de Catarina de Médicis. Todos tiveram igualmente razão"

Voltaire