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sexta-feira, 31 de julho de 2026

A PSICANÁLISE NA MATURIDADE II-Carlos Gildemar Pontes

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A PSICANÁLISE NA MATURIDADE II-Carlos Gildemar Pontes (Professor UFCG, Escritor)


Um dos meus dilemas na véspera de fazer vestibular era para qual curso eu vou me dedicar para me tornar um profissional exitoso. E a palavra “exitoso” aqui pode ter um sentido bem simples, em se tratando da minha condição à época. Éramos pobres, periféricos e sob pressão de um sistema coercitivo e desigual.


Então me dediquei a uma das minhas paixões, as Letras, porque antes de entrar na universidade, eu escrevia poemas e redações que sempre eram lidas em sala, nas aulas de língua portuguesa. Passei para o mundo da literatura e descortinei o passado, a história viva de uma humanidade que sempre aspira algo de bom, mas sempre está na mira do caos. Nem falo aqui do aspecto religioso para não provocar a fuga do leitor não afeito às Ciências e à Filosofia. Está difícil conversar com quem não consegue ler além das mensagens de WhatsApp e em grupos circunscritos a um espaço reduzido das nossas vivências.


Falarei sobre escolhas e decisões. Temas que estão na pauta dos gestores de RH, dos psicanalistas, dos líderes políticos e até dos religiosos, estes, mais afastados dos reais problemas do ser humano, porque enxergam tudo como vontade divina, como se um Deus justificasse as atrocidades cometidas pelos homens como carma, livre arbítrio ou genética espiritual.


A escolha que fiz para ser professor me indicava um caminho de descobertas do conhecimento e da arte de educar como ato propositivo para livrar o mundo da ignorância, principal mal que acomete os humanos. E prossegui me municiando de livros e tentando montar uma biblioteca que me abrisse o mundo todos os dias. E para isso eu teria que possuir muitos livros, de muitas áreas e que me aquietasse a alma quando lá estivesse. Sonhava com um lugar onde tivesse um cômodo só para livros. E eu pudesse ali colocar uma prateleira, talvez duas ou três, só com livros meus, coletâneas das quais participaria e teria orgulho em levar as pessoas para conhecerem minha biblioteca. Essa foi uma escolha decorrente da primeira escolha, de cursar Letras.


Na medida em que eu comprava livros e/ou os ganhava de presente, fui impelido a trabalhar para sustentar minha escolha. Aportei salas de aula do ensino fundamental e médio e me deparei com outra realidade, a escolha das pessoas/ alunos. Quais seriam seus sonhos, suas escolhas, suas decisões para alcançarem os seus objetivos? Foi nesse momento que descobri que minha escolha era servir e construir junto com outras pessoas os sonhos que manteriam a humanidade viável, num planeta extremamente rico de potencialidades para satisfazerem a todos.


O professor agora era um idealista não mais dos seus sonhos, mas dos sonhos de toda a humanidade, representada ali por um punhado de jovens que não sabiam os porquês da maioria das coisas que existiam. E seriam esses jovens os homens e mulheres do futuro, que haveriam de herdar o mundo e construí-lo de acordo com o que aprenderam. E quem seriam os governantes deste mundo do futuro? Aí reside todo o X das questões das escolhas e decisões.


Na verdade, o sistema político brasileiro sempre atuou de forma excludente e violenta. Formou-se no Brasil colônia e manteve uma estrutura de genocídio e escravidão durante quase quatro séculos. Essas elites que governaram nunca souberam o que era a necessidade de se alimentar, ter uma casa e um sustento para a família. Jamais saberiam o que seriam escolhas e decisões. Eles foram escolhidos pelo poder para continuarem no poder. E decidiriam sempre por si mesmos.


A ilusão de que a meritocracia poderia levar um jovem de periferia sem acesso à saúde, à uma educação de qualidade e ao lazer, que seu esforço pelo trabalho o levaria a vencer na vida. Vencer seria quase sinônimo de ser escravo numa estrutura de trabalho humilhante e impeditiva de realizações. Como estudaria, como descansaria para que o ócio do descanso lhe fizesse sonhar além daquelas poucas horas antes da rotina recomeçar? A resposta é nunca.


Esqueçamos os sonhos e as escolhas. Esqueçamos que só o trabalho pode nos enriquecer. Esqueçamos que a classe política, em sua maioria, sabota nossas escolhas porque ela já foi escolhida para viver dignamente.


E agora, o que fazer? Parece que estamos num beco sem saída. O jovem professor, agora com mestrado doutorado e pós-doutorado vê a juventude deste tempo abduzida pelas redes sociais e refém de um aparelho celular que indica a escolha, a decisão e o caminho a seguir. Para essa juventude, a leitura, o conhecimento e a luta por um mundo melhor estão nas mãos de um Deus que foi sequestrado por picaretas da fé e se aliaram aos políticos da pior espécie para dividirem o lucro extraído da miséria alheia.


Uma mente refém desta estrutura não precisa de muita coisa. Não se reconhecerá em quem ainda sonha. Viverá apenas o presente e o hedonismo de uma vida frívola e mesquinha. E as exceções? As exceções são o respiro da nossa alma. Aquela puxada de ar que nos impele para o horizonte nesta caminhada incessante pelo bem, pelo amor e pela fraternidade.

Não me arrependo das minhas escolhas e decisões. Só insisto em ser tão idealista quanto aquele jovem mestre que tremeu as pernas na primeira aula e depois entendeu o sentido dos sonhos, das escolhas e decisões.

https://noticiaspb.com.br/a-psicanalise-na-maturidade-ii/