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terça-feira, 13 de março de 2012

COLONOS DE RONDÔNIA


(Foto tirada na década de 70 em Rolim de Moura., Rondônia.)
Colonos de Rondônia

Colonização da Amazônia
Uma nova marcha para o oeste.
Malária
Uma nova peste.
Novo El dourado?
Tão utópico quanto o outro.
Madeira, o ouro.
Os documentos chegaram!
O INCRA já decidiu
42 alqueires
Cacáio nas costas do púbere, aliviada está a do senil.
Filho no chão, no colo e na barriga
Casa de lona e ripa
Um rádio à pilha.
Um arrepio, roncos de onças errantes
E de para lá dos atoleiros
Veio o Pau-de-arara
Das margens do Brasil chegara
Trazendo os imigrantes.
Colonos de Rondônia
Heróis sem medalha
Homens sem cerimônia
Sorriso e cicatriz na cara
De suas faces não têm vergonha.

Thiago Rodrigues da Rocha
04/03/2012

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ZEZÃO, O TERRÁQUEO BUNDÃO

ZEZÃO, O TERRÁQUEO BUNDÃO

Aos meus amigos Deivide Moreira e Mariana Laurindo.
Zézão era um sujeito simples, tinha 50 anos e vivia na linha 164/sul, zona rural de Rolim de Moura. Ele tinha uma vida simples, sozinho numa simples casinha, na fundiária de um sítio simples, conversava sobre coisas simples com outras pessoas simples.
Numa bela noite estrelada, Zezão urinava no tronco de um pé de jabuticaba. Pensando em coisas simples. De repente escuta um barulho estranhíssimo! O susto é tão grande que interrompe a micção. “Uai? Que desgraça é essa?” perguntou a si mesmo. No instante seguinte uma luz muito forte cai sobre ele. Zézão fica com tanto medo que se ajoelha pensando estar presenciando o juízo final.
Ele começou a sentir seu corpo mais leve, até que começou a flutuar, estava sendo sugado pela luz, que de tão intensa deixou-lhe cego por alguns instantes, e quando voltou a enxergar estava deitado numa espécie de leito dentro de um disco voador.
Zézão estava imóvel, conseguia apenas respirar e sentia um leve formigamento no alto de seu crânio. Depois de alguns minutos ele já era capaz de mover os dedos e gradativamente foi recuperando os movimentos de todo o corpo.
Onde é que eu estou?
            Perguntou. Nesse momento teve a impressão de que havia pronunciado aquela frase em uma língua totalmente desconhecida. No instante seguinte ouviu a resposta:
“está na espaço-nave 000 001 010 100 - 110 101 110 111”.
Ele teve a impressão de que aquilo que ouviu estava em outra língua, mas entendeu perfeitamente o que foi dito. Tudo isso o deixou extremamente confuso.
“Você deve estar confuso por estar se comunicando em um dialeto desconhecido, não se preocupe, logo esta sensação de estranheza irá passar.”
Disse um ser de dois metros de altura, quatro pernas (como um centauro), dois braços e uma cabeça chata com dois olhos enormes, pretos, que não piscavam.
“Nós implantamos em seu cérebro células artificiais que possuem codificações mnemônicas da língua de meu planeta, o que te torna capaz de codificar e decodificar informações da língua zaratustriana, ou seja, transmitir e interpretar ideias na minha língua.”
Disse outro ser que estava atrás de Zézão, que então pergunta:
Por que vocês me pegaram?
“Somos pesquisadores do planeta Zaratustra, e nossa pesquisa é sobre como um terráqueo reagiria ao visitar nosso planeta, levaremos você pra lá.”
Mas nem com reza brava, eu quero descer desse negócio agora!
Disse Zézão se levantando do leito.
“Nós já estamos no espaço sideral, não há como você descer.”
Disse um daqueles seres. No total haviam cinco extraterrestres dentro da nave. De repente um dos seres faz um sinal com a cabeça indicando um painel colorido na parede da nave, outro ser vai até lá e toca algumas vezes o painel, com isso é acionado um mecanismo que distorceu o espaço-tempo de tal maneira na frente da nave que criou um buraco-de-minhoca (um buraco no espaço-tempo que liga dois pontos do universo que estariam em altíssima concentração gravitacional).
“Nós vamos utilizar este buraco no espaço-tempo como um atalho para chegar mais rápido ao nosso planeta, pois se fossemos pela via convencional levaríamos mais ou menos cinquenta e cinco milhões de anos terrestres para chegarmos, mesmo viajando na velocidade da luz.”
Zézão não entendeu bulufas do que o ET quis dizer.
“Por essa fissura no espaço-tempo, levaremos somente oito anos para chegar.”
Disse o ET que operava o painel.
“Durante esse tempo, iremos induzir um sono em você, para evitar possíveis transtornos psicológicos oriundos do isolamento e da distancia de casa.”
Disse o ET que lhe fez a operação de inserção mnemônica de linguagem por células artificiais.
“Antes de induzirmos o sono, precisamos te perguntar algo.”
Disse o ET que demonstrava ser o comandante, Zézão acuado, apenas esperou que o ET fizesse a pergunta.
“Você é Albert Einstein?”
Perguntou o ET.
Não, meu nome é José da Silva.
Respondeu Zézão.
“Como assim não é? Nós viajamos por centenas de milhares de anos-luz para buscar o famoso terráqueo Albert Einstein!”
– Então vocês se enganaram de pessoa.
Disse Zézão. Enquanto isso um ET consulta uma tela holográfica e diz:
– “Comandante, acho que nós não deveríamos ter feito aquela escala no planeta Atriuss, isso nos fez atrasar 80 anos da nossa viajem, Albert Einstein já deve ter morrido, os humanos não vivem muito, não adianta voltarmos à Terra para buscá-lo. Além do mais, provavelmente ocorreu um pequeno erro no nosso sistema de leitura das coordenadas da Terra, pois a Princeton não fica em Rondônia.”
– “O que?! E como fica a nossa pesquisa!? Como fica minha tese de doutorado?!”
– “Teremos que realizá-la com este terráqueo aí, não há outro jeito.”
            Com isso a nave entra no buraco no espaço-tempo, os ET’s induzem um sono em Zézão e aproveitam para fazer alguns estudos anatômicos, o que nunca se atreveriam a fazer caso tivessem capturado Einstein.
            E assim, ao cabo de oito anos, a viajem por dentro da fissura no espaço-tempo termina. E a nave 000 001 010 100 - 110 101 110 111 surge na orbita do planeta Zaratustra. Os ET’s acordam Zézão com uma descarga de ondas eletromagnéticas de frequência alternada, Zézão desperta bem tonto, pois nunca havia dormido tanto.
– “Senhor José da Silva, agora o senhor será nosso objeto de estudo, nós iremos apresentar nossa civilização ao senhor e assim anotaremos as impressões que tiver, a partir dos resultados que coletarmos do senhor iremos confirmar ou descartar nossas hipóteses a respeito de como um homo sapiens sapiens reagiria ao ver nosso mundo.”
            Zézão, sem muito direto de escolha, fica quieto. Um dos ET’s vai até o painel colorido e configura algumas funções da nave.
– “Estamos prontos para aterrissar.”
            Com isso a nave entra na atmosfera do planeta Zaratustra. Este planeta é verde visto do espaço, um pouco menor que a terra e a temperatura máxima não ultrapassava os 35°C. A atmosfera é rica em Hidrogênio, Hélio, Oxigênio e outros gazes, alguns não encontrados na Terra. A água é escassa, sendo que é desértica a maior parte deste planeta.
            Os Zaratustrianos, assim como toda forma de vida existente no universo, evoluíram se adequando às exigências do meio. Viviam em uma civilização muito organizada, com tecnologia inimaginavelmente mais complexa que a dos humanos.
– “Senhor José da Silva, este é nosso planeta.”
            Zézão ficou boquiaberto ao ver uma cidade com prédios redondos de mais de um quilometro de altura, a população se locomovia pelas vias em pranchas flutuantes, não haviam semáforos, um numero descomunal de indivíduos circulavam numa harmonia jamais vista na Terra. Zézão estava espantadíssimo, e os pesquisadores zaratustrianos anotavam todas as suas reações. Ele gostou especialmente do fato de a gravidade daquele planeta ser um pouco menor que a da Terra, o que aliviava sua dor nas costas, e além dos mais a temperatura era muito agradável.
– “O que está achando, Senhor José da Silva?”
– É doido... Que lugar é esse?...
            Depois de um tempo mostrando a cidade, os ET’s resolveram levar Zézão para almoçar.
– “Senhor José da Silva, coma isso.”
– Que diabo é isso?
            Os ET´s estavam lhe dando uma espécie de pílula fosforescente.
– “Coma isso, é luz materializada.”
            Zézão, movido pela fome, fez um grande esforço para vencer sua neofobia alimentar. Comeu a pílula e se saciou no mesmo instante, foi uma experiência arrebatadora para Zézão.
– “A luz é uma das mais poderosas e limpas energias no cosmo.”
– Vocês não vão comer?
– “Nossa espécie não come a dezesseis milhões de anos, pois por seleção natural adquirimos a habilidade de absorver a luz pela pele e sintetizá-la em nutrientes, vocês humanos chamam isso de fotossíntese. Criamos esta pílula especialmente para o senhor. Recentemente descobrimos como converter ondas luminosas em matéria.”
            Zézão não entendeu muito bem o que o ET disse.
– E água, tem a água por aí?
– “A água é muito rara em nosso planeta, mas nós sabemos que vocês humanos não sobrevivem sem ela, pegamos um pouco para você.”
            Com isso o ET entrega um recipiente com água para Zézão.
– Vocês não bebem água?
– “Não, sobrevivemos apenas com a síntese cutânea de luz.”
            Zézão deu uma olhada mais cuidadosa no chão e levou um susto com os pedregulhos que viu.
– Que pedras são essas?
– “Ah, isso é o que vocês chamam de ouro.”
– Que!?
            Zézão viu que aquelas pedras estavam em todo lugar.
– E por que ninguém pega?
– “A sua raça é engraçada, vocês valoram um simples metal... digamos que minha espécie não possui a necessidade de projetar sua essência subjetiva em pedras, como vocês fazem.”
            Enquanto isso os ET’s iam anotando todas as reações de Zézão, que se mostrava cada vez mais espantado com o que via e ouvia, e estava cada vez mais curioso.
– Quem é o prefeito daqui?
– “Não existem prefeitos, presidentes, reis ou coisas do tipo, assim como não existem países aqui, vivemos em uma sociedade planetária, que não possui governantes, simplesmente seguimos regras que surgem espontaneamente das nossas necessidades comuns. Nossa sociedade é uma só, é includente. Vocês possuem sociedades clivadas por linhas imaginárias e guerreiam impulsionados pelo sentimento etnocêntrico de patriotismo. Aqui não existe patriotismo, não somos alienados o bastante para amarmos linhas imaginárias nem símbolos de sistemas políticos tais como bandeiras e hinos, muito menos tiramos a vida de indivíduos de nossa própria espécie por causa de tais banalidades.”
– E o que fazem com quem desobedece essas regras?
– “Não há quem desobedeça, pois tais regras não são impostas, como eu disse, surgem de nossas necessidades, aqui não existem prisões nem castigos. Não existem punições, pois não há essa necessidade.”
– Existem ricos e pobres aqui?
– “Não existem classes sociais em nossa sociedade planetária, esse é o motivo da inexistência do Estado. Aqui também não existem autoridades, ninguém é visto ou pensa possuir uma pseudo-superioridade social tal como ocorre nas sociedades de seu planeta.” 
– E igrejas? Vocês têm alguma religião?
– “Não, nossa espécie deixou de precisar dessa muleta psíquica a muitos milhões de anos atrás, de lá para cá procuramos evitar entender o universo da forma como gostaríamos que ele fosse, e passamos a entendê-lo da forma como se apresenta, a nossa ciência é essencialmente... ‘Fenomenológica’, como alguns dos pensadores humanos diriam, esse talvez seja o motivo do nosso extraordinário avanço científico e técnico, aqui não existem dogmas irracionais para estorvar o conhecimento válido. Vocês dogmatizam até mesmo seus cientistas, por isso estão em um estagio tão primitivo de avanço tecnológico.”
– Vocês têm escolas aqui?
– “Não usamos mais esses sistemas de ensino, pois não constroem livres-pensadores, mas sim repetidores de ideias. Atualmente implantamos no cérebro de nossas crianças células artificiais com codificações de todo o conhecimento que acumulamos. Isso garante que todos de nossa espécie sejam eruditos do mesmo nível, e ainda com criatividade suficiente para produzir novos conhecimentos, já que não foram adestrados em uma sala de aula. Já a “didática” de vocês transmite o conhecimentos de forma mecânica, transforma o sujeito em uma esponja que precisa absorver ideias, corroendo assim sua criatividade.”
– Existe casamento aqui?
– “Não, nossa espécie é constituída apenas por sujeitos hermafroditas, nos reproduzimos assim: quando estamos prestes a morrer um novo zaratustriano começa a se desenvolver dentro de um útero que temos nas costas, e quando morremos o pequeno zaratustriano se alimenta absorvendo o corpo em decomposição de seu ‘pai’. Logo depois ele ‘nasce’ e passa a se alimentar por síntese cutânea de luz.”
– No meu país nós temos heróis, como um tal de Tira Dentes, o Ronaldinho Gaúcho... vocês têm heróis aqui?
–“Não, nunca houve a necessidade de um. Nunca tivemos um revolucionário, já que nunca tivemos opressores.”
– Vocês trabalham?
– “Não, já que nos alimentamos de luz, não há a necessidade de trabalhar para comprar algo que é de todos. Os zaratustrianos dedicam todo o seu tempo em pesquisas científicas, para assim aumentar o bem-estar de nossa espécie.”
– Quanto tempo vocês vivem?
– “Vivemos em média 1500 anos terrestres, a população não cresce nem diminui por que só nasce um zaratustriano quando morre outro, como já expliquei.”
            Todas essas informações eram arrebatadoras para Zézão, ele sempre vivera uma vida simples, pensando coisas simples, sempre acomodado às condições estabelecidas pelos líderes de sua sociedade. Naquele momento ele desejou que toda a humanidade tomasse conhecimento da existência do planeta Zaratustra e, quem sabe, seguir seu exemplo.
– Ninguém no meu mundo imagina que existe este lugar!
– “Na verdade, existem milhares de civilizações como a nossa espalhadas pela imensidão do universo, em outras galáxias, em dimensões alternativas desse mesmo universo e etc., mantemos contato com muitas delas, trocamos conhecimentos. Mas temos muito receio em estabelecer contato com a sua espécie, vocês são muito imaturos. Além do mais, vocês não tem nada a nos ensinar e é impossível que aprendam algo de nós.”
            Zézão fica quieto, apenas ouvindo o ET, que continua o que estava dizendo.
– “Uma civilização de uma galáxia vizinha investigou vocês, mas desistiram de estabelecer contato, eles disseram que vocês são uma civilização horrível que em breve irá se autodestruir. Eles disseram que a humanidade possui recursos naturais fantásticos, que vocês vivem em um paraíso cósmico, porem estão acabando com as condições naturais necessárias à própria sobrevivência. Realmente, em nenhum ponto do universo se encontra uma civilização como a de vocês. Vocês estão na contramão.”
            Zézão sentiu vergonha da própria espécie, ele nunca havia experimentado tal sentimento. O ET observou uma tela holográfica e disse:
– “Bom, senhor José da Silva, nossa pesquisa terminou, depois meus ajudantes e eu iremos analisar os dados que coletamos do senhor, agora iremos levá-lo de volta, usaremos um descodificador mnemônico para apagar todas as lembranças que o senhor tem de nós e do nosso planeta. O senhor já deve estar com saudades de casa. Está pronto para retornar?”
            Esta pergunta caiu como uma bomba em Zézão. Pensou em tudo que viu, fez as devidas comparações, lembrou-se do fato de que estava desaparecido a oito anos para seus amigos da linha 164/sul e que levaria mais oito anos para retornar pelo buraco-de-minhoca. Além do mais, não queria esquecer do planeta Zaratustra. Sua resposta também caiu como uma bomba sobre os ET’s:
– Não, eu não quero voltar, vou ficar por aqui mesmo.

Os personagens e as situações desta crônica são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opinião.

FIM.

Thiago Rodrigues da Rocha

terça-feira, 1 de março de 2011

EGO E A RELIGIOSIDADE (artigo científico)

https://jornaldelfos.blogspot.com.br/2011/03/ego-e-religiosidade.html
O Ego e a Religiosidade

Por: Thiago Rodrigues da Rocha


Resumo: O presente trabalho foi desenvolvido sobre o pretexto de usar da ótica psicanalítica para estudar a manifestação do comportamento humano da qual denomina-se “Religiosidade”. Tendo como proposta a afirmação de que a Religiosidade é resultado da ação dos mecanismos de defesa do Ego. Propõe também que os mecanismos de defesa e as nossas limitações sensoriais nos impedem de entender a realidade tal como ela é. Como ferramentas de coletas de dados utilizou-se a pesquisa bibliográfica e as observações participante e não participante.


Palavras-chaves: Ego. Religiosidade. Psicanálise. Comportamento. Realidade.

Introdução

Alguém que ouve a palavra religiosidade automaticamente evoca em sua mente ideias relacionadas à religião, ao transcendente, à esperança, à crença num ser divino. Esta palavra é também frequentemente relacionada com as chamadas “virtudes humanas”, tais como o altruísmo, a humildade, e até com conceitos mais amplos como sabedoria e felicidade. A religiosidade sempre foi colocada numa posição privilegiada, onde possui o status de determinante do “comportamento ideal”. 

Aprende-se a vê-la como algo que a principio está fora das pessoas, e que deve ser gradativamente adquirida e ampliada, pois se costuma relacionar a religiosidade com a quantidade de comportamentos desejáveis. Há pessoas que dizem orgulhosamente “eu sou religioso”, expressão que pode ser entendida como “eu sou integro, honesto e bom caráter”. A religiosidade é vista como referencial de comportamento, e as pessoas exigem para si os atributos que estão associados a ela.

A proposta do presente artigo é abordar o fenômeno religioso psicanaliticamente, expondo a religiosidade como sendo a consequência da ação de forças defensivas do Ego humano. No intimo do homem, a religiosidade pode não estar relacionada com virtudes, mas sim com tendências egoístas. Para demonstrar com clareza as afirmações que aqui serão expressas, é preciso explanar simples e brevemente a parte da história e da teoria da Psicanálise que se utilizou para formular o tema deste trabalho.

O aparelho psíquico

Ao escrever o livro “A interpretação dos Sonhos” em 1900, Sigmund Freud estabelece uma primeira concepção da estrutura do aparelho psíquico. Dividindo-o em três instancias ou “lugares psíquicos”, sendo eles o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Cada uma destas instancias diferem em suas funções, porem não podem de maneira alguma serem consideradas independentes uma das outras.

No inconsciente, a maior parte de nossa mente, estão os conteúdos psíquicos que não estão no “território” do consciente, geralmente são conteúdos reprimidos que são impedidos de “saltar” na consciência pela ação das censuras do pré-consciente, o inconsciente não é apenas um depósito onde “se vomita o lixo da mente”, ali estão também conteúdos essencialmente inconscientes, que nunca estiveram na consciência. O pré-consciente é a instancia que se localiza entre o consciente e o inconsciente, ali estão informações que em dado momento podem estar na consciência e em outro não, exemplo disso é o fato de que em uma conversa com um amigo, o contexto do diálogo trará lembranças e pensamentos que não estavam na consciência até aquele momento. Estavam obviamente no pré-consciente. 

Já a consciência, a menor parte do psiquismo, é a parte da mente que está sensível tanto ao mundo externo quanto ao mundo interno do homem, ali estão presentes as percepções, o raciocínio, a atenção e outras potencialidades. Nela está presente apenas aquilo de que se esta ciente no momento atual. 

Em 1923 Freud remodela o conceito acima descrito, incluindo agora estruturas como Id, Ego e Superego. No Id estão nossas pulsões mais primitivas, destacando-se as de caráter sexual, como um bom fisiologista, Freud descreve o Id como sendo de origem orgânica, sendo que ali opera o princípio do prazer e é o reservatório da energia psíquica.

O Superego Origina-se com o fim do Complexo de Édipo, quando é preciso internalizar os padrões sociais e culturais, as proibições e a moral. Ele atua sempre reprimindo as pulsões do Id. Já o Ego atua de maneira a atender aos desejos do Id sem deixar de atender às proibições do Superego, sempre agindo conforme o princípio da realidade. Sendo o Ego o componente psicológico da personalidade, ele busca estabelecer uma conformidade e equilíbrio entre o componente biológico (Id) e o componente social (Superego). Para o Ego é mais conveniente evitar o desprazer do que buscar o prazer. Suas funções básicas são sentimentos, pensamentos e memória.

Os mecanismos de defesa do Ego


Em dados momentos da vida psíquica de uma pessoa, ela passará por situações ou terá sentimentos internos que serão dolorosos ou até perigosos à estrutura de seu Ego, assim para proteger-se o Ego adota medidas de defesa, que nada mais são do que forças que visão evitar seu sofrimento (evitando o desprazer). Defendendo-o de lembranças traumáticas, pulsões proibidas (socialmente inaceitáveis), e também de fatores externos, como ocorrem em fases iniciais do luto, com a negação do fato da perda. Muitos mecanismos de defesa agem distorcendo a realidade, evitando que o Ego se frustre ao chocar-se com alguns fatos. Nas palavras de Anna Freud:


A palavra “defesa”, que empreguei tão livremente nos três capítulos anteriores, é a mais antiga representante do ponto de vista dinâmico, na teoria psicanalítica. Surge pela primeira vez em 1894, no estudo de Freud As neuropsicoses de defesa, sendo empregada aí e em muitos de seus trabalhos subsequentes (A Etiologia da Histeria, Observações Adicionais sobre neuroses de Defesa), para descrever a luta do ego contra idéias ou afetos dolorosos ou insuportáveis (Anna Freud, 2006, p. 37).

Os mecanismos de defesa são muitos, e diferem quanto às suas funções e modo de defesa, tendo em comum a missão de proteger o Ego. Muitos deles foram cunhados por Anna Freud:


Note-se que Anna Freud não pretende colocar-se numa perspectiva exaustiva nem sistemática, especialmente na enumeração que faz, de passagem, dos mecanismos de defesa: recalque, regressão, formação reativa, isolamento, anulação retroativa, projeção, introjeção, retorno sobre a própria pessoa, inversão em seu contrario, sublimação (Anna Freud apud Laplanche & Pontalis, 1994, p. 278).
Aqui estão dois exemplos de como atuam os mecanismos de defesa: (1) a negação, onde o Ego nega e exclui do campo consciente um fator da realidade que está lhe agredindo, exemplo: quando alguém nega estar doente ao receber o diagnóstico de que está prestes a morrer (Laplanche & Pontalis, p. 293); (2) a compensação é o mecanismo pelo qual o indivíduo busca inconscientemente compensar uma deficiência que pode ser imaginária ou real, de maneira a se tornar superior de alguma forma. A compensação é uma forma do Ego se defender de seus conteúdos considerados inferiores.


Bom, mas onde a religiosidade aparece nesta história? Ela é realmente resultado dos mecanismos de defesa do Ego humano? Como o encanto e as virtudes associadas à religiosidade poderiam ser reduzidos ao medíocre resultado do trabalho de mecanismos que defendem o Ego humano de frustrações?

O Ego e a Religiosidade: causa e efeito

A religiosidade surge e se mantêm no individuo, a principio, por comodismo cultural, um simples comportamento aprendido. E depois como uma defesa contra fatos do mundo que são a antítese de suas ânsias egoístas, para isso usam mecanismos que atuariam no sentido de combater a angústia sentida ao se confrontar, por exemplo, com o fato da inevitabilidade da morte:

O ser humano ainda ao se deparar com o fato inevitável da morte, imagina e deseja uma vida após essa morte, uma vida eterna, num lindo paraíso, ao imaginar isso o ser humano ameniza o sentimento de angústia que surge de seu choque com a realidade (ROCHA, 2010, p.110).

Esta “angústia da morte” surge das noções de “minha morte” e “morte do outro”. A forma com que o homem vê a morte faz com que ele se coloque na tentativa desesperada de derrotá-la, desta forma colocando em cena uma gama de mecanismos defensivos, que geram fantasias inconscientes sobre a morte, onde se nega a aniquilação da existência pela fantasia de uma vida após a morte.

· Racionalização, Negação e Fantasia 

A noção de vida post-mortem seria uma “Negação pela fantasia”. Sendo que esta fantasia seria nada mais do que o resultado de uma racionalização, ou seja, o Ego estaria construindo explicações aceitáveis para comportamentos ou desejos cuja origem lhe é desconhecida ou inconfessável:

Processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma ideia, um sentimento, etc., cujos motivos verdadeiros não percebe; fala-se mais especialmente da racionalização de um sintoma, de uma compulsão defensiva, de uma formação reativa. A racionalização intervém no delírio, resultando numa sistematização mais ou menos acentuada (Laplanche & Pontalis, 1994, p. 423).

Sobre tal fantasia, pode-se dizer que ela expressa a realização de um desejo (o desejo de não morrer), seria uma “satisfação pelo ilusório”:

Roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em ultima análise, de um desejo inconsciente.


A fantasia apresenta-se sob diversas modalidades: fantasias conscientes ou sonhos diurnos; fantasias inconscientes como as que a análise revela, como estruturas subjacentes a um conteúdo manifesto; fantasias originárias (Laplanche & Pontalis, 1994, p. 169).


Para Freud ninguém crê na própria morte, inconscientemente o ego acredita que é imortal. Pode-se inferir que esta crença inconsciente do Ego intensifica o uso do mecanismo da negação, no sentido em que o Ego nega sua finitude. Juntamente a isso o Ego constrói a fantasia de um paraíso onde ele será eterno, onde não há frustrações, semelhante ao útero materno, racionalizando assim o desejo de se viver num mundo que é regido apenas pelo principio do prazer. Esta crença na vida eterna após a morte que se sofistica na religião é uma racionalização de desejos egoístas do homem, o desejo inconsciente de retornar ao útero da mãe, lugar que simbolicamente representa o paraíso ou o “céu”, onde não existe desprazer (Laplanche & Pontalis, p. 350).


Para o adulto o útero da mãe inconscientemente representa um mundo onde haveria um nível baixíssimo ou nulo de excitações, sem ameaças à estrutura do Ego. Conscientemente este útero é representado pelo “céu” onde tudo é maravilhoso, e o desejo inconsciente de retornar ao útero é racionalizado na consciência como o desejo de viver eternamente no “céu”. Isso impulsionaria a crença religiosa.



· Regressão

Outros mecanismos de defesa estão presentes no fenômeno psicológico da religiosidade. Observa-se a ação do mecanismo da regressão no seguinte exemplo:

A visão Freudiana sobre a religião é interessante. Freud vê que nela os homens são mantidos na imaturidade. As crianças, quando se sentem desamparadas e com medo, buscam nos pais abrigo e proteção, e os adultos buscam este abrigo e proteção num ser criado a partir das suas necessidades psíquicas. Para Freud, a religião mantém o homem na ingenuidade e no comodismo, portanto a hipótese de Deus daria ao homem a possibilidade de continuar sendo criança, não precisando tornar-se adulto (Freud apud Rocha, 2010, p. 110).


A regressão é o mecanismo de defesa que se caracteriza por retornar o comportamento do individuo a um nível anterior de seu desenvolvimento, fugindo do realismo e aliviando a ansiedade. Neste ponto vê-se que os adultos na intenção de se livrar do fardo de toda sua responsabilidade, se entregam a religião com a intenção inconsciente de retornar a um período de sua vida em que eram submissos e protegidos por uma inteligência maior (os pais), desta forma aliviando sua ansiedade. Este comportamento resultante do mecanismo da regressão é racionalizado com a roupagem dos dogmas religiosos.


· Introjeção
Outro mecanismo muito presente no contexto das crenças religiosas é a introjeção, que como o nome sugere é o mecanismo usado pelo Ego para absorver conteúdos presentes em outras pessoas ou objetos e aceitá-los como sendo seus. A introjeção é uma defesa contra a angústia que surge quando o Ego encontra em si a ausência de algum conteúdo. O conteúdo que se absorve do outro pode ser um estilo de roupa, gíria, o visual e até formas de pensar. No campo religioso Zimerman tem um ótimo exemplo:
A igreja foi utilizada por Freud como modelo de liderança que se processa através do fenômeno introjetivo, ou seja, todos os fiéis incorporam a figura de um mesmo líder – na igreja cristã é a figura de Jesus Cristo, o qual, por sua vez é o representante de Deus. Forma-se, pois, uma identificação generalizada com um líder abstrato, e isso mantém a unificação de todos os fiéis (Zimerman, 2008, p. 140).
Devido ao processo de identificação introjetiva as pessoas absorvem os dogmas ditados pelos líderes religiosos, assim como seus perfis, e os encaram como se fossem verdades do próprio Ego, assim pessoas muito religiosas encaram uma crítica teórica às suas crenças como se fosse uma crítica pessoal. 

Sandor Ferenczi foi o psicanalista que formulou o conceito de introjeção, segundo ele:
“Enquanto o paranóico expulsa do seu ego as tendências que se tornaram desagradáveis, o neurótico, procura a solução fazendo entrar no seu ego a maior parte possível do mundo exterior, fazendo dele objeto de fantasias inconscientes. Podemos pois dar a este processo, em contraste com a projeção, o nome de introjeção.” (Ferenczi apud Laplanche & Pontalis, p. 248)
O perigo de uma multidão que introjeta os conteúdos de um líder esta na possibilidade de que se introjetem suas características negativas como preconceitos, o que infelizmente é muito frequente.


· Projeção

Muito antes de Freud ter construído a Psicanálise, alguns filósofos já haviam entendido o fenômeno religioso como sendo resultado de projeções feitas pelo homem, tais filósofos foram Feuerbach, Durkheim, Marx, Erikson e Berger (Dalgalarrondo, 2008, p. 32). Feuerbach antecipa maravilhosamente o conceito psicanalítico de projeção, quando afirma que Deus é o interior do homem projetado para fora. Psicanaliticamente falando, o mecanismo da projeção é a:

Operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro – pessoa ou coisa – qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos” que ele desconhece ou recusa nele. Tratasse aqui de uma defesa de origem muito arcaica, que vamos encontrar em ação particularmente na paranóia, mas também em modos de pensar “normais”, como a superstição (Laplanche & Pontalis, 1994, p. 374).

Assim inferi-se que as entidades divinas são construídas por fatores genuinamente humanos, o homem criaria ideia de Deus projetando nela suas características mais essenciais, tais como amor, altruísmo, severidade, ódio, senso de justiça. A crença em Deus é resultado de projeções feitas a uma personificação imaginária. O homem projeta em seu Deus os seus sentimentos de superioridade, assim este Deus passa a ser visto como detentor de enorme poder. Este fenômeno projetivo acontece em escala cultural, sendo que geralmente um Deus trás com sigo características marcantes do povo que o projetou, exemplo: um povo que é amante da guerra pode ter um Deus guerreiro. Um povo egoísta e egocêntrico pode ter um Deus que deseje ser amado sobre todas as coisas. Um povo cuja cultura valoriza a agricultura pode ter um Deus da fertilidade. Pode-se até inferir que tendências como sadomasoquismo também são projetadas, assim criando Deuses que exigem sacrifícios humanos ou penitencias onde ocorrem autoflagelações. 

Na mesma linha de raciocínio é possível concluir que o Diabo é resultado das projeções que se faz dos conteúdos que foram reprovados e negligenciados na personalidade. Tais conteúdos foram reprimidos por serem incompatíveis com as normas morais. A ideia do Diabo é uma personificação criada a partir da projeção de tendências humanas que foram reprimidas com a internalização da moralidade. 

Da mesma forma, o inferno representa um mundo onde tudo é desprazer, onde haveria um altíssimo nível de excitações que ameaçariam as estruturas do Ego. Essa impressão implícita do homem projeta-se na cultura ocidental como sendo a punição aos comportamentos inadequados dos indivíduos enquanto vivos. A dualidade “punição-recompensa” presente no discurso religioso é o resultante de projeções de conflitos que naturalmente ocorrem dentro da personalidade (Id versus Superego repressor). 

A partir do conhecimento do fenômeno da projeção pode-se afirmar que o que é culturalmente explícito é consequência do que é psicologicamente implícito. E devido a projeções de sentimentos de superioridade um povo geralmente vê sua cultura como sendo superior às dos demais povos, sempre avaliando as outras a partir dos moldes da sua própria. Isso se mostra em expressões como “o meu Deus existe, os Deuses dos outros povos não”. Colocando a própria cultura e consequentemente a religião dela derivante acima de qualquer crítica. Historicamente se vê este sentimento irreal de superioridade cultural no massacre nazista aos judeus. Tal fenômeno é nomeado pelos antropólogos por “etnocentrismo”:

O etnocentrismo pode ser manifestado no comportamento agressivo ou em atitudes de superioridade e até hostilidade. A discriminação, o proselitismo, a violência, a agressividade verbal são outras formas de expressar o etnocentrismo (Marconi & Presotto, 2009, p.32).

· A ilusão do real


Como ficou explícito nesse trabalho, as crenças são meios pelos quais o Ego procura evitar frustrações, para isso criando fantasias, negando, distorcendo, racionalizando, regredindo, introjetando e projetando, podendo haver muitos outros mecanismos que para isso contribuem.

Diante destes fatos, inevitavelmente conclui-se que a mente não é “programada” para tentar entender o mundo, pelo contrário, os processos pelos quais se utiliza para se adaptar à realidade tendem a entendê-la da maneira mais agradável possível ao Ego. A realidade pode ser dura o bastante a ponto de impossibilitar o Ego de olhá-la de frente. Dessa forma o Ego a distorce para que fique menos ameaçadora possível. Isso talvez explique a pouca aceitação de visões existencialistas e niilistas do mundo. Talvez explique também a grande aceitação de ideias religiosas e supersticiosas.

O pensamento do homem é o pensamento do auto-engano, que sempre vê mais do que se tem para ver. É claro que existe uma realidade comum a todos que está fora de todas as representações psíquicas, mas ela está lá fora, distante. Esta realidade existe no mundo exterior e é recriada dentro da cabeça do homem. Contudo a realidade recriada na mente obedece às leis de um emaranhado de instintos e desejos, assim a realidade concebida pelo homem não passa de uma ilusão efêmera.

O homem nega e se defende de sua mediocridade existencial entendendo o mundo de maneira mística, supondo que por detrás das coisas existe uma razão oculta de caráter sobrenatural, que não se pode conhecer, mas que supostamente existe. Esta “razão oculta” subjacente às coisas só tem existência na realidade que está enclausurada e distorcida dentro da limitada e enganosa mente humana. 

No mundo exterior as coisas apenas existem, elas não têm uma razão de ser. Não há nenhum propósito ali. É uma característica marcante do homem, buscar explicações e razões para as coisas reais, mas a realidade não tem nenhum compromisso com o homem. A realidade simplesmente existe sem ter um “por que” de existir. O “por que” é invenção humana. Todo o significado que se tem do real ou é uma restrita e limitada descrição, ou é equivoco. 

A compreensão mística que o homem faz do mundo só existe em sua dimensão subjetiva, tal compreensão resulta de uma confusão muito comum; o homem vê o desconhecido como se fosse sobrenatural (ou paranormal). Esta confusão surge do já citado habito que se tem de colocar uma “razão oculta” nas coisas. Muitos exemplos disso encontram-se na história, quando a causa desconhecida de certas doenças era vista como possessões demoníacas ou castigos divinos. Hoje se vê esta mesma confusão no alicerce de pseudociências como a Parapsicologia. Na falta de conhecimento o homem prefere dar explicações improváveis e místicas para suas questões, do que permanecer num ceticismo investigativo. Com o tempo tais perguntas são respondidas de maneira adequada e o que era “sobrenatural” se converte em algo simples e, a cima de tudo, algo natural.

A partir de fenômenos biológicos surgem as representações dos sentidos, tais representações são falhas e restritas, pois os sentidos não captam o mundo externo com a devida exatidão. Posteriormente, por meio de fenômenos psicológicos, são distorcidas as limitadas representações dos sentidos para que se adéquem às necessidades egóicas do indivíduo. O resultado de todo este processo é um “mundo humano”, muito diferente do mundo real.

Muito daquilo de que se chama “realidade objetiva” pode não ter objetividade, mas ser apenas resultado de uma concordância de ideias entre as pessoas. A ilusão que se faz do real é tão intensa que é inevitável ter a impressão de que as coisas são como parecem ser. O mundo não é conhecido, dele têm-se apenas representações criadas a partir dos órgãos dos sentidos. Quando investiga-se as coisas, na verdade o que esta sendo investigando são as representações criadas a partir destas coisas, não se tem acesso direto a elas.

Para se ter uma noção do quando a “realidade” subjetiva do homem é dependente das frágeis representações dos sentidos, basta que se imagine um homem que foi acometido por uma gravíssima doença e acabou perdendo completamente a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato. Obviamente este homem não teria mais nenhum contato com o mundo externo, nada lhe poderia ser comunicado do exterior, assim como ele nada poderia comunicar ao mundo. Sua realidade estaria restrita ao que ele absorveu do mundo antes da doença. Com o tempo as suas lembranças ficariam confusas e aos poucos sua realidade se dissolveria. Ele iria viver em um contínuo nada. Ele estaria de frente com o vazio de sua própria existência. 

Também é possível imaginar uma criança que nasceu sem visão, audição, olfato, paladar e tato. Ela nunca teve contato com o mundo externo, ela possuía propriedades neurológicas para processar estímulos vindo do mundo, porem os veículos de tais estímulos não funcionavam. Durante sua vida ela nunca terá uma noção de si (do “Eu”) e muito menos de um “outro”. Suas funções cognitivas se atrofiaram por desuso. Sua mente nunca construirá uma realidade. Aqui se vê o quão dependente dos órgãos dos sentidos a “realidade humana” é. Da mesma forma se vê o quão inúteis seriam órgãos dos sentidos perfeitos para um cérebro que não pudesse criar representações de estímulos sensoriais. 

A realidade vivida pelo homem é feita de estímulos de órgãos sensoriais que não percebem o mundo perfeitamente, que se tornam representações cognitivas limitas. E posteriormente o “real” termina em distorções egóicas das contingências dessas representações. Assim restam poucas dúvidas sobre a fragilidade daquilo que se acredita ser verdade ou real. O homem está preso em sua ilusão do real. E como se sabe, a mais eficaz das prisões é aquela que não parece ser uma.

A busca por conhecimento, neste ponto, não tem nenhuma utilidade prática, pois nunca se saberá o que de fato está lá fora, no mundo verdadeiro. E no que se refere ao “conhecimento prático”, nunca serão conhecidas todas as respostas, pois não se pode ter todas as dúvidas.

Diante de todas estas informações conclui-se que o “real” é uma “virtualização mental” das impressões sensoriais vindas do mundo. E em seu mundo virtualizado o homem projeta um sentido que lhe é implícito. Fora dessas virtualizações reina o vazio, pois “só uma coisa preenche tudo – o nada” como diz Millôr Fernandes.

Diante do fato de que os processos mentais distorcem o entendimento do mundo para proteger a estrutura psíquica de uma realidade vista como ameaçadora, o mais sensato a se fazer posicionar-se como Pírron:

“As coisas são igualmente indiferentes, instáveis e indecidíveis; pelo que, nem as nossas sensações nem as nossas opiniões dizem a verdade ou mentem. Não se deve, por conseguinte, confiar nelas, mas permanecer sem opinião, sem inclinação e sem abalo” (Pírron apud Romão, p. 42).

Considerações Finais


Face ao fato de que a percepção da realidade é involuntariamente moldada, inferi-se que as crenças, sejam elas religiosas ou não, refletem o conteúdo dos desejos do intimo humano. Acredita-se naquilo que é, de modo geral, agradável se acreditar.


O egoísmo, pretensão, e o egocentrismo humano são determinantes da maneira como a realidade será distorcida no seu psiquismo, e isso se reflete em sua cultura, que posteriormente estará determinando o próprio psiquismo que a criou. Seja em âmbito cultural ou individual, os mecanismos de defesa estarão esculpindo a representação mental da realidade da maneira mais confortável possível ao Ego. Cada qual com seus mecanismos de defesa. Cada qual com sua realidade particular.



A Psicanálise serve de referencia para se estudar de maneira satisfatória um número descomunal de aspectos do homem. Quando se estuda o aspecto religioso com a psicanálise freudiana, o encanto é quebrado por uma explicação sistematizada e fria. Sendo a religião um fenômeno humano como outro qualquer, ela deve ser compreendida com base naquilo que constitui o homem. A ideia e a pretensão do homem em se considerar o propósito do universo é uma simples fantasia de seus desejos.

Bibliografia
LAPLANCHE, Jean & PONTALIS, j. –b. Vocabulário da Psicanálise, São Paulo: Ed Martins Fontes. 1994.
FREUD, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa, Porto Alegre: Ed Artmed. 2006.
ZIMERMAN, David E. Fundamentos Básicos das Grupoterapias, Porto Alegre: Ed Artmed. 2000.
ROCHA, Thiago Rodrigues da. O Ateísmo, Revista da FAROL, Rolim de Moura/RO – Ano VI – N° 11, p. 99 – 113 Jan/Jun. 2010
DALGALARRONDO, Paulo. Religião, Psicopatologia e Saúde Mental, Porto Alegre: Ed Artmed. 2008.
MARCONI, Marina de Andrade & PRESOTTO, Zélia Maria Neves. Antropologia, uma introdução, São Paulo: Ed Atlas S.A. 2009.
ROMÃO, Rui Bertrand. O Conceito de ataraxia nos pirrônicos antigos e na apologia de Raimundo Sabunde, in R.B. Romão (Ed), O ceticismo e Montaigne, UBI, Covilhã (2003), PP. 39-58.
FERNANDES, Millôr. A Bíblia do Caos, Porto Alegre: L&PM Pocket. 2002.

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