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terça-feira, 29 de outubro de 2024

Índia, musa da poesia

 


ÍNDIA, MUSA DA POESIA

A Índia brada
Aos sete espíritos da flora
Que lhe consagram senhora
À telúrica encantada

De poetisa à poesia
Numa noite enluarada
Musa de toda hora

Tem a alma de outrora
Sem a cara pintada
De humanidade consagrada
Que lhe respeita mundo afora

E a poesia deflagra em sua fala
Se já não fosse índia
Faria-lhe tantas vezes Onhara
Pra Lua dormir enamorada

E tornar mais verde o meu dia

A literatura se inebria
Com sua literária jornada
No bar da fantasia

Há fantasia literária
Na jornada do dia,
Ébrios buscando poesia
Que na musa índia aflora

quarta-feira, 23 de março de 2011

FILHA DA NOITE

FILHA DA NOITE
por onde perambulam os sonhos de milhares de meninas e meninos?


há uma ruptura neste azul que te acinzenta

e te empalidece os olhos
sob o frio deste sol
a iluminar
mais uma manhã que não sorri

migalhas de gemidos
dançam
nos vãos de teus dentes amarelo-tabaco
sob a vertigem de estrelas artificiais
regada a alcaloides e anfetaminas
de fins de noite
em que luas se cobrem de limo
entre lençóis acres
torporosamente revirados
e fumaça

resta o vazio
a latejar ouvidos
o corpo cansado
ranhuras de amores fantasmas na pele
um choro no esôfago
e sonhos de princesa
trancafiados na masmorra
dos dias

amanhã
talvez
um talvez indolor
uma flor
nova cor
amanhã
de manhã

talvez

quinta-feira, 17 de março de 2011

FUMAÇA

FUMAÇA

Arrasto comigo uma sede
De cenas que não vivi
De barcos que já partiram
De peles que não senti
Arrasto uma linha pendendo
Pras bandas do fim do mundo
Que escorre a cada segundo
Nas brechas por onde adentro
E levo dois milhões de olhares
Mil bocas que não beijei
Imagens que guardo lá dentro
E um rastro que não deixei

quinta-feira, 10 de março de 2011

LIVRAI-VOS

LIVRAI-VOS

eu, um janota ultrajado de elegante capa relegado aos ermos empoeirados das estantes

não ostento saber-me culto - cultuar-me sábio
até ser revelado

pediria muito se com a seiva de suas línguas me ungissem?
se as pontas de seus dedos me revirassem a pele fina?

sedutor:
primeiro lhes cortejaria com minhas orelhas tatuadas

amante:
convidaria-lhes às minhas entranhas ao meu regaço

revelador:
daria-lhes impressões bifocais do meu nu em suas lentes embaçadas

arrebatador:
lhes conduziria a um certo ápice de prazer

(de saber saber)

que eu, livro do bem
livro do mal


CANTATA

CANTATA

eu tenho uma saudade circulando nas veias
saudade que gira, que me entontece

uma saudade que me compõe
que se me impõe

fora de mim é frio
o amor que esquento entre as vísceras
escondo das hienas

fora é frio e o vento fere
pele sobre pele
enquanto minha poesia se dissipa

eu tenho uma saudade que me assusta
e que me aquece

uma saudade no sangue
rubra
amarela
furta cor
da cor que eu pintar

e tenho as cores que quero
e as que não quero
cá em mim

fora é frio, mas tem os lábios
sim, os lábios
tem os lábios que me banham

e das certezas que não tenho
acomodo-as num ventre quente de mulher
aconchego-me

assim rasgo o tempo
canto horas que ouvi
carrego dias



Celso

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ESCRITO

ESCRITO

este lamento não tem som
pertence ao silêncio
e se compõe de inconcretudes

estes dizeres não têm forma
são ventanias
mas possuem a franqueza da rocha

se eu sangro pelas mãos
é porque os olhos já calaram
e a boca desconhece
as palavras que sinto

Celso Mendes