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terça-feira, 1 de março de 2011

EGO E A RELIGIOSIDADE (artigo científico)

https://jornaldelfos.blogspot.com.br/2011/03/ego-e-religiosidade.html
O Ego e a Religiosidade

Por: Thiago Rodrigues da Rocha

Resumo: O presente trabalho foi desenvolvido sobre o pretexto de usar da ótica psicanalítica para estudar a manifestação do comportamento humano da qual denomina-se “Religiosidade”. Tendo como proposta a afirmação de que a Religiosidade é resultado da ação dos mecanismos de defesa do Ego. Propõe também que os mecanismos de defesa e as nossas limitações sensoriais nos impedem de entender a realidade tal como ela é. Como ferramentas de coletas de dados utilizou-se a pesquisa bibliográfica e as observações participante e não participante.

Palavras-chaves: Ego. Religiosidade. Psicanálise. Comportamento. Realidade.

Introdução

Alguém que ouve a palavra religiosidade automaticamente evoca em sua mente ideias relacionadas à religião, ao transcendente, à esperança, à crença num ser divino. Esta palavra é também frequentemente relacionada com as chamadas “virtudes humanas”, tais como o altruísmo, a humildade, e até com conceitos mais amplos como sabedoria e felicidade. A religiosidade sempre foi colocada numa posição privilegiada, onde possui o status de determinante do “comportamento ideal”. 

Aprende-se a vê-la como algo que a principio está fora das pessoas, e que deve ser gradativamente adquirida e ampliada, pois se costuma relacionar a religiosidade com a quantidade de comportamentos desejáveis. Há pessoas que dizem orgulhosamente “eu sou religioso”, expressão que pode ser entendida como “eu sou integro, honesto e bom caráter”. A religiosidade é vista como referencial de comportamento, e as pessoas exigem para si os atributos que estão associados a ela.

A proposta do presente artigo é abordar o fenômeno religioso psicanaliticamente, expondo a religiosidade como sendo a consequência da ação de forças defensivas do Ego humano. No intimo do homem, a religiosidade pode não estar relacionada com virtudes, mas sim com tendências egoístas. Para demonstrar com clareza as afirmações que aqui serão expressas, é preciso explanar simples e brevemente a parte da história e da teoria da Psicanálise que se utilizou para formular o tema deste trabalho.

O aparelho psíquico

Ao escrever o livro “A interpretação dos Sonhos” em 1900, Sigmund Freud estabelece uma primeira concepção da estrutura do aparelho psíquico. Dividindo-o em três instancias ou “lugares psíquicos”, sendo eles o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Cada uma destas instancias diferem em suas funções, porem não podem de maneira alguma serem consideradas independentes uma das outras.

No inconsciente, a maior parte de nossa mente, estão os conteúdos psíquicos que não estão no “território” do consciente, geralmente são conteúdos reprimidos que são impedidos de “saltar” na consciência pela ação das censuras do pré-consciente, o inconsciente não é apenas um depósito onde “se vomita o lixo da mente”, ali estão também conteúdos essencialmente inconscientes, que nunca estiveram na consciência. O pré-consciente é a instancia que se localiza entre o consciente e o inconsciente, ali estão informações que em dado momento podem estar na consciência e em outro não, exemplo disso é o fato de que em uma conversa com um amigo, o contexto do diálogo trará lembranças e pensamentos que não estavam na consciência até aquele momento. Estavam obviamente no pré-consciente. 

Já a consciência, a menor parte do psiquismo, é a parte da mente que está sensível tanto ao mundo externo quanto ao mundo interno do homem, ali estão presentes as percepções, o raciocínio, a atenção e outras potencialidades. Nela está presente apenas aquilo de que se esta ciente no momento atual. 

Em 1923 Freud remodela o conceito acima descrito, incluindo agora estruturas como Id, Ego e Superego. No Id estão nossas pulsões mais primitivas, destacando-se as de caráter sexual, como um bom fisiologista, Freud descreve o Id como sendo de origem orgânica, sendo que ali opera o princípio do prazer e é o reservatório da energia psíquica.

O Superego Origina-se com o fim do Complexo de Édipo, quando é preciso internalizar os padrões sociais e culturais, as proibições e a moral. Ele atua sempre reprimindo as pulsões do Id. Já o Ego atua de maneira a atender aos desejos do Id sem deixar de atender às proibições do Superego, sempre agindo conforme o princípio da realidade. Sendo o Ego o componente psicológico da personalidade, ele busca estabelecer uma conformidade e equilíbrio entre o componente biológico (Id) e o componente social (Superego). Para o Ego é mais conveniente evitar o desprazer do que buscar o prazer. Suas funções básicas são sentimentos, pensamentos e memória.

Os mecanismos de defesa do Ego


Em dados momentos da vida psíquica de uma pessoa, ela passará por situações ou terá sentimentos internos que serão dolorosos ou até perigosos à estrutura de seu Ego, assim para proteger-se o Ego adota medidas de defesa, que nada mais são do que forças que visão evitar seu sofrimento (evitando o desprazer). Defendendo-o de lembranças traumáticas, pulsões proibidas (socialmente inaceitáveis), e também de fatores externos, como ocorrem em fases iniciais do luto, com a negação do fato da perda. Muitos mecanismos de defesa agem distorcendo a realidade, evitando que o Ego se frustre ao chocar-se com alguns fatos. Nas palavras de Anna Freud:

A palavra “defesa”, que empreguei tão livremente nos três capítulos anteriores, é a mais antiga representante do ponto de vista dinâmico, na teoria psicanalítica. Surge pela primeira vez em 1894, no estudo de Freud As neuropsicoses de defesa, sendo empregada aí e em muitos de seus trabalhos subsequentes (A Etiologia da Histeria, Observações Adicionais sobre neuroses de Defesa), para descrever a luta do ego contra idéias ou afetos dolorosos ou insuportáveis (Anna Freud, 2006, p. 37).

Os mecanismos de defesa são muitos, e diferem quanto às suas funções e modo de defesa, tendo em comum a missão de proteger o Ego. Muitos deles foram cunhados por Anna Freud:

Note-se que Anna Freud não pretende colocar-se numa perspectiva exaustiva nem sistemática, especialmente na enumeração que faz, de passagem, dos mecanismos de defesa: recalque, regressão, formação reativa, isolamento, anulação retroativa, projeção, introjeção, retorno sobre a própria pessoa, inversão em seu contrario, sublimação (Anna Freud apud Laplanche & Pontalis, 1994, p. 278).
Aqui estão dois exemplos de como atuam os mecanismos de defesa: (1) a negação, onde o Ego nega e exclui do campo consciente um fator da realidade que está lhe agredindo, exemplo: quando alguém nega estar doente ao receber o diagnóstico de que está prestes a morrer (Laplanche & Pontalis, p. 293); (2) a compensação é o mecanismo pelo qual o indivíduo busca inconscientemente compensar uma deficiência que pode ser imaginária ou real, de maneira a se tornar superior de alguma forma. A compensação é uma forma do Ego se defender de seus conteúdos considerados inferiores.

Bom, mas onde a religiosidade aparece nesta história? Ela é realmente resultado dos mecanismos de defesa do Ego humano? Como o encanto e as virtudes associadas à religiosidade poderiam ser reduzidos ao medíocre resultado do trabalho de mecanismos que defendem o Ego humano de frustrações?

O Ego e a Religiosidade: causa e efeito

A religiosidade surge e se mantêm no individuo, a principio, por comodismo cultural, um simples comportamento aprendido. E depois como uma defesa contra fatos do mundo que são a antítese de suas ânsias egoístas, para isso usam mecanismos que atuariam no sentido de combater a angústia sentida ao se confrontar, por exemplo, com o fato da inevitabilidade da morte:

O ser humano ainda ao se deparar com o fato inevitável da morte, imagina e deseja uma vida após essa morte, uma vida eterna, num lindo paraíso, ao imaginar isso o ser humano ameniza o sentimento de angústia que surge de seu choque com a realidade (ROCHA, 2010, p.110).

Esta “angústia da morte” surge das noções de “minha morte” e “morte do outro”. A forma com que o homem vê a morte faz com que ele se coloque na tentativa desesperada de derrotá-la, desta forma colocando em cena uma gama de mecanismos defensivos, que geram fantasias inconscientes sobre a morte, onde se nega a aniquilação da existência pela fantasia de uma vida após a morte.

· Racionalização, Negação e Fantasia 

A noção de vida post-mortem seria uma “Negação pela fantasia”. Sendo que esta fantasia seria nada mais do que o resultado de uma racionalização, ou seja, o Ego estaria construindo explicações aceitáveis para comportamentos ou desejos cuja origem lhe é desconhecida ou inconfessável:

Processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma ideia, um sentimento, etc., cujos motivos verdadeiros não percebe; fala-se mais especialmente da racionalização de um sintoma, de uma compulsão defensiva, de uma formação reativa. A racionalização intervém no delírio, resultando numa sistematização mais ou menos acentuada (Laplanche & Pontalis, 1994, p. 423).

Sobre tal fantasia, pode-se dizer que ela expressa a realização de um desejo (o desejo de não morrer), seria uma “satisfação pelo ilusório”:

Roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em ultima análise, de um desejo inconsciente.

A fantasia apresenta-se sob diversas modalidades: fantasias conscientes ou sonhos diurnos; fantasias inconscientes como as que a análise revela, como estruturas subjacentes a um conteúdo manifesto; fantasias originárias (Laplanche & Pontalis, 1994, p. 169).

Para Freud ninguém crê na própria morte, inconscientemente o ego acredita que é imortal. Pode-se inferir que esta crença inconsciente do Ego intensifica o uso do mecanismo da negação, no sentido em que o Ego nega sua finitude. Juntamente a isso o Ego constrói a fantasia de um paraíso onde ele será eterno, onde não há frustrações, semelhante ao útero materno, racionalizando assim o desejo de se viver num mundo que é regido apenas pelo principio do prazer. Esta crença na vida eterna após a morte que se sofistica na religião é uma racionalização de desejos egoístas do homem, o desejo inconsciente de retornar ao útero da mãe, lugar que simbolicamente representa o paraíso ou o “céu”, onde não existe desprazer (Laplanche & Pontalis, p. 350).

Para o adulto o útero da mãe inconscientemente representa um mundo onde haveria um nível baixíssimo ou nulo de excitações, sem ameaças à estrutura do Ego. Conscientemente este útero é representado pelo “céu” onde tudo é maravilhoso, e o desejo inconsciente de retornar ao útero é racionalizado na consciência como o desejo de viver eternamente no “céu”. Isso impulsionaria a crença religiosa.


· Regressão

Outros mecanismos de defesa estão presentes no fenômeno psicológico da religiosidade. Observa-se a ação do mecanismo da regressão no seguinte exemplo:

A visão Freudiana sobre a religião é interessante. Freud vê que nela os homens são mantidos na imaturidade. As crianças, quando se sentem desamparadas e com medo, buscam nos pais abrigo e proteção, e os adultos buscam este abrigo e proteção num ser criado a partir das suas necessidades psíquicas. Para Freud, a religião mantém o homem na ingenuidade e no comodismo, portanto a hipótese de Deus daria ao homem a possibilidade de continuar sendo criança, não precisando tornar-se adulto (Freud apud Rocha, 2010, p. 110).

A regressão é o mecanismo de defesa que se caracteriza por retornar o comportamento do individuo a um nível anterior de seu desenvolvimento, fugindo do realismo e aliviando a ansiedade. Neste ponto vê-se que os adultos na intenção de se livrar do fardo de toda sua responsabilidade, se entregam a religião com a intenção inconsciente de retornar a um período de sua vida em que eram submissos e protegidos por uma inteligência maior (os pais), desta forma aliviando sua ansiedade. Este comportamento resultante do mecanismo da regressão é racionalizado com a roupagem dos dogmas religiosos.

· Introjeção
Outro mecanismo muito presente no contexto das crenças religiosas é a introjeção, que como o nome sugere é o mecanismo usado pelo Ego para absorver conteúdos presentes em outras pessoas ou objetos e aceitá-los como sendo seus. A introjeção é uma defesa contra a angústia que surge quando o Ego encontra em si a ausência de algum conteúdo. O conteúdo que se absorve do outro pode ser um estilo de roupa, gíria, o visual e até formas de pensar. No campo religioso Zimerman tem um ótimo exemplo:
A igreja foi utilizada por Freud como modelo de liderança que se processa através do fenômeno introjetivo, ou seja, todos os fiéis incorporam a figura de um mesmo líder – na igreja cristã é a figura de Jesus Cristo, o qual, por sua vez é o representante de Deus. Forma-se, pois, uma identificação generalizada com um líder abstrato, e isso mantém a unificação de todos os fiéis (Zimerman, 2008, p. 140).
Devido ao processo de identificação introjetiva as pessoas absorvem os dogmas ditados pelos líderes religiosos, assim como seus perfis, e os encaram como se fossem verdades do próprio Ego, assim pessoas muito religiosas encaram uma crítica teórica às suas crenças como se fosse uma crítica pessoal. 

Sandor Ferenczi foi o psicanalista que formulou o conceito de introjeção, segundo ele:
“Enquanto o paranóico expulsa do seu ego as tendências que se tornaram desagradáveis, o neurótico, procura a solução fazendo entrar no seu ego a maior parte possível do mundo exterior, fazendo dele objeto de fantasias inconscientes. Podemos pois dar a este processo, em contraste com a projeção, o nome de introjeção.” (Ferenczi apud Laplanche & Pontalis, p. 248)
O perigo de uma multidão que introjeta os conteúdos de um líder esta na possibilidade de que se introjetem suas características negativas como preconceitos, o que infelizmente é muito frequente.

· Projeção

Muito antes de Freud ter construído a Psicanálise, alguns filósofos já haviam entendido o fenômeno religioso como sendo resultado de projeções feitas pelo homem, tais filósofos foram Feuerbach, Durkheim, Marx, Erikson e Berger (Dalgalarrondo, 2008, p. 32). Feuerbach antecipa maravilhosamente o conceito psicanalítico de projeção, quando afirma que Deus é o interior do homem projetado para fora. Psicanaliticamente falando, o mecanismo da projeção é a:

Operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro – pessoa ou coisa – qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos” que ele desconhece ou recusa nele. Tratasse aqui de uma defesa de origem muito arcaica, que vamos encontrar em ação particularmente na paranóia, mas também em modos de pensar “normais”, como a superstição (Laplanche & Pontalis, 1994, p. 374).

Assim inferi-se que as entidades divinas são construídas por fatores genuinamente humanos, o homem criaria ideia de Deus projetando nela suas características mais essenciais, tais como amor, altruísmo, severidade, ódio, senso de justiça. A crença em Deus é resultado de projeções feitas a uma personificação imaginária. O homem projeta em seu Deus os seus sentimentos de superioridade, assim este Deus passa a ser visto como detentor de enorme poder. Este fenômeno projetivo acontece em escala cultural, sendo que geralmente um Deus trás com sigo características marcantes do povo que o projetou, exemplo: um povo que é amante da guerra pode ter um Deus guerreiro. Um povo egoísta e egocêntrico pode ter um Deus que deseje ser amado sobre todas as coisas. Um povo cuja cultura valoriza a agricultura pode ter um Deus da fertilidade. Pode-se até inferir que tendências como sadomasoquismo também são projetadas, assim criando Deuses que exigem sacrifícios humanos ou penitencias onde ocorrem autoflagelações. 

Na mesma linha de raciocínio é possível concluir que o Diabo é resultado das projeções que se faz dos conteúdos que foram reprovados e negligenciados na personalidade. Tais conteúdos foram reprimidos por serem incompatíveis com as normas morais. A ideia do Diabo é uma personificação criada a partir da projeção de tendências humanas que foram reprimidas com a internalização da moralidade. 

Da mesma forma, o inferno representa um mundo onde tudo é desprazer, onde haveria um altíssimo nível de excitações que ameaçariam as estruturas do Ego. Essa impressão implícita do homem projeta-se na cultura ocidental como sendo a punição aos comportamentos inadequados dos indivíduos enquanto vivos. A dualidade “punição-recompensa” presente no discurso religioso é o resultante de projeções de conflitos que naturalmente ocorrem dentro da personalidade (Id versus Superego repressor). 

A partir do conhecimento do fenômeno da projeção pode-se afirmar que o que é culturalmente explícito é consequência do que é psicologicamente implícito. E devido a projeções de sentimentos de superioridade um povo geralmente vê sua cultura como sendo superior às dos demais povos, sempre avaliando as outras a partir dos moldes da sua própria. Isso se mostra em expressões como “o meu Deus existe, os Deuses dos outros povos não”. Colocando a própria cultura e consequentemente a religião dela derivante acima de qualquer crítica. Historicamente se vê este sentimento irreal de superioridade cultural no massacre nazista aos judeus. Tal fenômeno é nomeado pelos antropólogos por “etnocentrismo”:
O etnocentrismo pode ser manifestado no comportamento agressivo ou em atitudes de superioridade e até hostilidade. A discriminação, o proselitismo, a violência, a agressividade verbal são outras formas de expressar o etnocentrismo (Marconi & Presotto, 2009, p.32).
· A ilusão do real

Como ficou explícito nesse trabalho, as crenças são meios pelos quais o Ego procura evitar frustrações, para isso criando fantasias, negando, distorcendo, racionalizando, regredindo, introjetando e projetando, podendo haver muitos outros mecanismos que para isso contribuem.

Diante destes fatos, inevitavelmente conclui-se que a mente não é “programada” para tentar entender o mundo, pelo contrário, os processos pelos quais se utiliza para se adaptar à realidade tendem a entendê-la da maneira mais agradável possível ao Ego. A realidade pode ser dura o bastante a ponto de impossibilitar o Ego de olhá-la de frente. Dessa forma o Ego a distorce para que fique menos ameaçadora possível. Isso talvez explique a pouca aceitação de visões existencialistas e niilistas do mundo. Talvez explique também a grande aceitação de ideias religiosas e supersticiosas.

O pensamento do homem é o pensamento do auto-engano, que sempre vê mais do que se tem para ver. É claro que existe uma realidade comum a todos que está fora de todas as representações psíquicas, mas ela está lá fora, distante. Esta realidade existe no mundo exterior e é recriada dentro da cabeça do homem. Contudo a realidade recriada na mente obedece às leis de um emaranhado de instintos e desejos, assim a realidade concebida pelo homem não passa de uma ilusão efêmera.

O homem nega e se defende de sua mediocridade existencial entendendo o mundo de maneira mística, supondo que por detrás das coisas existe uma razão oculta de caráter sobrenatural, que não se pode conhecer, mas que supostamente existe. Esta “razão oculta” subjacente às coisas só tem existência na realidade que está enclausurada e distorcida dentro da limitada e enganosa mente humana. 

No mundo exterior as coisas apenas existem, elas não têm uma razão de ser. Não há nenhum propósito ali. É uma característica marcante do homem, buscar explicações e razões para as coisas reais, mas a realidade não tem nenhum compromisso com o homem. A realidade simplesmente existe sem ter um “por que” de existir. O “por que” é invenção humana. Todo o significado que se tem do real ou é uma restrita e limitada descrição, ou é equivoco. 

A compreensão mística que o homem faz do mundo só existe em sua dimensão subjetiva, tal compreensão resulta de uma confusão muito comum; o homem vê o desconhecido como se fosse sobrenatural (ou paranormal). Esta confusão surge do já citado habito que se tem de colocar uma “razão oculta” nas coisas. Muitos exemplos disso encontram-se na história, quando a causa desconhecida de certas doenças era vista como possessões demoníacas ou castigos divinos. Hoje se vê esta mesma confusão no alicerce de pseudociências como a Parapsicologia. Na falta de conhecimento o homem prefere dar explicações improváveis e místicas para suas questões, do que permanecer num ceticismo investigativo. Com o tempo tais perguntas são respondidas de maneira adequada e o que era “sobrenatural” se converte em algo simples e, a cima de tudo, algo natural.

A partir de fenômenos biológicos surgem as representações dos sentidos, tais representações são falhas e restritas, pois os sentidos não captam o mundo externo com a devida exatidão. Posteriormente, por meio de fenômenos psicológicos, são distorcidas as limitadas representações dos sentidos para que se adéquem às necessidades egóicas do indivíduo. O resultado de todo este processo é um “mundo humano”, muito diferente do mundo real.

Muito daquilo de que se chama “realidade objetiva” pode não ter objetividade, mas ser apenas resultado de uma concordância de ideias entre as pessoas. A ilusão que se faz do real é tão intensa que é inevitável ter a impressão de que as coisas são como parecem ser. O mundo não é conhecido, dele têm-se apenas representações criadas a partir dos órgãos dos sentidos. Quando investiga-se as coisas, na verdade o que esta sendo investigando são as representações criadas a partir destas coisas, não se tem acesso direto a elas.

Para se ter uma noção do quando a “realidade” subjetiva do homem é dependente das frágeis representações dos sentidos, basta que se imagine um homem que foi acometido por uma gravíssima doença e acabou perdendo completamente a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato. Obviamente este homem não teria mais nenhum contato com o mundo externo, nada lhe poderia ser comunicado do exterior, assim como ele nada poderia comunicar ao mundo. Sua realidade estaria restrita ao que ele absorveu do mundo antes da doença. Com o tempo as suas lembranças ficariam confusas e aos poucos sua realidade se dissolveria. Ele iria viver em um contínuo nada. Ele estaria de frente com o vazio de sua própria existência. 

Também é possível imaginar uma criança que nasceu sem visão, audição, olfato, paladar e tato. Ela nunca teve contato com o mundo externo, ela possuía propriedades neurológicas para processar estímulos vindo do mundo, porem os veículos de tais estímulos não funcionavam. Durante sua vida ela nunca terá uma noção de si (do “Eu”) e muito menos de um “outro”. Suas funções cognitivas se atrofiaram por desuso. Sua mente nunca construirá uma realidade. Aqui se vê o quão dependente dos órgãos dos sentidos a “realidade humana” é. Da mesma forma se vê o quão inúteis seriam órgãos dos sentidos perfeitos para um cérebro que não pudesse criar representações de estímulos sensoriais. 

A realidade vivida pelo homem é feita de estímulos de órgãos sensoriais que não percebem o mundo perfeitamente, que se tornam representações cognitivas limitas. E posteriormente o “real” termina em distorções egóicas das contingências dessas representações. Assim restam poucas dúvidas sobre a fragilidade daquilo que se acredita ser verdade ou real. O homem está preso em sua ilusão do real. E como se sabe, a mais eficaz das prisões é aquela que não parece ser uma.

A busca por conhecimento, neste ponto, não tem nenhuma utilidade prática, pois nunca se saberá o que de fato está lá fora, no mundo verdadeiro. E no que se refere ao “conhecimento prático”, nunca serão conhecidas todas as respostas, pois não se pode ter todas as dúvidas.

Diante de todas estas informações conclui-se que o “real” é uma “virtualização mental” das impressões sensoriais vindas do mundo. E em seu mundo virtualizado o homem projeta um sentido que lhe é implícito. Fora dessas virtualizações reina o vazio, pois “só uma coisa preenche tudo – o nada” como diz Millôr Fernandes.

Diante do fato de que os processos mentais distorcem o entendimento do mundo para proteger a estrutura psíquica de uma realidade vista como ameaçadora, o mais sensato a se fazer posicionar-se como Pírron:
“As coisas são igualmente indiferentes, instáveis e indecidíveis; pelo que, nem as nossas sensações nem as nossas opiniões dizem a verdade ou mentem. Não se deve, por conseguinte, confiar nelas, mas permanecer sem opinião, sem inclinação e sem abalo” (Pírron apud Romão, p. 42).
Considerações Finais

Face ao fato de que a percepção da realidade é involuntariamente moldada, inferi-se que as crenças, sejam elas religiosas ou não, refletem o conteúdo dos desejos do intimo humano. Acredita-se naquilo que é, de modo geral, agradável se acreditar.


O egoísmo, pretensão, e o egocentrismo humano são determinantes da maneira como a realidade será distorcida no seu psiquismo, e isso se reflete em sua cultura, que posteriormente estará determinando o próprio psiquismo que a criou. Seja em âmbito cultural ou individual, os mecanismos de defesa estarão esculpindo a representação mental da realidade da maneira mais confortável possível ao Ego. Cada qual com seus mecanismos de defesa. Cada qual com sua realidade particular.


A Psicanálise serve de referencia para se estudar de maneira satisfatória um número descomunal de aspectos do homem. Quando se estuda o aspecto religioso com a psicanálise freudiana, o encanto é quebrado por uma explicação sistematizada e fria. Sendo a religião um fenômeno humano como outro qualquer, ela deve ser compreendida com base naquilo que constitui o homem. A ideia e a pretensão do homem em se considerar o propósito do universo é uma simples fantasia de seus desejos.


Bibliografia
LAPLANCHE, Jean & PONTALIS, j. –b. Vocabulário da Psicanálise, São Paulo: Ed Martins Fontes. 1994.
FREUD, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa, Porto Alegre: Ed Artmed. 2006.
ZIMERMAN, David E. Fundamentos Básicos das Grupoterapias, Porto Alegre: Ed Artmed. 2000.
ROCHA, Thiago Rodrigues da. O Ateísmo, Revista da FAROL, Rolim de Moura/RO – Ano VI – N° 11, p. 99 – 113 Jan/Jun. 2010
DALGALARRONDO, Paulo. Religião, Psicopatologia e Saúde Mental, Porto Alegre: Ed Artmed. 2008.
MARCONI, Marina de Andrade & PRESOTTO, Zélia Maria Neves. Antropologia, uma introdução, São Paulo: Ed Atlas S.A. 2009.
ROMÃO, Rui Bertrand. O Conceito de ataraxia nos pirrônicos antigos e na apologia de Raimundo Sabunde, in R.B. Romão (Ed), O ceticismo e Montaigne, UBI, Covilhã (2003), PP. 39-58.
FERNANDES, Millôr. A Bíblia do Caos, Porto Alegre: L&PM Pocket. 2002.

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