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Origem das Visitas

AROLDO FILHO

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O POETA E A LOBOTOMIA

Eu a conhecera há uns bons cinco anos. Manuela. Eu sempre a via com seus amigos no Bar Brahma, da São João. Descoladíssima, o tempo me fez presenciar altos porres daquela figura, que tal Rebordosa se chafurdava em mares de vodka Smirnoff.
Por vezes eu dava a sorte ao flagrá-la sozinha, então ia até ela e arriscava trocar umas idéias. Geralmente eu ria bastante principalmente quando ela estava "alta" e me divertia com suas maluquices e seu jeito paulistano de falar “pô meu! Se liga figura! Porra cara!” eram seus chavões lingüísticos prediletos. Porém há coisa de mais de ano nunca mais eu a vira e até soubera por um dos seus amigos que ela entrara num sério tratamento psiquiátrico. “Coisas de nervos” Ele me disse.
Portanto fora com imensa felicidade que a encontrei na semana passada, sozinha, na mesma mesa e a vodka de sempre. Dessa feita o papo foi louquíssimo, o que me fez supor que ela não estivesse totalmente recuperada, ou, quem sabe fosse eu quem estivesse com seríssimos problemas mentais. Ah sim! Não poderia esquecer de mencionar o fato que ela idolatrava Geraldo Vandré num fanatismo tão exacerbado que tratava a todos, sem distinção de credo, da raça ou cor, pela alcunha de Geraldo ou Vandré.
E assim lá estávamos nós nesse reencontro que teimava celebrar a sanidade, referendando-nos com mútuas palavras de carinho para depois nos emaranharmos na deliciosa fatalidade do abraço fraterno.

-Vandré, me diga, tem visto a Luiza? – Ela perguntava sobre uma amiga nossa em comum.

-Não sei Manuela! Faz um tempaço que não a vejo por aqui. Unicamente sei dos caroços de abacates que engulo. E juro; gostaria de saber fazer deles poesia - Brinquei.

-Ah, é mesmo! Quase sempre que me esqueço que és poeta. Eu adoraria ser poetisa. Porém, reles mortal, infelizmente não tenho a mesma percepção e sensibilidade de vocês, a casta nobre, e porque não dizer; bando de vagal!
Talvez ela estivesse com a razão; fazia mais de 7 anos que eu não sabia o que era ter carteira assinada. Independente da realidade dos fatos, aquilo de certa forma me espezinhou e eu fui ao revide:

-Bem..Veja, não está notando, mas... Nem sempre aquilo que os olhos vêem
é o que a mente estratifica É jovem, bonita, mas talvez não tenha talento. Provavelmente não percebe que a poesia nada mais é que o processo da vida, a capacidade à introspecção, ao interior, o âmago. Portanto, quem é poeta não precisa descer pelos elevadores de cabines laminadas de um envidraçado edifício de executivos.

-Sim, mas... - Ela tentou argumentar

-Mas, nada! - A interrompi - Será que você não andou sofrendo algum processo de lobotomia? - Finalizei. Ela me olhou atônita.

-Geraldo do que fala o poeta Vandré? - Ela questionava de sua entidade favorita - Tu deverias ser compositor de MPB e jamais um poeta! Afinal, que porra de papo é esse meu... estudioso?

.-Ah, bobagem minha, Manuela! Apenas tento seguir a canção que bem poderia falar das flores. Porém, como o que faço é poesia, canções não há nelas não! O que minha poesia tenta encontrar e é a rima certa, o sentimento exato! Por exemplo, peguemos isso do que estamos falando... Lobotomia.

Arrependi-me de ter sugerido ao pensar com meus botões; que porra de papo era aquele? - Tarde demais! Agora, realmente, ela parecia interessada em saber o que era lobotomia.

-Sim, Vandré! Mas... desde que eu saiba o que é isso. Tudo está muito confuso! Se explique, homem. O que é exatamente essa porra de... lobotomia?

-Ta bom, Manuela! - Fiz uma pausa e segui - Eu não tenho a mais absoluta certeza, mas, lobotomia é o processo onde após a cirurgia no cérebro o consciente é parcialmente apagado e você perde muito dos registros. Então você começa ter idéias fixas, crer em coisas que a todos pareçam inviáveis. Por exemplo, seria o mesmo que acreditar que em poesia abacate rima com Luzia. Evidente, haverá quem aceite a possibilidade, mas, sinceramente?
-Continuei - Seria pura idolatria de leitor que tudo consente aos seus autores favoritos. Ou seja; o leitor vai comer da mesma merda que eles comem, porém fará cara de satisfeito e dirá que comeu caviar.

-Porra, Vandré! Isso ta me parecendo uma sessão com doutor Maurício, o meu terapeuta! Claro, sem aquele aparato técnico, é lógico, mas...parece - Ela respondeu com feição compenetrada

Como eu tinha opinião toda própria e não tão favorável aos profissionais que transitam nessa área, :intervi

-Sim, mas veja, Manuela. Poetas que somos e que nada entendemos de psicologia , estamos anos-luz das poltronas dos terapeutas que, dum reles gato que mia querem nos fazer crer que há ali algum evento importante... - Não era o gato que miava e sim o leão que rugia – Eles irão alardear. E isso fora os valores absurdos cobrados pelas sesso...

-Vandré? - Ela interferiu, sorrindo.

-Sim Manuela!

-Então o sentido de lobotomia é mais ou menos esse? – Ela perguntou com olhos cravados em mim.

-Sim, acredito que é mais ou menos por aí – Confirmei. Momentaneamente seus olhos ganharam a rua ela se ateve ao movimento das pessoas e aos carros que passavam. Depois voltou-se para mim.

-Caracas! Eu vi num vídeo e até hoje não entendo como os “olivas” em plena ditadura deixaram o Geraldo Vandré cantar” Pra não dizer que no falei das flores” num daqueles festivais da Record. Foi um chute nos cornos do sistema!

-Como, Manuela? – Me surpreendi

Jesus! que versatilidade! num piscar de olhos transformara a nossa conversa de alho, para bugalho.

-Como assim, ó Vandré! Calibre os ouvidos para me escutar cristalinamente - Ela replicou avançando o par de seios por sobre a mesa - Eu quero mais é que os psiquiatras, a ditadura e essa tal da lobotomia vão à puta que pariu! –

Quem a ouvisse suporia que la estavam dois lunáticos revolucionários sussurrando contra o governo´ou uma classe médica específica. Depois gargalhou escachada e socou levemente o tampo da mesa.

"Bem feito, Vandré!" Disse para mim já que mereci aquilo. E ela tinha razão já que vez ou outra nós os poetas insistíamos em conversas que eram verdadeiros pés no saco.

“...Caminhando e cantando e seguindo a canção. Somos todos iguais braços dados ou não...”

Ela cantou baixinho remexendo o copo de vodka e fazendo o gelo girar enquanto me olhava através dele. Repentinamente Manuela da um salto da cadeira e exclama a pergunta:

- Cara, me diz uma coisa! Geraldo rima com Vandré?

Eu a olhei surpreso. Definitivamente, ela era .louquíssima.

-Rima! – Fui esperto; Confirmei

Talvez a relação de Manuela no tocante à Geraldo Vandré fosse um exemplo bem próximo da lobotomização. Provavelmente ela não veria nada nesse mundo que fosse aquém e nem além de Geraldo Vandré. E ela dera sorte. Poderia ter sido muito pior; Paulo Coelho, por exemplo.

Ah, lobotomia, lobotomia... Oras! Quem queria saber dela?m método tão arcaico que a medicina desistira dela, a psicologia não queria nem ouvir falar. Certamente nem mesmo os abacates e a tal da Luzia quereriam conhecer a tal lobotomia . E pra falar a verdade, nem eu mesmo sabia ao certo do que e porque estava falando dela.

Olhei para Manuela e ela estava especialmente linda naquela noite; vestia uma justa calça de jeans, branca e que combinava espetacularmente com sua blusa decotada e o par de seios 46. No rosto de nenhuma maquiagem seus olhos cintilavam que nem cometas triscando as noites de esperanças e de lua cheia.
E eu achei tão magico o momento que fiz levantar o meu copo num brinde.

-A Manuela! - Sorri.

“Vem vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora não espera acontecer” - Cantei e logo fui seguido por ela, num duo desafinado e quase ao sussúrro.

Terminado, Manuela piscou pra mim e tragou com vontade a sua dose de vodka como nos velhos e bons tempos. Era uma pena, mas....eu estava muito velho pra ela.
Talvez há cinco anos as minhas chances fossem melhores.

Véio China
Copirraiti, 2011 Jan

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