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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

CASTIGO


Quanta tortura
Para escrever
Um verso!

Mas também
Quem mandou
Meter-me a poeta
Só para sofrer?

Rosimar Brito

FLOR – SAUDADE


Eu te vi chegar
Trazendo um sorriso
E o Paraíso
Em teu olhar.
Mas o Destino quis
Mudar tua vida
E eu te vi, sofrida,
Partir a chorar,
Deixando o silêncio
Em teu lugar.

E na solidão
Que deixaste aqui
Ficou o jardim
E o colibri
Para beijar a flor
E falar de ti
Ficou a réstia de sol
Que na varanda se instalou;
E a borboleta
Travessa e mimosa,
Para completar
A beleza da rosa
Que tua mão
Meiga e carinhosa
Um dia regou.

Ficou o passarinho
Que saindo do ninho
Feito no telhado
(hoje reformado)
vem brincar na janela
e aquela estrela
a piscar na amplidão;
e a melodia da linda canção
que invadia a rua
nas noites de verão
(Eu tinha uma andorinha
que me fugiu da gaiola)
na voz do teu irmão _João _
enchendo de emoção
e de poesia
as noites de luar.

A casita fechada
A lamentar, calada,
A ausência tua,
Mostra tua imagem
Contemplando a rua

E no jardim florido
Onde tu plantaste,
Antes de partir
O teu coração,
Como viva prova
De tua amizade
Uma flor brotou
A flor da SAUDADE.



Rosimar Brito

PROMESSA


É tempo de saudades. O morangueiro está vivo e bonito, mas ainda não me deu seu fruto

Doce como aquele sorriso e vermelho como aquela paixão pela vida...

É tempo de saudades. Passam dias, passam meses, passam os anos e a dor não passa.

Como não reviver(mos) em lágrimas aquele dia fatídico, inesquecível?

Mas eu sei que estás bem porque plantaste otimismo e semeaste alegria em nossos corações. (teus filhos, irmã, netos, genros, noras, sobrinhos, primos) e também dos teus amigos, mesmo aqueles que não cumpriram as promessas que te fizeram.

Sei que ainda és o mesmo Zé de Negro
Exemplo de paz
Grande pai
Que saudade!

Ainda bem que existem
As plantas, as flores,
Os pássaros e a praça
Com suas cores e o seu jardim

Ainda bem que existem as músicas,
Cores, perfumes
Que nos invadem a alma
E nos enchem de lembranças.
Lembranças bonitas
Porque no Céu não existem lágrimas
Nem calendário
Por isso tentaremos sorrir
Nesta outra data do teu aniversário.

Aqui estou eu, sozinha, repleta de saudades
Dos meus filhos e de alguns amigos,
Entre os quais, esse pai maravilhosos
Um dos melhores homens que já conheci
E que, além de ser meu amigo, também nasceu
Na data em que eu nasci.

Rosimar Brito

PAI


Herói
Amigo
Cidadão.

Na estrada
No batente
Na cadeira da varanda
No frio banco da praça
Seja em que espaço for
No jardim, regando a flor
No quintal colhendo o mel
Pai
Herói
Amigo
Saudade
Quando a realidade
O joga nos braços do Grande Pai.

Companheiro,
Sustentáculo,
Apoio, porto seguro,
Estrela, espelho, certeza,
Luz,calor, colo, carinho,
Conforto, fé, esperança,
Confiança no caminho.
Firmeza, luta, coragem, cumprindo sua missão.
Segurança na viagem
Força e determinação
Se já no andar de cima
Lembrança, vida e rima
Da melhor canção.

Rosimar Brito

CANÇÃO PARA MAMÃE

(Paródia)

A você, mãe adorada,
Mui querida fada
Nossa saudação
Vamos cantar com alegria
E mostrar neste dia
Nossa gratidão.

És nosso amor preferido
O ser mais querido
Em nosso coração
És um lindo ser de luz
Que ao céu nos conduz
Com dedicação

Nós te adoramos, mãezinha
És santa e Rainha
De Deus criação.

Recebe, então, mamãe,
Nesta canção
Nosso carinho
E afeição.

Por teu amor, mamãe,
E doação
Muito obrigado
De coração!

Rosimar Brito

MEU CISNE

(Para Chrísley Dárcia)

Na magia do sonho, ela é a minha Alice.

Alice enfeita seu Reino Encantado, penetra o âmago da alma e extasia o olhar.

No mundo mágico e maravilhoso da música clássica seu corpo garboso de moça bonita e de mulher-menina, em ritmo harmonioso, lânguido e majestoso, desliza, flutua, encanta e fascina.

Com graciosa leveza corta, velozmente, o suntuoso espaço, sem qualquer embaraço, tranquilamente invade a sensibilidade de quem se deleita com tanta beleza.

Na ponta dos pés e no frufru da saia de véu está toda a riqueza, magia e nobreza da arte animada que Alice desenvolve com a faceira meiguice de uma Fada e a pose elegante de uma Princesa.

Alice reflete, no porte altaneiro e na flexibilidade dolente do corpo dengoso e brejeiro a ternura envolvente da boneca de pano, embalada secretamente pela menina inocente que brinca no coração de donzela adormecido ou escondido no íntimo de cada mulher.

O moço bonito que surge aflito do mundo dos sonhos, espera Alice para o abraço apaixonado. Ela, faceira e provocante, atende ao chamado. Joga-se-lhe aos braços numa atitude de entrega total.

Numa fração de segundos, porém, ei-la que, decidida, livra-se daquele abraço, foge daquele olhar...

Parece assustada vendo-se perseguida, mas continua a fazer seu jogo de sedução, parando junto ao moço galante, toca-lhe a face com um leve carinho. Depois foge correndo, negando-se a aceitar o inocente afago, o breve toque de mãos entre ela e o jovem Príncipe Encantado.

E assim Alice, qual borboleta travessa, ora vai, ora fica em seu eterno revoar no Jardim da Fantasia como se brincando de enganar.
Alice é estátua e liberdade; é gaivota e é pião; é sonho e realidade. 

Não pára, não ri, não canta. Só baila e encanta. É Cisne Branco no lago azul da Poesia.

Rosimar Brito

REMINISCÊNCIAS


Cada um dos irmãos atendia por um pseudônimo.
O meu era Nenca, que me foi dado pra minha irmã caçula.
Faltavam ainda nascer dois dos sete filhos que completariam a alegria daquela casinha de taipa. Casinha de apenas três cômodos: uma sala, um quarto e a cozinha.

Quase no meio da sala uma forquilha sem qualquer utilidade aparente.

A cama era o único móvel. Fogão à lenha, paredes baixas, duas portas e nenhuma janela.

No oitão vários cortiços e o exemplo de trabalho das abelhas.
Não havia preocupação com a linguagem, nem com a aparência física. A única Lei que imperava, de manhã à noite, era inventar e sorrir para eternizar os momentos de prazer.

Eram desconhecidos os significados das palavras: guerra, inflação, desenho animado, novela, e outros mais que hoje fazem parte do vocabulário da gurizada.

Só a Paz reinava na humildade da casita de chão batido.
E, diante das radículas secas de capim, imaginação e alegria explodiam em mim.

_ Óia, negrada! Vem cá!... [Óia aqui no assero! Tem é muito passarinzim!
E a garotada, em coro, respondia animada:
_Tráis, Nenca, tráis!...

Na verdade, esse idioma não era estrangeiro, nem código secreto. Só era plenamente entendido.

Era assim o dia todo. Assim era a vida inteira: Inocência, Pobreza e Felicidade morando na mesma casa; Liberdade brincando no terreiro.

Não havia muros, nem cercas, nem ruas, nem quintal. O terreiro emendava com a roça pequena e caseira onde os pés de mandioca cresciam viçosos para, de suas raízes, mamãe fazer “beijus de caco” e papai fazer farinha para vender na feira aos domingos. Farinha que a criançada, conformada, comia com feijão (feijão de corda). Farinha que a meninada, esfomeada, comia com sal (farinha seca) ou com café (café da manhã ou da tarde... qualquer hora no relógio da fome).

Somente raras vezes, dessa farinha, era feito um pirão gostoso da galinha que mamãe matava para a visita inesperada, ou para o filho que “fazia anos! (hoje aniversário”); ou ainda para aquele da família que estava doente...

O balanço de cipó, no galho da mangueira, ou do cajueiro, não causava brigas porque a união entre os irmãos de casa e os filhos dos vizinhos, e a obediência aos conselhos da mamãe (conselhos ou chineladas?) eram maiores que as arengas de menino.

No galho mais alto da mangueira o galo campina não podia esconder seu ninho porque os filhotes, tão logo fossem descobertos, iriam, coitados, morrer “empapados” com pirão de milho ou de farinha, na gaiola improvisada numa cabaça que a titia mandava do sertão.

A madrinha tinha a mesma autoridade da mãe. E na hora das conversas de gente grande, na beira do riacho, a meninada tinha de sair de perto e ficar calada como se nada escutasse. Não podia perguntar, nem se intrometer. _ Era feio e dava peia! _O “chiqueiro” das galinhas era bem varrido, porque ali era a casa da família de gente miúda, em que o “pai” ia para o trabalho, o “filho mais velho”, fazer compras na bodega do Geraldo (com dinheiro de folhas verdes); a “mãe” cuidava do “filho doente” e a “filha” era “aluna” da professora “Candinha” que morava na vizinhança e dava aulas em casa para os filhos das “comadres”.

E nesse faz de conta tudo era alegria com sabor de vida boa...

E a vida era apenas sonho. Sonho que de noite era ilusão e de dia era verdade. Sonho lindo que o tempo levou para não mais devolver, através dos anos que vieram a galope, trazendo, as rugas do rosto, o peso da realidade tão diferente da fantasia, e a triste certeza de que: Vida assim? NUNCA MAIS!...



Rosimar Brito

EROTOMANIA


Na cumplicidade da noite
O gole
O trago
O som
O mergulho no olhar

Nas meias-palavras
A intenção
A sondagem
O charme
A febre
A caça ao tesouro

No toque, a cobiça
No beijo, a delícia
O delírio
A emoção
A malícia

No abandono a dois
O perigo
O abismo
O cataclismo
O depois

No quarto proibido
A permissão

No mapa explorado
A explosão do prazer
O desejo saciado
O relax e...
Na erotomania
A certeza
Do nada...

Rosimar Brito

CONTRASTE


Diante dos meus olhos,
Bordada de luz,
Se expande
A cidade grande.

E no Livro da Vida
A noite escreve
A história dos homens:
De um lado, a prisão
O casebre
A solidão;
Do outro, o dinheiro
O poder
A mansão

Miséria
Vício
Luxúria
Paixão

Aqui, o grito:
_Existo!
Ali, o lamento:
_Desisto...

E nas esquinas da vida
O Destino conta histórias
lágrimas... sorrisos,
encontros... adeuses,

sonhos dourados
desejos proibidos
paz... guerra
céu... terra
tudo... nada!



Rosimar Brito

SER MULHER


Dizia-me a Ilusão:
_Observa ao teu redor
não vês a vida
A sorrir em flor?

Por que te deixas, então,
Ser escrava num fogão
Se conheces teu valor?
Como aceitas ser, na cama,
Boneca de porcelana
De quem não te tem amor?

E me lembrava a razão
As palavras sem emoção
Na queixa que um dia lhe fiz:
_ O jovem romântico
Me sussurrou:
_És um sonho!...
E nesse sonho eu viajei.

O Poeta feiticeiro
Me falou numa canção:
_És uma flor.
E eu me envaideci...

O aventureiro exclamou:
_És um estrela!
E eu me deixei alcançar...

O andarilho sonhador me segredou:
_És uma Fada!
E eu sorri feliz...

Todos me viram
Como nunca fui:
Menina ingênua,
Moça faceira,
Princesa ou Rainha,
Deusa, Musa,
Santa ou Pecadora.

Para muitos fui amiga
Irmã e até conselheira
Fui Cleópatra ou Dulcinéia;
Fui Maria ou Madalena,
Verônica, Judith, Éster...

Só não fui, meu Deus,
Que pena!
Só não fui aos olhos deles
O que realmente sou:
MULHER!

Rosimar Brito