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Origem das Visitas

AROLDO FILHO

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segunda-feira, 7 de março de 2011

ESFAQUEADORES


Quando comecei a derreter tinha um certo sentimento ainda pairando pela minha cabeça. Claro que não sou tão antiquado de pensar que isso tem a ver com o coração, claro que não. O que me consolava é que meu derretimento, atipicamente, começou pelos membros inferiores, o que me dava um tempo para resolver esses assuntos pendentes. Então, peguei meu instrumento, temendo um derretimento precoce do braço antes de executar minhas obrigações, e saí.

Eu caminhava já com dificuldade quando começou, afinal, no início, o derretimento é um processo bem rápido, como todos sabem. Como dizem os biólogos, “se trata de uma grande brincadeira de mau gosto do Grande Designer, para fazer com que o desespero tomasse conta do cérebro dos primeiros seres que traziam ativos consigo os pia-genes, ou genes piada. Por algum motivo, os animais que tinham esse gene ativo tinham maior chance de acasalar, disseminando essa característica para as gerações futuras. No caso, nós.” O Grande Designer tem um senso de humor peculiar.

Soube que ele mora numa lua a 234 parsecs daqui, e que gosta de suco de morango.

O andar que adquiri ao derreter já era um motivo de piada para os ainda não derretidos que cruzavam meu caminho. Sempre algum idiota segurava alguma pedaço meu que ficava pra trás e gritava: amigo, você esqueceu seu calcanhar! ou coisa que o valha.

Imagem e semelhança, percebem, não é?

Uma tremenda pena que, possivelmente, não vou poder rir de nenhum desses zombadores quando suas cabeças, braços, tórax e et ceteras qualqueres começarem a cair por aí também.

Grande Designer pouco piedoso, por favor, dá pra parar de jogar video-game com um macaco prego e rogar por mim?

Eu ia na casa de MAAAAAAA, minha noiva, avisar que eu era realmente um rapaz precoce, e que ela teria de arrumar um outro pra tentar se reproduzir, quando pudesse.

Normalmente, o percurso até lá demora cerca de 20 minutos. Saio da minha toca e, normalmente, checo a temperatura do túnel com minha língua depois de pelo menos 4 loopings feitos, de maneira parcimoniosa, a uma distância de 3 ou 4 centímetros da boca da minha toca na direção que pretendo ir, direita ou esquerda. É algo bem simples.

Mas, derretendo, não pude realizar esses loopings, o que me deixou muito chateado e que denota claramente a queda considerável na minha mobilidade.

Resumindo: meu dia não começou nada bem.

O túnel tinha cerca de 14 aberturas de toca no sentido da esquerda, e apenas uma, grande, no da direita. Mas eu não podia ir muito lá sem que fosse interrompido por um dos Esfaqueadores.

Então a minha esperança era chegar ao fim do túnel, na última toca, onde mora minha amada MAAAAAAA, para que possa me despedir e realizar todos os procedimentos legais e emocionais resultantes da minha nova condição física, tendo em foco as realizações dela para depois do meu derretimento total.

Eu já estava, mais ou menos, na metade do caminho quando minha perna esquerda terminou o seu processo de derretimento, de modo que tive que me arrastar. Não que seja muito doce o gosto do carpete, mas me incomoda muito a secura da boca ao passar o tempo todo lambendo o chão e as paredes. Não, eu não podia saltar usando uma perna, pois o teto do túnel é muito alto e isso poderia acelerar o processo para o resto de membro inferior que me restava.

Foi um tremendo sacrifício.

Me arrastei por cerca de 50 minutos, o que é um atraso muito considerável. Surpreendentemente eu ainda tinha um bom pedaço da coxa direita ao vislumbrar a entrada da toca da minha querida. Eu não via mais ninguém no túnel. Olhei para a grande abertura lá no fim e não havia nada, além dos meus pedaços, que eu poderia chamar de conformidade orgânica.

Bati com a cabeça na tampa da toca do meu amor 7 vezes. Como ela não atendeu, adentrei assim mesmo.

Creio que, mesmo me arrastando, tenha sido muito brusco.

Porque quando eu entrei, minha querida MAAAAAAA deu um tremendo de um grito agudo.

Isso não me assustou mais do que o fato de que, mesmo me arrastando pelo chão eu ainda conseguia ver a minha querida uns 1,5 metro mais baixa que eu.

Pedi-lhe silêncio e anunciei: querida, não poderemos continuar nossa relação pois, como você pode ver, ando derretendo muito mais rápido do que as pessoas normais derretem, o que considero uma tremenda pena, pois sou o primeiro da família a derreter tão rápido. E, ora veja, foi tão atípico que atingiu primeiro meus membros inferiores. Declaro aqui encerradas nossas relações, sejam sociais ou carnais, deixando-a livre para procurar um outro parceiro sexual daqui por diante.

Ela continuava gritando agudo, o que me incomodava muito agora, mas eu só disse isso mesmo a ela, afinal o protocolo diz para não sermos muito extensos nos nossos discursos de encerramento de relações para fins de intercurso/reprodução.

Continuei falando: e então, querida, como manda o protocolo, o meu beijo de despedida.

Com o instrumento adequado, que vinha carregando em minha mão que, graças à boa vontade do Grande Designer, não havia derretido, beijei a testa da minha amada.

Quatro vezes.

Não sei se foi a intensidade da minha paixão ou simplesmente minha pressa em terminar aquele processo tão maçante, mas minha querida MAAAAAAA parou de gritar assim que comecei a beijá-la. Quando terminei, dormia como um filhote de animal nos braços da mãe, aninhada ao travesseiro e à cama.

Um aspecto interessante que constatei quando tirei minha mão de MAAAAAAA: alguns pedaços dela ficaram grudados nos meus dedos, mas minhas pernas já tinham derretido completamente, então não pude limpá-la nas minhas calças.

Logo, olhei para minha querida MAAAAAAA e disse: meu amor, acho que você também está começando a derreter. E pela cabeça, como todas as pessoas normais. Mal espero encontrá-la naquela lua a 234 parsecs onde mora o Grande Designer, para que tomemos suco de morango durante toda a duração da nossa segunda fase larval.

Então abri um sorriso, amplo, e esperei minha cabeça derreter também.

Eu estava parado, de pé, diante de MAAAAAAA quando os Esfaqueadores vieram. Eram muitos, e todos pularam em cima de mim.

De pé. Assim mesmo eu estava, o que denotava que o processo de derretimento havia sido retardado. Logo, eu precisava afastá-los, por isso esperneei um pouco e comecei a chorar.

Os Esfaqueadores, com aquelas túnicas brancas e aquelas facas de ponta finíssima, tinham uma força muito grande, era inútil lutar contra eles por muito tempo. A coisa ruim sobre eles é que, quando eles estão por perto, você pára de derreter se sua cabeça ainda não foi atingida pelo processo. Pior, tudo o que já tinha derretido antes volta ao normal. Mas é um processo quase imperceptível: você pode estar apenas cabeça e pescoço, mas quando eles chegam perto, você só percebe que está de pé novamente quando os vê.

Acho que sou o único que passou por esse processo que conheço. Garanto-lhes: é assustador.

Alguns dos Esfaqueadores mexeram na minha querida MAAAAAAA, que estava na cama, a cabeça toda derretida, numa massa assim: vermelha, marrom, cinza, preto, branco, rosa, cinza, vermelha, vermelha, amarela, vermelha.

Eu lutava e chorava enquanto muitos deles me abraçavam. Senti a fina dor de uma faca entrando no meu braço direito, deixando meus músculos doentes, dormentes, e minhas pernas moles. Desmaiei e só recobrei a consciência quando estava de novo batendo a cabeça naquelas paredes, com os braços amarrados, defecando e urinando pelos cantos, para que tivesse um pouco de comida e água decentemente processados à disposição.

Não sei quanto tempo vou passar aqui, dessa vez.
                                                                   Fillipe
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